quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Uma grande oportunidade ou um "elefante branco"

Um dos principais problemas apontados para a falta de competividade do Brasil  (dos produtos brasileiros ou dos produtos fabricados no Brasil) é a carência logística.

Temos o problema da não competitividade dos produtos do Brasil no mercado interno. Mas nesse caso o problema não é logístico, mas tributário, de custos de produção, etc. A partir do momento em que o produto importado sai do porto, o que corresponde ao sair da fábrica no Brasil, no caso do produto nacional, enfrenta as mesmas condições logísticas para suprir o mercado interno, sejam boas ou ruins.

Portanto, uma primeira colocação para entender melhor a questão e não ficar repetindo a mesma bobagem que tenho ouvido ou lido: O produto nacional não perde a competitividade em relação ao importado, por questões logísticas, dentro do mercado nacional.

A bobagem decorre de uma extensão acrítica dos problemas logísticos das commodities agrícolas e minerais produzidas nas áreas centrais do país, para chegarem aos portos. 

Perde sim no mercado externo. Começando pela sua localização. Por razões históricas. Ou melhores, por vieses históricos.

Num pais imenso, com um enorme litoral, foi natural que toda a ocupação inicial tenha sido no litoral. Isso tinha uma vantagem logística. A ligação entre as cidades litorâneas podia ser feita por cabotagem. Os passageiros viajavam nos itas.  Não era necessária uma intensa ligação com o interior. Apenas com as áreas de reservas minerais. Mesmo para a agricultura, as terras próximas ao mar eram abundantes. Havia exceções e um bando de bandeirantes queriam ocupar o interior.

A visão militar queria uma industrialização afastada do litoral, para não ficar a mercê dos piratas e invasões dos inimigos pelo mar, mas não tão longe. Essa visão fez de São Paulo o grande polo industrial: próximo ao mar, mas protegido pelas escarpas da Serra do Mar. A mesma levou a instalação da primeira grande siderúrgica no Brasil em Volta Redonda.

Essa localização requereu uma logística adequada, satisfatoriamente resolvida por soluções tecnológicas.

A ocupação litorânea levou muitos críticos e parte da sociedade brasileira a criticar a ocupação territorial brasileira "de costas para o mar", quando estava "de frente para o mar". Frente ou costas era um ponto de vista. Mas os "neobandeirantes" e "interiorizantes" abriram frentes no inteior, mudaram a Capital para o planalto central, incentivaram a ocupação econômica no interior, sem a implantação de uma infraestrutura logística adequada. As carências foram agravadas com a disputa modal o que levou ao abandono de uma imensa infraestrutura ferroviária então instalada anteriormente.

Com as mudanças da organização espacial das atividades industriais, abrangendo a globalização, a melhor localização para as indústrias voltou a ser o litoral. A China, já dentro do novo modelo, repetiu o Brasil. Ocupou só a área litorânea. Só mais recentemente começou o processo de interiorização.

Com a globalização o melhor modelo de localização industrial passou a ser o porto-indústria. E a indústria que se instala junto ao porto, importa insumos, partes e até produtos prontos e exporta também produtos intermedários e finais. O porto-indústria depende menos da logística interna. O seu problema é a logística externa. 

O Brasil seculamente é contra o modelo exportador e por isso sempre foi contra o modelo do porto-indústria. A preferência era a indústria junto ao mercado consumidor.

A China avançou e o Brasil parou. Só recentemente passou a investir no novo modelo com Suape e Pecém, com severas criticas do "sul maravilha", principalmente dos paulistas, ciosos em manter o Porto de Santos com o principal "hub" portuário da América do Sul. 

Um empreendedor brasileiro megalomâniaco resolveu implantar no sudeste um grande porto-indústria. Não teve fôlego, quebrou, vendeu as instalações a um fundo estrangeiro que completou as obras portuárias. O Porto de Açu afinal ficou pronto.

Mas a retaguarda continua vazia. A indústria não chegou lá. Corre o risco de se tornar um enorme "elefante branco".

Se existe um gargalo portuário para a exportação de produtos industriais fabricados (ou montados) no Brasil, o complexo de Açu poderá vencê-lo. 

Mas o outro complexo, o psicológico, fará com que não aconteça tão rapidamente, isso se vier a ocorrer. 

O porto-indústria de Açu está fadado a ser mais um dos sonhos megalomaníacos deste Brasil Grande, que vai para a galeria das grandes frustrações nacionais.

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