segunda-feira, 9 de março de 2015

A primeira bomba estourou

No campo minado da política brasileira a primeira das bombas estourou, atingindo um pelotão que estava em cima dela, os que estavam próximos e com estilhaços que atingiram vários outros que estavam no campo de batalha. 

O pelotão mais atingido, ainda que com o maior número de baixas, todos feridos, sem nenhuma morte imediata -  que pode vir a ocorrer em consequência dos ferimentos - tem menor importância política. A única morte importante é do mentor que montou o esquema, que poderia ser caracterizado como o "Mensalão 2.0" ou como "Supermensalão". Faleceu no meio do processo, que teria levado a uma disseminação  da distribuição das propinas angariadas. 

No segundo grupo, fruto da expansão do esquema estão as figuras mais importantes, tanto do PMDB, como do PT. Nesses a distribuição teria ficado mais restrita, dai a quantidade menor, mas concentrada na cúpula.

Para avaliação dos cenários subsequentes é preciso considerar dois elementos fundamentais:


  • a de que a bomba que estourou é apenas a primeira de uma série que irá explodir ao longo deste ano e provavelmente ainda em 2016, fruto das demais delações premiadas e investigações da Operação Lava Jato;
  • não houve denúncia contra qualquer dos nominados, mas apenas a autorização para aprofundar as investigações, o que o foi pelo Ministro Teori Zavaski, dando margem para ampla defesa daqueles.


A primeira bomba destruiu toda a base do  PP, deixando de fora o notório Paulo Maluf. Mas que já tinha sido isolado do partido e continuará isolado.

Para o Governo isso significará uma perda quantitativa, porém relativa, pois o PP não tem condições de passar para a oposição. Até poderá tentar, mas essa não irá aceitar, pelo menos formalmente. Os seus congressistas tenderão a uma independência e aproveitar as brechas para mudar de partido. O PP foi ferido de morte e tem poucas, ou nenhuma condição de "dar a volta por cima". 

Para o Governo significa, por outro lado, uma pressão menor por Ministérios e por cargos no segundo escalão. Poderá haver atendimentos individuais, em função de conjunções regionais, mas o poder que o PP tinha, mantendo durante muito tempo o Ministério das Cidades, não terá mais. Na reforma ministerial ficou com o Ministério da Integração, um Ministério supostamente com muitos recursos, mas - na prática - com mais problemas do que com soluções. Terá que cuidar da transposição das águas do São Francisco, sem ter as verbas, seguras pelo Ministério da Fazenda. 

Terá que se dar por satisfeito se conseguir manter o Ministro, mas a tendência é de perder até mesmo esse espaço. 

Do ponto de vista numérico, mesmo com a perda do  PP, o Governo ainda manterá a maioria no Congresso, porém sem a segurança que teve nos mandatos anteriores do PT.

A bomba atingiu os dois principais partidos da base aliada do Governo, no Congresso: o PT e o PMDB. O PMDB de forma mais direta, pois alcançou os dois presidentes das casas legislativas: da Câmara dos Deputados e do Senado. 

A posição de Eduardo Cunha é menos problemática, porque o principal fato que pesa sobre ele é uma suposta entrega de dinheiro, feita a mando do doleiro Alberto Yousseff.  A menos que as novas investigações demonstrem um maior envolvimento dele com o  "pertrolão", ele - provavelmente - não vai se abalar. A Petrobras não era o seu principal campo de atuação. O que não significa que tenha recebido ajuda para a campanha.
Vai se defender, mas não vai atacar. Vai continuar buscando independência, sem se submeter aos desígnios do Planalto. Não aceitando negociações a curto prazo. Mas se for retaliado, irá revidar com força maior. O jogo continuará bruto. 

Já Renan Calheiros estará numa situação mais dificil, porque era efetivamente um dos principais chefes do grupo (para não chamarmos precipitadamente de quadrilha) do PMDB. Provavelmente o mais importante. Poderá evitar que novas informações venham a tona, mas ele bem sabe dos seus riscos. 
Mas diante da situação adversa, parece ter emergido o "espirito cangaceiro", e de morrer lutando. 

"Se entrega Corisco! Eu não me entrego não! ... Não me entrego ao tenente. Não me entrego ao capitão! Eu me entrego só na morte. De parabelo na mão!"

E quem chegar perto morre.

Renan Calheiros não tem futuro. Um bom discípulo de José Sarney, sabe que a sua força está troca do controle do Senado por cargos na Administração Pública. Com o objetivo de manter a sua base eleitoral estadual,  beneficiar-se  eleitoral e pessoalmente da gestão de verbas públicas. 

Dilma e importantes facções do PT não gostam dessas negociações. As herdaram de Lula e a mantiveram durante o primeiro mandato, mas não parecem dispostas a manter no segundo mandato, ademais pela sua repercussão negativa, por conta da Operação Lava-Jato que desnudou o esquema. Apesar do próprio PT estar envolvido no esquema.

Apesar da pressão de Renan e sua "camarilha" Dilma dificilmente irá ceder, mesmo que isso prejudique e atrase o ajuste fiscal. 

Não vai dar a Renan os cargos que ele pleiteia. Principalmente a manutenção do controle da Transpetro, assim como os cargos de segundo, terceiro e quarto escalões, desde que tenham atuação no Estado de Alagoas.

Sem os cargos federais em Alagoas, sem milhões de reais, oriundos do "petrolão" e congêneres, ele não conseguirá ser reeleito Senador em 2018. Terá que antecipar a sua aposentadoria, apesar da aprovação da PEC da Bengala. 

Ele apostou ou se iludiu com a possibilidade de repetir em Alagoas o que Eduardo Campos conseguiu em Pernambuco em parceria com Lula.

Se com o seu filho governador, repetindo - mais uma vez - o modelo Sarney, conseguisse sanear as contas públicas de Alagoas e dar um salto econômico naquele pequeno Estado, achava que se credenciaria para a eleição  presidencial. O PMDB afinal voltaria a ter um candidato próprio.

Mas ele sofreu dois grandes reveses: com a escolha de Joaquim Levy, para o Ministério da Fazenda, com a missão de sanaear as contas federais, ele ficou sem condições de ajudar a sanear, a curto prazo, as contas estaduais, apesar de ter feito um acordo para colocar na Secretaria da Fazenda um técnico da sua equipe , quando Secretário da Fazenda do Rio de Janeiro. Levy está segurando a regulamentação das novas condições de pagamento das dividas estaduais e municipais com o Governo Federal, montada por Dilma e Mântega, para ajudar o seu afilhado, Prefeito de São Paulo. 

A recusa de aceitação da Medida Provisória que muda a desoneração da folha de pagamentos, não foi apenas uma retaliação à Dilma em aceitar os seus pleitos pelos cargos, antes da Lista do Janot, mas também um recado a Joaquim Levy.

O segundo e maior revés foi com a Operação Lava Jato que cortou a sua principal fonte de acumulação de fundos para as suas próximas campanhas eleitorais e uma fonte aberta para novas contribuições.

Com isso a sua esperança ou ilusão de vir a ser a alternativa de candidatura presidencial pelo PMDB, ruiu.

Como Corisco ele não vai se entregar. Vai ficar na Presidência do Senado. Vai resistir às pressões para a renuncia.

Como ele vai atuar nestes dois anos, em que dura o seu mandato de Presidente do Senado?

Irá se recompor com o Executivo, aceitando migalhas do poder? Por que é só isso que a Presidente Dilma e o PT sabem oferecer aos seus aliados.

O Governo previa dificuldades na Câmara dos Deputados, mas contava com o Senado para se contrapor a medidas que não lhe interessavam ou não convinham. E também para conduzir a aprovação das medidas legislativas da sua política. Agora passa a correr risco maior no Senado, se não puder contar com o apoio de Renan.

Ele irá se contrapor ao Governo, passando (ainda que não formalmente) para a oposição?

Irá buscar uma posição de independência? O que será na prática essa opção?


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