terça-feira, 19 de março de 2019

O novo papel dos militares

Em 1964 os militares deram um golpe de Estado para assumir o poder, permanecendo até 1985, sempre sob a presidência de um general e sob um regime autoritário que deixou marcas profundas. A principal é de um regime ditatorial, com supressão das liberdades individuais, com prisão, tortura e mortes do que consideravam inimigos do regime: militar no governo é associado à ditadura.
Segundo historiadores o golpe de 64 foi dado para interromper um processo de "esquerdização" do pais, iniciado por outro golpe militar: o de 1930. liderado pelo então tenente Getúlio Vargas. Com alternâncias, mas em 64, dominante com a presidência de João Goulart, afilhado político de Vargas.
O retorno dos militares ao Governo se dá agora em 2019, a partir da eleição democrática de um ex-capitão reformado há 30 anos, com características populistas que canalizou o descontentamento da população brasileira com os rumos da política brasileira e com os governos petistas.
Eleito, com um ideário de direita e intensa oposição verbal contra o PT, que tentava voltar ao poder, formou um gabinete predominantemente de generais reformados, ao qual se soma o Vice-Presidente, General Mourão, constituindo o que a mídia caracteriza como ala militar.
Na montagem ministerial, Bolsonaro delegou a dois superministros as áreas estratégicas do seu Governo: a economia e o combate ao crime, e reservou para si, o comando direto de 4 Ministérios, todos afinados com o seu ideário. Dois, mais ideológicos, sob comando do seu filho Eduardo, representando o suposto guru da família, Olavo de Carvalho, um terceiro associado aos evangélicos e o quarto, um "livre atirador". Todos com discursos anti políticas e concepções petistas. Os demais ficaram soltos ou sob o comando da ala militar.
Com a esquerda amplamente derrotada e sem rumo, o maior problema do Governo não está em "remover o entulho petista", mas em controlar os arroubos da ala direitista, que ocupa o Ministério da Educação e das Relações Exteriores. 
Este está sendo o principal papel da ala militar dentro do Governo Bolsonaro. É um papel de contenção das ações da direita radical dentro do Governo, sob inspiração de Olavo de Carvalho.
E um papel moderador, mas no sentido de moderar ações ou manifestações mais radicais. Com o que acaba por entrar no jogo.
O Vice-Presidente, General Mourão, por ter maior independência e uma personalidade mais aberta, falando o que pensa, acaba por ser o porta-voz informar da ala militar e o adversário explícito da direita radical.
Como estrategistas tem paciência para esperar que os Ministros oponentes de desgastem pelo seu próprio radicalismo e ai pressionar para a saída. 
O Ministro da Educação será a primeira vítima, mas Ernesto Araujo também esta na linha de tiro.

terça-feira, 12 de março de 2019

Componentes dos cenários: visão de mundo

Jair Bolsonaro irá governar segundo as suas convicções que decorrem da sua visão de mundo. Essa pode ser sintetizada nos seguintes elementos:

  1. uma percepção  (ou versão) de degradação moral, da sociedade brasileira, com as tentativas de destruição dos valores tradicionais da família brasileira, pelo "progressismo";
  2. a solução da criminalidade pelo armamento dos brasileiros, para se defender contra os criminosos;
  3. uma contraposição absoluta, contra a esquerda, considerada socialista ou comunista que querem (na visão dele) implantar uma ditadura comunista, como as de Cuba e Venezuela;
  4. o entendimento de que a esquerda, seguindo os ensinamentos de Gramsci, capturou as escolas nas áreas das ciências humanas, para a cooptação ideológica dos jovens;
  5. a sensação de perseguição pela mídia tradicional, percebida como inimiga que quer destruí-lo;
  6. um alinhamento pleno a Donald Trump, nas suas disputas contra a China, muçulmanos e países sob domínio comunista.

segunda-feira, 11 de março de 2019

Componentes dos cenários: personalidade do governante

Grande parte da classe média, da chamada "sociedade organizada", cansada e indignada com as práticas e políticas petistas, uniu-se ao "grosso", na esperança de que ele derrotasse o lulo-petismo e, uma vez na presidência, se tornasse mais civilizado.
A primeira parte se concretizou e Jair Bolsonaro foi eleito presidente com grande apoio da sociedade organizada, que concentrou os votos nele, compensando e superando a predominância do voto popular no lulo-petismo, no Nordeste brasileiro. 
A segunda parte, não. Jair Bolsonaro, um lídimo representante da baixa classe média ascendente, segue como tal, andando de sandálias dentro do Palácio da Alvorada, sem tirá-lo, para eventuais audiências, soltando os seus palavrões e manifestando as suas indignações e contrariedades. Ele não dá "a mínima" para a tal "liturgia do cargo". Ele continua sendo o mesmo Jair, até porque acha (ou tem certeza) que é isso que o povo que o elegeu quer.
O problema é que tornado Presidente, ele é o alvo preferencial da mídia tradicional, que o acompanha, ininterruptamente e repercute seus pronunciamentos e ações.
Com a visibilidade as manifestações provocativas, com repercussões limitadas aos seus seguidores e detratores na rede social, passaram a ter repercussão  mais ampla, até em amplitude internacional.
Repercussão de uma sociedade organizada, escandalizada com a "grossura" do Jair.
Essa que foi uma qualidade para a sua eleição, é hoje vista como o seu maior defeito pessoal.

Para efeito dos cenários, duas perspectivas básicas devem ser consideradas: ele não vai mudar, até porque se mudar, vai deixar de ser autêntico, ser o "capitão" e perderá autoridade pessoal. 
A outra alternativa é que ele se enquadre, ou seja, enquadrado, podendo virar um fantoche.

quarta-feira, 6 de março de 2019

Projeção dos cenários apos 2 meses

Com dois meses de governo, considerando as mudanças de circunstâncias e as ações governamentais podemos redesenhar para o restante do ano, os cenários básicos.
O cenário "lua de mel prolongada" sofreu um grande abalo, com a crise deflagrada por Carlos Bolsonaro, que resultou na demissão de Gustavo Bebianno, mas é restabelecido, com a decisão de Jair Bolsonaro em reiterar que quem manda é ele  e afastar os filhos das decisões governamentais. Os filhos atendem à determinação e se reduz a percepção popular da influência dos filhos.
Refeito da cirurgia, agravada pelas sequelas, do baque político gerado pelo seu filho Carlos, da contenção da ala militar em relação à sua posição belicista em relação à Venezuela de Maduro, Jair Bolsonaro assume efetivamente a presidência do país, explicitando comando sobre Ministros, até então com total liberdade de ação.
Assume o comando da defesa da Reforma da Previdência, mas a sua, não a de Paulo Guedes. Passa a ser o principal comunicador da reforma, seja através da rede social, como por manifestações públicas por todos os meios de comunicação tradicionais e eventos de grande público presencial. Volta aos palanques, dos quais se afastou por razões pessoais, mas nunca se retirou. 
Trazendo a discussão da reforma da previdência ao campo político, com negociações temáticas, minimiza o impacto das negociações por cargos e emendas com o baixo clero. 
A campanha pela aprovação da reforma volta a mobilizar parte significativa da população a seu favor, restabelecendo o clima de "lua de mel". A aprovação da reforma, prolonga o clima, no segundo semestre do ano.
Será favorecido por circunstâncias externas. Trump enfraquecido pelas pressões internas e o fracasso temporário das negociações com a Coréia do Norte, prolongará a trégua das disputas comerciais com a China, desobrigando o Brasil a assumir uma posição. 
Maduro, cada vez mais enfraquecido, apesar do apoio russo e chinês, dependerá das negociações diplomáticas, com amplo protagonismo do Brasil, para uma "retirada honrosa", evitando conflitos militares. 
Embora a Reforma da Previdência que venha a ser aprovada não seja a preferida do mercado, com muitas concessões em relação à proposta Guedes, os agentes econômicos ampliarão os investimentos, principalmente os de origem estrangeira, mais otimistas que os nacionais, em relação ao futuro do Brasil.
Para isso contribuirá o desenvolvimento da política econômica de abertura, principal propósito de Paulo Guedes. 
A dinâmica econômica melhorará, com resultados efetivos ainda restritos, mas gerando uma imagem mais positiva. 

segunda-feira, 4 de março de 2019

Avaliação dos cenários, após dois meses

O segundo mês do Governo Bolsonaro foi marcado por diversos diversos eventos definidores das trajetórias futuras.
Os mais marcantes foram o que envolveram a interferência do filho Carlos Bolsonaro, nas decisões do  pais, com uma repercussão negativa, interna e externamente.
Uma mensagem de Carlos Bolsonaro chamando Gustavo Bebianno de mentiroso, desencadeou uma crise, com vários resultados relevantes:

  • a demissão de Bebianno, quebrando um importante elo do Palácio do Planalto com o Congresso;
  • a exteriorização de uma postura íntima belicosa de Jair Bolsonaro, com a grande mídia tradicional, caracterizando a Rede Globo, como inimiga;
  • a repercussão pública negativa, inclusive dos bolsonaristas, da percepção da interferência dos filhos;
  • o reforço da tutela do grupo militar instalado no Palácio do Planalto, sobre o comportamento do Presidente;
A crise quebrou o natural ambiente de "lua de mel" da população com o Presidente, com repercussão no seu poder de negociação com o Congresso. 
Depois de mais de 10 dias da crise gerada pela ação destemperada de Carlos Bolsonaro e avalizada pelo pai, Jair Bolsonaro promoveu uma reunião com jornalistas, para apagar dois dos incêndios e desmentir o terceiro:
  • declarou que nenhum filho manda no Governo e que estabelecerá "filtro" sobre as manifestações de Carlos;
  • reclamou do tratamento da imprensa, mas reconheceu como normal, amenizando o confronto;
  • afirmou que não existe mal estar com a ala militar.
Como a interferência dos filhos estava colocando em risco o crédito da população ao Governo, ações efetivas de controle sobre os filhos, restabeleceria a confiança e do próprio ambiente de lua de mel, dependendo de outras ações positivas. Como o encaminhamentos das propostas de Reforma da Previdência e do "pacote anti-crime" de Sérgio Moro.

A crise com Bebianno tem consequências mais amplas que a sua saída do Governo. Para superar o ambiente desfavorável, Bolsonaro teve que precipitar o encaminhamento da proposta de Paulo Guedes, sem uma negociação ampla, dentro do próprio Executivo e com as lideranças do Congresso. O resultado foi uma reação positiva, mas cheio de ressalvas por parte dos políticos.
Embora haja uma reação generalizada de que a proposta está repleta de um rebanho de bodes mal cheirosos, criou-se um ambiente de necessidade de muita negociação. Não apenas dos temas específicos, mas do tradicional "troca-troca". A reação política é de que sem essa negociação a Reforma da Previdência não será aprovada, nem mesmo na sua "espinha dorsal".
O mercado reagiu de forma mais pragmática, entendendo-se que a reforma não será a encaminhada, mas a resultante das negociações com e no Congresso. E essa será satisfatória, ainda que não alcance os inviáveis números estimados pela equipe econômica.
A população também, de forma majoritária, é favorável à reforma, mas espera pela que sairá do Congresso. 
Todo confronto será entre a equipe econômica e as corporações, com ampla representação dentro do Congresso, além das tentativas de extorsão. 
Tanto o mercado como a população, em geral, tendem a aceitar a Reforma, como for definida pelo Congresso, aceitando-a como a possível. A oposição política não terá capacidade de evitá-la, tampouco contestá-la. O que tentará, com sucessos pontuais, é o retardamento da tramitação. 
Mas uma reforma da previdência será aprovada.

A reação à interferência dos filhos, não alcançará apenas Carlos Bolsonaro, mas os dois outros. Flávio ficará menos protegido, ampliando a pressão para a sua submersão e até mesmo para a sua renúncia. 

Eduardo também ficará enfraquecido, sem condições de sustentar as posições a favor de Donald Trump, contra a Venezuela de Maduro, levando o Brasil a um envolvimento militar, contrário às suas tradições.

A ala militar do Governo já se manifestou expressamente contra qualquer envolvimento militar do Brasil, nas questões internas da Venezuela, focando nas pressões diplomáticas. É uma evidente inibição às visões dos Bolsonaros de eliminar, pela força, os regimes - suposta ou assumidamente - socialistas, na América Latina.

Dentro desse mesmo contexto, Jair Bolsonaro fez valer a sua autoridade presidencial, desautorizando e até repreendendo a ação do Ministro da Educação, indicado e protegido de Eduardo Bolsonaro. 
Ele, pela afinidade ideológica e pela condição de filho, assumiu um grande protagonismo na formação do Governo, capturando, com respaldo do pai, duas importantes áreas: o Itamaraty e a Educação. 
Ernesto Araujo já foi "controlado" pela área militar, na posição do Brasil na questão "Venezuela" e, aparentemente, no comando da política externa do Brasil. 
As ocorrências indicam que Jair Bolsonaro, com respaldo militar, está assumindo essas áreas, reduzindo o espaço de liberdade que os Ministros de Eduardo Bolsonaro estavam usufruindo. 


O resultado a curto prazo dessas áreas será o imobilismo.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Afunilamento dos cenários Bolsoanaro

A mais nova crise política, iniciada por uma desavença entre o filho do Presidente, Carlos, e o Ministro Gustavo Bebianno, independentemente da repercussão popular, comprometeu o cenário "lua de mel prolongada". Na prática a lua de mel, nem chegou a começar. Era uma grande expectativa antes da posse. Os discursos da posse reforçaram a expectativa, mas os primeiro dias de governo, foram marcados por decepções (como o episódio de Davos), por ondas de violência no Ceará e por grandes tragédias, como a de Brumadinho.
A hospitalização de Jair Bolsonaro, para uma cirurgia programada, gerou um crise interna, promovida pelos filhos, que pressionaram para um retorno antecipado, contrariando ordens médicas, para minimizar o exercício da presidência pelo Vice, General Mourão.
A interferência dos filhos se agravou com o conflito entre o filho 02, Carlos, e o Ministro Bebianno, gerando uma crise política que está afetando as relação do Governo com o Congresso.
Uma aprovação fácil e de baixo custo da reforma previdenciária, assim como das medidas anticrime de Moro, baseada num forte e indiscutível apoio popular, pressionando o Congresso, ficou comprometida. 
O cenário tendencial que era de "lua de mel prolongada", passa a ser o de "lua de mel interrompida", com a retomada do amplo apoio popular, tem pouca probabilidade de ocorrência.
O cenário mais provável é da aprovação pelo Congresso da agenda governamental, mas não sem ampla e intensa negociação, com concessões políticas, nem sempre aceitas pela população.
Isto é, do cenário "relacionamento instável ou conturbado", mas beirando perigosamente o cenário frustração e desencanto.


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Filhocracia x política

O "imbroglio" Bebianno tem uma saída política que, embora não consensual, resolve vários problemas: a retirada de Bebianno da Secretaria de Governo e assunção da Presidência do PSL, afastando Luciano Bivar.
Seria uma "saída honrosa" para Bebianno e uma solução para garantir a quase totalidade dos votos da bancada do PSL para a reforma da previdência, além de ampliar o tamanho da bancada, pela atração de outros parlamentares para o partido. É uma solução desejada por Paulo Guedes e Rodrigo Maia.
Seria uma solução apoiada, ainda que não explícita, pela área militar.
As dificuldades estariam no "sacrifício" de Luciano Bivar, o que não teria a mesma repercussão pública do sacrifício de Bebianno, na redução do poder de Onyx Lorenzoni e, principalmente, na redução da temperatura do sangue do clã Bolsonaro. A de Jair, apesar das suas resistências pessoais, será por pressão política e da ala militar. 
Ele não poderá continuar pretendendo governar, com permanente "sangue quente", o que é inviável em política. 
O problema maior estará no controle dos filhos, principalmente do "pit bull", o 02. 
Se Jair Bolsonaro continuar privilegiando a relação familiar às relações política, a lua de mel será abreviada e os riscos do cenário "frustração e desencanto" crescerão.

O novo papel dos militares

Em 1964 os militares deram um golpe de Estado para assumir o poder, permanecendo até 1985, sempre sob a presidência de um general e sob um r...