quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

A classe média, sem carro

Como reação aos sucessivos e crescentes congestionamentos, vem aumentando a quantidade de integrantes da classe média no segmento "não quero ter carro". Eles vem ocupando principalmente imóveis na área central da cidade, com fácil acesso a uma estação do metrô.
Uma grande parte dos imóveis no centro de São Paulo, concluída até o final dos anos cinquenta, não tinha garagens. Os que tinham comportavam poucas vagas.
A carência de vagas levou muitos a migrarem para outras áreas onde as residências dispunham de vagas, promovendo a desvalorização imobiliária e a decadência sócio-econômica da área central.
Agora, na esteira, de lançamentos de apartamentos compactos sem direito a vagas, há uma demanda adicional desses imóveis mais antigos, mais espaçosos, mas sem vagas, provocando a elevação dos seus preços imobiliários, que se reflete nos alugueis. 
É um processo comum, o que tem como efeito a expulsão da população de menor renda que vão se refugiar em áreas próximas, onde a ocupação predominante e os riscos de segurança contém a elevação de preços.

O centro de São Paulo irá conviver com a diversidade e a desigualdade social, muito próximas.

Alguns dos sem carro ainda querem tê-lo para utilizá-lo nos finais de semana, ou para emergências, mantendo-os parado fora disso numa vaga junto ou próximo à sua residência. Na realidade são os "sem uso de carro".
Outros percebem que manter um carro tem um custo elevado, mesmo parado, com o pagamento do IPVA, licenciamento, eventual seguro e custo da vaga. Quando saem, além dos custos operacionais estão sujeitos à multas. Preferem não ter a propriedade de carro algum. 
Para isso pode contribuir a disponibilidade dos serviços de taxis, associados ao softwares que facilitam a localização.
Alguns desses "sem carro" passam a ser usuários da bicicleta. E ainda tem a alternativa do "carro do papai ou da mamãe".

É um fenômeno real e em evolução, com pronta resposta do mercado imobiliário, com um grande volume de lançamento de apartamentos compactos.

A questão maior é quanto os "sem carro" representam dos viajantes urbanos, ou seja, daqueles que se deslocam dentro da cidade, para se poder avaliar o real impacto sobre a mobilidade urbana.

A classe média seria a principal geradora de trânsito de automóveis na cidade. As gerações mais antigas resistem em se transferir para o meio coletivo. Mas as novas gerações sim.

Os jovens de famílias com mais posse, representavam a principal origem do aumento da frota de automóveis. Passavam da condição de sem carro, para com carro. Agora alguns (ou muitos) não querem passar à categoria do com carro. Alguns usando o carro dos pais, outros nem isso, passando a morar sozinho ou em repúblicas, sem a posse de carro.

Enquanto jovens solteiros estão entre os "não quero ou não preciso de carro". Mas depois quando se casam ou se juntam e tem filhos, passam à categoria dos "com carros".

O que vai acontecer com o mercado imobiliário quando esses "não preciso de carro" mudarem de categoria, passando a ser "com filhos" e "com carro". 

Haverá a reposição de tantos outros jovens com a opção de "não preciso de carro"? Ou, no extremo de idosos aposentados, que dispensam o carro? O volume de reposição será o suficiente para manter a dinâmica do mercado ou haverá um esvaziamento e perda de valor?

Deixando de lado a evidência de casos curiosos e pontuais, qual seria a efetiva representatividade dessa demanda, ao longo do tempo?


Um comentário:

  1. Jorge, a maior parte dos "sem-carro" de classe média são pessoas que estão ainda no colégio ou na faculdade. Não tem dinheiro para comprar carro, pois não tem ainda renda suficiente nem vontade de se meter em um consórcio, já que o iPhone ou o celular é o objeto de desejo de todos e é bem melhor gastar em viagens e "baladas" do que na manutenção de um veículo; além disso, quando precisam se locomover com o automóvel pedem carona aos pais ou, num extremo, emprestam o veículo dos "velhos" ou dormem com o(a) namorado(a) em casa.

    Há, porém, um fator que vai pesar mais tarde na compra do carro, e que foi citado por ti: quando trabalharem, precisarão do próprio veículo para o trajeto casa-trabalho-outra-atividade-qualquer. Acrescentaria, também, que a grande maioria dos paulistanos mora longe de seus locais de estudo, seja porque não quis se mudar da periferia ou vive em outros municípios; para estes o carro é fundamental, e assim que conseguem algum dinheiro se metem num consórcio ou financiamento para "deixar de andar de metrô".

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