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Revoluções geracionais

A geração "baby boom" nascida logo após o término na II Guerra Mundial, quando os países saídos dos conflitos buscaram repor as perdas, fez uma "revolução barulhenta" em 1968, começando na Europa e se espalhando pelo mundo. A principal mudança cultural foi a "revolução sexual", acompanhando uma rápida urbanização e o predomínio do automóvel, como meio de locomoção. No Brasil, essa geração, oprimida por uma ditadura, teve as suas manifestações populares reprimidas, mas incorporou as mudanças culturais lideradas pelos seus contemporâneos dos países desenvolvidos. Essa geração é hoje, sexagenária, abandonando seus ímpetos revolucionários. Os que foram para o Poder, não deixaram boa imagem.
A geração subsequente, nascida entre o final dos anos 50 até os meados dos anos 70, fez poucas revoluções barulhentas, limitadas a alguns países  A principal teria sido dos movimentos pacifistas nos EUA, com a formação das "tribos" hippies que tentaram mudar a forma de viver, criando uma "nova civilização", mas acabaram retornando à convivência com o  "establishment". No Brasil foram às ruas nos movimentos de "Direta Já" e outros contra a ditadura e a censura. Hoje, cinquentões ou quase idosos vêm figuras relevantes da sua juventude defendendo restrições às informações, supostamente, em nome da privacidade.
Diversamente da geração anterior que teve que enfrentar "os anos de chumbo", na sua juventude, viveram uma fase de restabelecimento da democracia, onde políticos corruptos foram se apropriando do Estado, sob a complacência da sociedade. Os seus desafios foram viver ou sobreviver num ambiente altamente inflacionário, com sucessivos planos anti-inflacionários adotados e posteriormente fracassados, até a chegada do Plano Real, em 1995.
A geração dos nascidos nos meados dos anos 70 até o inicio dos anos 90, incorporou a cultura dos seus antecessores e promoveu revoluções silenciosas, movidas, principalmente, pelos avanços tecnológicos, com substanciais mudanças na forma de viver. A principal mudança foi nas comunicações, com a introdução e domínio universal do telefone celular, o uso dos computadores e formação das redes sociais pela internet.
Duas outras mudanças foram significativas: deixou-se a perspectiva de carreira, numa única empresa, com estabilidade  para uma carreira profissional passando por múltiplas empresas, preferencialmente pelo setor financeiro, que ainda oferece as melhores oportunidades de enriquecimento rápido. O carro passou a ser o principal objeto de desejo de consumo, passando a ser o principal modo de transporte, com redução do uso dos meios coletivos, nas grandes cidades.
Dentro dessa geração começaram a crescer as preocupações com as questões ambientais, que emergiram com maior força, nas gerações subsequentes. 
A mais nova geração, em fase juvenil, nascida a partir dos anos 90, ainda mais voltada ao uso da tecnologia para as comunicações e relacionamento, vem buscando mudanças importantes em relação à geração anterior. 
Muitos jovens estão buscando estabilidade empregatícia no setor público, através dos concursos. 
No mundo foram às ruas contra as ditaduras, mas que em alguns países resultaram apenas na mudança dos ditadores, e contra as políticas recessionistas determinando o aumento de desemprego. 
O Brasil ainda mantém elevados níveis de emprego, mas o perfil já mudou e continuará mudando. A indústria vem perdendo a sua condição de grande gerador de empregos, seja pela perda de competitividade mundial, como pela introdução de tecnologias substituidoras de mão-de-obra. 
A principal mudança, que vai afetar, temporariamente o modo de viver nas cidades é a perda da relevância do carro como principal objeto de desejo dos jovens. Os sucessivos aumentos dos congestionamentos nas grandes cidades tem levado muitos jovens a estender o período do "ainda sem carro" já comentado anteriormente.
A grande questão é se essa mudança é apenas de adiamento ou será definitiva com a adoção de novos padrões de viver nas cidades, aproximando a moradia do trabalho e usando meios não motorizados para os deslocamentos habituais ou o transporte coletivo?
As gerações mais antigas "moram perto", mas usam o carro "para ir à padaria". As mais novas estão indo a pé, ou usando a bicicleta, mas nesse caso tem dificuldade de estacionar com segurança. Elas podem ser furtadas e carregadas por pessoas a pé, diversamente das motos, um equipamento mais pesado. 
A redução do uso do carro não fez parte da agenda dos recentes movimentos de rua. O que os "sem carro" reivindicaram foi o "passe livre", para maior uso do transporte coletivo. Essa redução faria parte de uma "revolução silenciosa"?





Comentários

  1. Jorge, hoje os filhos da classe média entram no mercado de trabalho mais tarde. Podem, portanto, ficar sem o carro por mais tempo - até porque, entre o carro e o iPhone, ficam com este último. Mas e quanto às classes CDE? Estas sofrem diariamente com o transporte coletivo, e quem passa por aperto na jornada metrô-ônibus-trem vai querer o carro assim que for possível.

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  2. Fábio. Obrigado.
    Em artigo anterior do qual este é sequência, comento exatamente o adiamento da fase do "ainda sem carro", por opção.
    Já as classes C e D, assim que conseguem, compram o carro, mas nem sempre podem usar, em função do custo. Só o movimentam nos finais de semana, o que explicam os congestionamentos nos sábados.

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