quarta-feira, 25 de março de 2015

Imagine na Copa: sonhos desfeitos

Com as notícias sobre os bilionários lucros da FIFA em contrapartida às igualmente bilionárias dividas do país, com a realização da Copa em 2014, republico esse texto.

Em outubro de 2007 o Brasil alcançou um grande sonho: conquistou o direito de sediar a Copa do Mundo de Futebol Profissional Masculino da FIFA, ou mais simplesmente a Copa do Mundo, no Brasil. Outros Presidentes haviam tentado, sem sucesso. O continente americano já havia recebido a Copa em outros momentos, mas o Brasil, desde 1960, não sediava nenhuma das temporadas, que são realizadas a cada 4 anos.

As circunstâncias eram favoráveis, em função do rodízio por continente, previsto pela FIFA, mas Lula não quis deixar escapar a oportunidade. A Colômbia havia declinado. O México não era concorrente, mas era sempre uma alternativa, assim como os EUA.

A partir da decisão em cerimônia em Zurich, sede da FIFA, na Suiça, novos grandes sonhos foram gerados.

A FIFA sonhou com a Copa das Copas. Realizando a no Brasil, o país do futebol, com quase 200 milhões de habitantes e uma economia em crescimento, poderia obter lucros nunca antes alançado, com um valor mínimo de investimentos que seria "empurrado" para o Brasil.

Lula sonhou com toda a sociedade irmanada em torno da Copa, esquecendo, por alguns momentos, todos os problemas, para participar da maior festa nacional, nunca antes ocorrida, e torcendo pela seleção brasileira de futebol. Ajudaria o projeto de poder do PT, com a manutenção ou reconquista do poder, com as eleições que ocorreriam logo depois. E ele seria aclamado como o grande herói nacional, reconhecido internacionalmente, como o novo Nelson Mandela. Seria o coroamento do projeto de eliminação da pobreza, da superação da desigualdade social e do reconhecimento do país como uma economia desenvolvida. 

Para o torcedor brasileiro, supostamente a maioria da população do país, era oferecido o sonho de revanche da enorme frustração nacional que foi a perda da Copa em 1950, em pleno Maracanã. O estádio, devidamente reformado, seria o palco da sexta conquista da Copa. O sonho maior seria com uma vitória sobre a Argentina. Mas serviria repetir a vitória contra a Espanha, como veio a ocorrer na Copa das Confederações. E se o Uruguai conseguisse chegar à final contra o Brasil, a vitória seria ai mesmo a grande vingança. Sonhar era possível e necessário para manter a luz das esperanças, que tem dominado as mais recentes eleições gerais. 

Com todas as condições favoráveis, com o pleno apoio de toda população brasileira, o Governo achou que poderia atender a todas as exigências da FIFA e essa foi aumentando sucessivamente as mesmas, caracterizando um "padrão FIFA" cada vez mais rigoroso, requerendo maiores gastos por parte do país. Todas as concessões solicitadas pela FIFA, foram atendidas, pelos governos, com o argumento de que sem esse atendimento a FIFA levaria a Copa para outro país e o Brasil perderia uma excepcional oportunidade. 

Deu quase tudo errado e a poucos dias do início da Copa, os sonhos estão se desfazendo, restando apenas a conquista do "caneco". 

Eu também tive o meu sonho com a Copa, e a mais de dez anos, dediquei grande parte do meu tempo em interpretar, difundir a realidade da Copa da FIFA e a propor medidas para o melhor aproveitamento da oportunidade.

Ajudei a organizar diversos eventos sobre a Copa, viajei pelas cidade candidatas e depois as escolhidas diversas vezes, escrevi no blog, no portal da Copa, ajudei em palestras e entrevistas dos dirigentes do SINAENCO - o sindicato da arquitetura e da engenharia consultiva -  que proporcionou essa oportunidade.

Os sonhos foram sendo desfeitos um a um - ao longo dos últimos sete anos - e agora, às vésperas do apito inicial e, com mais 30 dias, o apito final, só restam reflexões sobre a oportunidade perdida que não se repetirá proximamente.

Reunimos neste opúsculo alguns dos artigos escritos em 2013 e neste começo de 2014 sobre a Copa, para tentar explicar porque os sonhos não vão se realizar, incluindo os meus.

O meu sonho, ainda na primeira década do século XXI era contribuir, pela força das informações e da sua interpretação, para que o Brasil aproveitasse a oportunidade para promover a grande transformação das cidades-sede, como Barcelona a fez com as Olimpíadas de 1992.

Estive em Barcelona, pela primeira vez em 1993 e vi e percebi o legado das Olimpíadas, que não ocorreu por acaso, mas de forma planejada. Não eram as magníficas instalações, algumas com pouco uso, mas uma grande  transformação urbana.

Voltei algumas outras vezes e percebi que aquela transformação era apenas inicial, seguindo por todos os anos. 

A última foi em 2012, com a Espanha já ingressando na crise econômica. Barcelona ainda resistia e estava lotada de turistas, de todas as nacionalidades. Só passei ao largo da Sagrada Família. As filas viravam quarteirões. Muito diversamente de quando visitei nas ocasiões anteriores. Barcelona se transformou numa das principais atrações turísticas mundiais. A sua economia tem base no turismo internacional.

A orla marítima inteiramente modernizada mantendo, no entanto, tradições. O meu restaurante preferido, o Sete Portas, continua lá. 

Porto Madero, em Buenos Aires, que encanta os urbanistas como projeto de revitalização urbana equivale a uma pequena fração da revitalização da orla marítima de Barcelona.

Ainda em 1993 percebi a estratégia adotada e procurei entendê-la e acompanhar, dentro do possível a sua evolução. Primeiramente, percebi que ela foi planejada seis anos antes das Olimpiadas, como parte do objetivo do Governo Espanhol em transformar o país num grande polo de atração turística, utilizando os grandes eventos mundiais para tornar a Espanha conhecida, sendo incorporada ao Plano de Governo. Levou para o país a Expo Mundial 92 para Sevilha e as Olimpiadas para Barcelona, com investimentos financiados, em grande parte, pela Comunidade Européia.

Juntamente com o planejamento das obras para a receber os eventos esportivos formulou um amplo plano de renovação urbana, esse a cargo da municipalidade de Barcelona.

A Vila Olimpica, para alojar os atletas,  foi planejada para substituir uma área deteriorada e tomada por invasões por população de baixa renda. A idéia era criar um novo bairro, o que efetivamente ocorreu. 

O "caso Barcelona" está sempre presente nos discursos das autoridades que defendem a hospedagem de grandes eventos, mas poucos se dedicam a planejar a sua efetivação, como fizeram os catalões.

Eu sonhei que o Brasil poderia replicar o exemplo de Barcelona, planejando um grande salto para o turismo internacional no Brasil, com a Copa do Mundo. Posteriormente o Brasil conquistou o direito de sediar as Olimpiadas de 2016. Um grande erro, levado pela euforia de um Brasil entre as maiores economias mundiais.

Foram sucessivas frustrações. O Brasil não planejou estrategicamente para obter os benefícios de sediar a Copa da FIFA. 

Demorou para definir as cidades, as obras essenciais para a Copa e não cuidou dos aspectos complementares para atrair e receber os turistas, durante a Copa e ainda criar um legado de um grande fluxo permanente de turistas estrangeiros pós-Copa.

Desde 2007 alertamos que a Copa é um dos maiores eventos midiáticos mundiais, com um enorme público a acompanhando pelas suas televisões, e uma ampla cobertura pela imprensa. Essa cobertura vai além do evento esportivo, mas abrange todos os aspectos do país. A imprensa mundial busca e mostra aos seus leitores e visi-audientes as vitrines, como as vidraças brasileiras.

O meu sonho não se realizou. Pior, parece ter se tornado um pesadelo.



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