Uma trégua precária

O início dos governos eleitos com grande votação popular, tende a ser de "lua de mel", com grande força política decorrente daquela votação. As dúvidas e alternativas de cenários estão relacionadas com a continuidade ou não desse ambiente, em função do desempenho do Governo nesse período. 
Diante dessas circunstâncias desenhamos um primeiro cenário, que pode ser caracterizado como o tendencial, de continuidade da lua de mel, após os primeiros 100 dias, prolongando-se ao longo de todo o ano.
Mas uma crise de origem pessoal empanou esse ambiente, aparentemente com efeitos políticos negativos. A exoneração de Gustavo Bebianno teria causado enfraquecimento de Jair Bolsonaro junto ao Congresso para conseguir a aprovação da sua pauta, econômica, de segurança pública e de costumes. 
Mais importante que o episódio em si, cercado por intrigas na disputa do poder, é o entendimento das razões verdadeiras que geraram os problemas e das reações presidenciais.
As razões estão na estratégia de Jair Bolsonaro de enfrentar a grande mídia tradicional, principalmente a Rede Globo. Insere-se a um movimento de parte da sociedade que se insurge contra o poder da Rede Globo, que seria um "fazedor ou derrubador" de Presidentes.
Nas eleições de 2018, Jair Bolsonaro não seria o candidato preferencial da Rede Globo, mas conseguiu ser eleito apesar disso. Guardou ressentimento em relação ao tratamento que recebeu da rede, fortemente pressionado pelos entrevistadores procurando explorar - segundo ele - mais pontos negativos do que positivos. Ficou ainda contrariado também com os principais veículos da mídia escrita e formou a crença - reforçada pelos filhos e por alguns analistas - que foi eleito, em que pese a oposição da grande mídia, pela rede social. 
Toma como paradigma as estratégias de Donald Trump, valendo-se de redes de tv menores e está articulando a operação da Rede CNN no Brasil, para ter uma "tv para chamar de sua".
Nessa estratégia mantém o relacionamento jornalístico, ainda que discriminatório, privilegiando o atendimento aos meios e jornalistas "amigos" e não quer qualquer entendimento institucional com as direções dos veículos. São considerados "inimigos".
Quer que essa estratégia seja rigorosamente seguida pela sua tropa, segundo uma visão de disciplina militar.
Gustavo Bebianno não acatou. Embora não seja militar, com ascendência hierárquica sobre Jair Bolsonaro, assumiu-se como o "promotor" da candidatura e da posterior eleição de Bolsonaro. Acha que transformou um sonho em realidade, viabilizando o suporte institucional (o registro partidário) e as orientações estratégias da campanha. Sempre concorrendo com os filhos que sempre pretenderam comandar as estratégias.
Bebianno, assumindo-se como o patrono de Jair Bolsonaro, viu a oportunidade de alcançar o poder, através do populismo de Bolsonaro, assim como vários generais, Paulo Guedes e Sérgio Moro. Mas entendeu que Jair Bolsonaro não teria condições de governar, em função das suas limitações pessoais e da influência dos filhos, considerada, por Bebianno, como negativas.
Que, por isso, juntamente com a ala militar, precisava tutelar o Presidente, ficando próximo a ele, e articulando entendimentos com os "inimigos", para viabilizar a governança.
Buscou um relacionamento com o Congresso, incluindo líderes da "velha política". Estabeleceu pontes com as direções da grande e tradicional mídia.
Essa atuação mais ousada foi instigada pelos filhos, principalmente por Carlos, seu principal desafeto na atenção do pai, como traição.
A essa "liberdade" e insubordinação Jair Bolsonaro reagiu "com fígado" e, insuflado pelo filho, transformou uma "questão de foro intimo" em crise política e sinalização de beligerância no tratamento das questões políticas. Não foi a primeira vez e, provavelmente, não será a última. Mas o resultado poderá ser desastroso para ele, Jair Bolsonaro.

A reação dos seus adeptos fieis foi de apoio e de desconstrução da imagem de Bebianno. Além da imagem de desmedida ambição pelo poder, Bebianno vem sendo caracterizado pelos seguidores dos Bolsonaros como traidor e que mereceu a sua demissão e expulsão das hostes bolsonaristas. 

Mas para evitar uma "guerra" de resultados seguramente ruins para o país, foi firmada uma trégua, que não se sabe o quanto tempo durará. E quem irá quebrá-la. 
De toda forma, o episódio estremeceu as relações de Bolsonaro com a população, interrompendo a lua de mel. 

(cont)








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