A renovação política começa com a eleição (4)

O foco principal da renovação política não está na eleição presidencial, mas nas eleições para a Câmara Federal. É nela que residem os principais focos de resistência às mudanças. 

Como depende dela a aprovação de leis e, principalmente, das Emendas Constitucionais, não interesse aos deputados eleitos, mudar os procedimentos que contribuem para a sua eleição e reeleição.

As mudanças terão que ocorrer a partir do eleitorado. Esse ainda tem uma visão distorcida sobre o papel dos deputados federais, decorrente da excessiva concentração de recursos e atribuições da União. Antecede a Constituição de 88, mas esta ampliou e consolidou a dependência dos Estados e Municipios, de recursos e ações federais.

O deputado federal pode ter dois papeis principais pela ótica do eleitor: a)ser um despachante junto ao Governo Federal, para destinar benefícios à sua comunidade ou ao Estado b) ser o representante do pensamento e da "visão de mundo" dos seus eleitores. 

O primeiro seria definido de "baixo para cima": a comunidade tem as suas condições de vida reais, com as suas necessidades, suas carências e elege os políticos para ajudar a atender essas carências promovendo a melhoria das suas condições de vida. Tem também as suas aspirações, e essas já decorrem da "visão de mundo": de como gostariam de viver. 

O segundo viria de "cima para baixo". O candidato apresenta as suas visões, os seus pensamentos e suas propostas e as submete ao eleitor. Supõe que o eleitor tem condições de entendê-las e, através desse entendimento, ficar sensibilizado e aceitá-las. Concordando com aquelas colocações, o eleitor votaria nele - o candidato propositor - para representá-lo no Congresso.

O candidato, por sua vez, pode oscilar entre "comprar" as aspirações dos eleitores ou "vender" as suas proposições. 

No primeiro caso o candidato precisa ter acuidade para compreender as aspirações e traduzir em formas de atendimento. O seu papel não é de legislador, mas ocupar uma vaga no Legislativo para negociar o atendimento pelo Governo das aspirações do seu eleitorado. Essas aspirações são limitadas por visões de mundo paroquiais, provincianos, isto é, de amplitude local. 

Emite opiniões ou apresenta posições e propostas, não do que efetivamente acredita, mas do que o eleitor quer ouvir. 

No segundo caso, o candidato tem ainda duas opções: na primeira, ele tem as suas visões e propostas e tenta convencer os eleitores em aceitá-las. Em geral, são de caráter ideológico. Ele precisa ser assertivo, transmitir credibilidade e autenticidade. Dizer o que acredita, pensa e não o que o eleitor quer ouvir, como no caso anterior.

Na segunda opção, ele parte das reivindicações da sua comunidade, mas busca reunir as de outras comunidades, buscando priorizar as mais comuns e definir proposições coletivas, com soluções mais amplas do que a de cada reivindicação específica. Isso envolve a formação de associações que seriam de bancada ou de partidos. 

Os partidos teriam a função de compatibilização, conciliação e consolidação das propostas de atendimento às reivindicações comunitárias. O risco dessa opção é que essa consolidação resulte em propostas genéricas do tipo "educação de qualidade", "universalização do saneamento", "emprego para todos", etc.

A primeira opção parte de modelos. Sejam teóricos ou adotados em outros países. Ou da imaginação e criatividade do candidato. Procura fazer com que os eleitores aceitem o modelo proposto. 

A segunda opção é mais complexa. Requer a compreensão dos problemas reais e a formulação de proposições abrangentes e de longo prazo, considerando as circunstâncias reais e as limitações.

Como os novatos, com pretensão de renovação e modernização, deverão se posicionar diante dessas questões e alternativas?

Assume-se que, por princípio, os novatos renovadores não aceitarão a alternativa populista. Por outro lado, a alterativa "modelista" é pouco eficaz, obtendo o apoio da tribo própria, mas com pouca repercussão no conjunto: não tem poder eleitoral suficiente. 

A opção seria a de partir dos problemas reais das comunidades ou redutos eleitorais para soluções eficazes replicáveis, subsidiando a proposição de políticas nacionais mais gerais, mas com elementos capazes de sensibilizar os diversos eleitores. Esses precisam perceber que as propostas, ainda que de âmbito mais amplo, resolvem os seus problemas ou necessidades específicas. 

(cont)







  

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