João Dória Jr será um bom Prefeito?

A avaliação sobre o futuro desempenho do novo Prefeito de São Paulo, requer - preliminarmente - a caracterização dos medidores ou parâmetros. Cada qual tem o seu para medir esse desempenho. E todos acham que os seus parâmetros representam o conjunto da cidade. Ou seja, ele será um bom Prefeito se aproximar da cidade que queremos: "nós quem cara-pálida?".

O Prefeito é a um tempo o principal gestor da máquina administrativa da Prefeitura: que arrecada tributos dos seus cidadãos, que deve prestar serviços públicos, como de educação, saúde, transportes públicos e outros, que tem o poder de regular atividades privadas, principalmente em relação ao uso e ocupação do solo, etc.

É ao mesmo tempo um dos principais gestores da cidade, com capacidade de influir no seu desenvolvimento (ou regressão) econômico, social, cultural e ambiental. 

O principal elemento da evolução da cidade de São Paulo é a inflexão demográfica e econômica. 

A população total da cidade de São Paulo ainda continua crescendo, mas em ritmo bem menor que dos anos anteriores, já próximo do crescimento zero e com diferenças de trajetórias. Enquanto o centro expandido já está com decréscimo de população, o centro histórico em processo de esvaziamento, as periferias seguem crescendo, porém com tendência desse crescimento migrar para os municipios vizinhos. 

As classes de maior renda seguem uma trajetória comum em todo o mundo desenvolvido:  uma baixa taxa de reposição (número de nascimentos menor do que os falecimentos) e maior prolongamento da vida, com "envelhecimento da população". Nesses segmentos o envelhecimento só não é maior porque parte migra para outras cidades, principalmente para cidades litorâneas.

Já nas classes de menor renda, as taxas de fertilidade ainda são elevadas, embora com tendência decrescente. A taxa de reposição ainda é alta em função da maior longevidade, com a população mais velha permanecendo na cidade, por não ter condições de migrar, como ocorre com os idosos das classes de maior renda. 

Essa dualidade demográfica será um dos maiores desafios do novo Prefeito, que não tem condições ou instrumentos para interferir no processo. Será um dado não gerenciável. O que ele poderá ou tentará será gerenciar a localização dessa população.

Porém a dualidade mais complexa é entre a cidade do trabalho e a cidade da moradia. Com um agravante pelas mudanças do mercado e legislação trabalhista. As moradias do centro expandido são também locais de trabalho. Uma grande parte ainda informal, não sendo captado pelas estatísticas oficiais.  Mas o exército de diaristas que se movimenta pela madrugada e pelo final de tarde é uma realidade visível que não pode ser desprezada.

A dinâmica econômica presente e futura não é favorável ao desenvolvimento econômico e de trabalho da cidade. Essa se desenvolveu como o principal polo de produção industrial do Brasil, acumulando e multiplicando o capital gerado pelo agronegócio, então fundado no café.

A cidade vem sofrendo com a descentralização da produção industrial e seu encolhimento nacional. A participação da indústria dentro do PIB é consistentemente decrescente, assim como a participação da indústria paulista dentro do contexto nacional. Não há perspectivas de reversão dentro do modelo atual: indústria 2.0 voltado para o mercado interno.

Com a cidade em crescimento econômicos por fatores exôgenos à ação da Prefeitura, para o Prefeito ser bom, basta ser um bom administrador da Prefeitura e acompanhar com os serviços públicos os aumentos de demanda que aquele crescimento gera.

Essas foram as circunstâncias dos Prefeitos anteriores da cidade. Alguns enfrentaram crises passageiras, mas não durante todo o seu mandato. O mais afetado pela crise econômica nacional foi Fernando Haddad. Estando o epicentro da crise na Região Metropolitana de São Paulo.

A concorrência de outras cidades

Dentro das novas perspectivas da economia nacional e mundial a cidade de São Paulo enfrentará a concorrência de outras cidades nos aspectos seguintes:

  1. como produtora industrial tradicional perdeu as condições de competitividade com cidades chinesas e outras asiáticas. Ganhos de produtividade nessa indústria ou redução do custo Brasil ou do custo São Paulo não serão suficientes para restabelecer a competitividade;
  2. perdeu também competitividade em relação a outras cidades brasileiras, tanto no próprio Estado, como em outros Estados, tendo ocorrido uma migração irreversível de indústrias instaladas na cidade para outros Municípios;
  3. São Paulo reúne as melhores condições para sediar a indústria 4.0 mas o Governos Municipal e Estadual tem sido menos ativos que outros Estados e cidades, principalmente Pernambuco e Santa Catarina nesse propósito. 
  4. São Paulo é a principal cidade da América do Sul, como sede empresarial, tanto de multinacionais instaladas na região, como das empresas nacionais, ainda que com instalações produtivas fora da cidade. A organização das cadeias produtivas priorizando a continentalização, tem feito da Cidade do México a principal concorrente de São Paulo, como sede preferencial das multinacionais. E o avanço de outras cidades, com a descentralização dos poderes tem retirado de São Paulo, algumas sedes;
  5. São Paulo se transformou na principal cidade financeira da América do Sul, sediando os principais bancos comerciais privados brasileiros, as sedes dos gestores de fundos de investimentos, a Bolsa de Valores e outras atividades financeiras. Ainda está muito à frente dos concorrentes, mas precisa se atualizar sempre para  não perder a liderança. É, provavelmente, o setor que sustenta a dinâmica da cidade, no meio à crise geral. Os rentistas continuam ganhando e consumindo.
  6. São Paulo é o principal centro de serviços da América do Sul, com áreas de excelência, como em saúde e educação superior, mas de acesso limitado. Está em curso um amplo processo de descentralização regional dos serviços, com o surgimento de outras cidades com centros de excelência.
  7. São Paulo é o principal hub do transporte aéreo da América do Sul, seja com Congonhas para os passageiros nacionais, como para os internacionais. Embora o aeroporto internacional esteja no município vizinho de Guarulhos, o turismo de negócios é concentrado na cidade de São Paulo. Mas está estrangulado por dificuldades de trânsito entre o aeroporto e o polo hoteleiro e de escritórios.
  8. São Paulo é o principal polo de consumo da América do Sul, seja em termos de volumes como de graduação. O comércio de luxo está concentrado em São Paulo. O processo de descentralização, com a emergência de novos polos de riqueza, vem e irão reduzir essa concentração comercial de São Paulo. 
São Paulo ainda está na liderança como principal polo econômico do país e da América do Sul. Já não é na América Latina, superada pela cidade do México. E está perdendo vitalidade. 

 O Prefeito não tem condições, pelo instrumental municipal, de promover a revitalização econômica da cidade, mas pode contribuir para agravar e acelerar a degradação.

Será um bom Prefeito para a cidade, se conseguir conter esse processo de perda relativa da importância econômica da cidade no cenário mundial. 

Ser um bom administrador dos serviços da Prefeitura não será suficiente para ser bem sucedido. 

Ao contrário dos seus antecessores (com exceção de Haddad) não terá um ambiente tranquilo de crescimento continuado e voltado a acompanhar, com os serviços muncipais, esse crescimento.

É a partir dessas considerações que poderão ser formulados os cenários do seu mandato. 
( cont)

















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