O problema de moradia da miserabilidade no curto prazo

Moradia não se resume a um teto para viver (ou sobreviver). E um local de repouso do trabalhador e para abrigar a sua família. O responsável pela moradia precisa trabalhar para auferir renda, porque não basta ter abrigo: precisa alimentar a si e a sua família. E quer ter na sua moradia um mínimo de equipamentos domésticos, desde o colchão à televisão, passando pelo fogão e o botijão de gás.
A condição básica da moradia do miserável é estar próximo às oportunidades de trabalho: trabalho informal, trabalho precário, mas fonte da renda mínima de sobrevivência. Ele não tem condições de pagar a condução para ir trabalhar e voltar para casa. 
Quando consegue essa condição melhora da miséria para a pobreza. Os que vivem e dormem nas ruas ou invadem prédios no centro, não são pobres.  São miseráveis, são os desamparados.
A visão idealista propõe a geração de empregos, mas a situação econômica geral não é favorável e não depende apenas de ações governamentais e das vontades políticas das autoridades públicas. Essas não tem o poder de determinar que o empresário aumente compulsoriamente o seu quadro de empregados. 
Criação de empregos formais depende de decisões empresariais, patronais e esses estão muito cautelosos. A sua missão não é social, é econômica e estão avessos aos riscos.
Sem aumento significativo dos empregos, com manutenção alta da desocupação, os pobres e miseráveis tem poucas opções de moradia. E não por gosto, mas porque seriam as poucas possibilidades de sobrevivência. Os pobres ainda tem a possibilidade de ir morar cada vez mais longe do centro, em áreas de baixo valor imobiliário, buscando trabalho mais próximos ao centro, gastando parte da renda com a condução. Alguns, como diaristas, ainda conseguem o ressarcimento do valor da condução. Os miseráveis nem isso. Não contam com o dinheiro para condução, tampouco tem quem pague por ela. Precisam morar mais próximo das oportunidades de trabalho. As oportunidades maiores estão na coleta e venda de resíduos: principalmente das latinhas e do papelão, os resíduos de maior valor. E esses estão nos polos comerciais e de entretenimento. Em torno desses se formam os cordões de pobreza ou de miserabilidade, com invasão de terrenos vagos ou de imóveis vazios.

O problema maior está no centro da cidade de São Paulo, pelo predomínio das visões classemediatistas sobre o urbanismo. As exigências de recuos dentro dos terrenos, limites de aproveitamento e outras exigências desvalorizaram os imóveis do centro, construidos em outros tempos, com padrões não condizentes com as alterações posteriores. Uma das principais exigências, superadas legalmente, mas não pelo mercado é de vagas nos edifícios. 
As limitações foram determinando a fuga dos moradores e do comércio de maior renda para outros bairros. Os imóveis desocupados e desvalorizados, foram sendo abandonados pelos proprietários.  O abandono não foi só físico. Os proprietários foram deixando de pagar os tributos e alguns deles foram assumidos pela Prefeitura, em função das dívidas. Edifícios comerciais foram abandonados por empresas, com débitos com a Previdência, como o caso do Wilton Paes de Barros, originalmente propriedade da principal produtora nacional de vidros que foi à insolvência, entregando o prédio ao INSS, para quitar as suas dívidas. 
Os proprietários privados, sem condições de venda e de alugueis muito baixo, até menores que dos tributos municipais, e sem possibilidade de reforma (retrofit) pelas exigências urbanísticas foram simplesmente abandonando as casas e edificios no centro. Em alguns casos os impedimentos foram agravados pelos tombamentos patrimoniais, com predomínio da visão estética. Sem possibilidade de reformas estruturais, esses imóveis permaneceram desocupados. 
Por outro lado, as entidades públicas que assumiram os imóveis, em troca das dívidas ficaram sem saber o que fazer com esses, porque sujeitas às mesmas exigências urbanísticas gerais, não tem condições de promover melhorias para torná-los mais atraentes para o mercado. E com os sucessivos impasses e confrontos entre visões divergentes dentro do próprio setor público, os imóveis ficaram abandonados.

(cont)






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