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sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Do nada pode para o tudo pode (2)

 Os cenários futuros dos manguezais e restingas do litoral brasileiro decorrerão dos resultados do jogo de forças intervenientes.

De um lado estão os ambientalistas preservacionistas que propugnam por uma ampla participação do Estado, através da regulação e da fiscalização para garantir a preservação dos mangues e restingas.

De outro lado, está o Governo atual, com uma política antiregulatória, em consonância com a visão liberal da economia. 

Nas rodadas anteriores, os preservacionistas ganharam no campo formal, mas não no campo real, não conseguindo evitar inteiramente a depredação clandestina para a produção de camarões, no Nordeste, ou para ocupação residencial precária, como as comunidades em palafitas.

No novo jogo, o Governo marcou o primeiro gol, com a revogação, no CONAMA,  do aparato regulatório de proteção aos manguezais e restingas. A contestação mediante ação popular, aceita por uma Juiza de 1ª instância, empatou o jogo. O empate favorece os preservacionistas.

A revogação da liminar, foi o segundo gol do Governo, mantendo a revogação. Mas o jogo continua, sob torcida da sociedade. Os preservacionistas tem uma torcida organizada barulhenta que gera a impressão de que dominam a totalidade. 

Vencendo a liberação, haverá ocupação maior das restingas e manguezais, seja de forma ordenada e sustentável, como de forma predatória.

Vencendo a preservação, não haverá um crescimento da ocupação organizada, mas permanecerá a evolução da ocupação clandestina e predatória.

O terceiro cenário alternativo é uma concertação entre o setor produtivo organizado e o Governo para uma regulação mais genérica. Em contrapartida o setor produtivo deverá assumir a responsabilidade pela auto-regulação e auto-controle, incluindo a fiscalização e mitigação da ocupação predatória por pequenos produtores, como forma de sobrevivência. O caminho é o cooperativismo. 

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Do nada pode para o tudo pode

 

No início do século, os ambientalistas brasileiros se anteciparam aos movimentos mundiais e sob os auspícios do Governo Lula, com Marina Silva à frente, conseguiram a aprovação de uma legislação radical amplamente proibitiva dentro da visão de preservação absoluta das florestas, das matas, das restingas e outros ambientes originais da natureza. A hegemonia absoluta era do preservacionismo, dentro do qual "nada podia ser feito" nas áreas destinadas à preservação.

Para garantir o cumprimento, conseguiram aprovar medidas penais rigorosas, como a afiançabilidade dos crimes ambientais. 

As medidas foram aprovadas na crença de que seria mais um conjunto de leis que “não pegam”. Mas pegou com a montagem de um amplo mecanismo de fiscalização ambiental, ainda que insuficiente.

A exploração econômica das áreas protegidas seguiu incólume.  

Um grande embate político regulatório ocorreu com a tramitação do Código Florestal, no qual se chegou a um acordo, com pequena vitória dos produtores. Os ambientalistas, embora tenham assegurado muitas medidas protetoras do meio ambiente natural, não se conformaram e mantiveram o seu ativismo pelo “nada pode” e contra as anistias aos contraventores.

As principais ocupações  nos mangues, restingas e outros biomas litorâneos, ocorreram para a produção de camarões e instalações imobiliárias.

Dada a hegemonia do pensamento ambientalista, fortemente patrulhado, os produtores não se manifestavam amplamente, preferindo desenvolver os seus negócios clandestinamente.

Parte, no entanto, tomou o caminho político dando apoio a um candidato presidencial, marcado pela rebeldia e contestação ao estabelecido, com propósitos de romper com o "status quo", inclusive na área ambiental. 

Eleito, Jair Bolsonaro encontrou em Ricardo Salles, militante da área ambiental, mas como opositor das políticas estabelecidas, o executor ideal para promover as mudanças. Liberal, contra as intervenções do Estado sempre defendeu a revogação de todo o aparato regulatório e fiscalizador do Estado.

Achou que com a atenção da sociedade voltada para a pandemia, poderia passar a revogação ampla das restrições ambientais, em "baciada".

Destemido, não se intimidou com as reações contrárias e seguiu nos seus propósitos, conseguiu a mudança na composição do CONAMA e fez aprovar a revogação das medidas que protegiam os mangues, as restingas e outro biomas naturais do litoral brasileiro, gerando forte reação midiática e indignação da sociedade urbana.

O Governo vem adotando a estratégia da "destruição criativa", na área ambiental. Primeiro quer destruir tudo o que foi construído pelos governos anteriores para montar uma nova política e organização institucional e administrativa ao gosto dos seus apoiadores e seus, privilegiando a produção econômica.

Tal estratégia tem causado efeitos indesejáveis a curto prazo, como o aumento relativo do desflorestamento e, principalmente, um imenso crescimento de queimadas, aceleradas e ampliadas pelas altas temperaturas e menor proteção.

A repercussão internacional dessas ocorrências, já vem prejudicando as vendas de produtos do agronegócio no exterior, assim como o interesse dos investidores internacionais.

O Governo Bolsonaro está na metade do seu mandato, ainda tem dois anos para promover uma renovação criativa. Aparentemente não sabe que, nem como. Sabe destruir, mas não sabe como reconstruir.  

O impacto dessa estratégia de "destruição criativa" não será só ambiental, mas - principalmente - comercial e financeiro. Compromete a retomada do crescimento econômico, pós-pandemia. 

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

E dai?

  •   O discurso de Bolsonaro transmitido na abertura da Assembleia Geral da ONU, parcialmente virtual, foi destinada ao mundo, mas mirou mesmo o público bolsonarista nacional. O qual teria ficado exultante, eufórico com a apresentação, para que o mundo conheça a verdade. 

E dai! poderá responder o mundo, parafraseando a expressão habitual de Bolsonaro.

O mundo ajudará a combater a conspiração que alguns países e grupos  estão tramando contra o Brasil? Irá ajudar o Governo Brasileiro a reconstruir o país?

O Brasil que Bolsonaro apresentou ao mundo, é de um país que alimenta o mundo, sem estar desmatando. 

O que é fato, é verdadeiro. Com os sucessivos ganhos de produtividade, o agronegócio cresce absurdamente, enquanto a área ocupada por esse, para cultivo e criação, é praticamente estável.

Não obstante, outros segmentos ou grupos continuam promovendo o desmatamento. Embora não seja de responsabilidade direta do agronegócio, o fato é que o desmatamento que estava em queda, voltou a subir, sendo usado para comprometer o agronegócio brasileiro nos mercados externos. Com o apoio interno de grupos ambientalistas e outros que se opõe ao crescimento do agronegócio e à dependência cada vez maior do desenvolvimento brasileiro das exportações de commodities, que tem baixo valor por peso.

 O Brasil que Bolsonaro apresenta ao mundo é um país pleno de oportunidades de investimentos, apesar de uma conspiração internacional de grupos insatisfeitos com os rumos ideológicos do seu Governo e que usam a desinformação ambiental para comprometer a sua imagem.

Para Bolsonaro e seu governo o importante é o mundo dos investidores, não o mundo dos ambientalistas. Para ele esse mundo continua confiando no Brasil e investindo no Brasil. A pandemia teria prejudicado o fluxo, mas com as medidas adotadas pelo Governo e pelo Congresso Nacional, como as recentes aprovações dos marcos regulatórios do saneamento e do gás, com os processos de desestatização em andamento os luxos voltarão a crescer. 

Confirmando que o mundo dos investidores continuam confiando no Brasil. Pensamento positivo, pensamento mágico, "wishful thinking" ou perspectivas reais? 

O mundo quer conhecer a realidade. Ou vai se guiar por Bolsonaro ou por grupos ambientalistas, ambos distorcedores da realidade, difundindo "fake news".

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

A grande feira de Davos

O Fórum Econômico Mundial, em Davos, tornou-se a maior feira de exposições de investimentos, onde Governos montam os seus estandes e apresentam os seus discursos e power points, com as oportunidades de investimentos em seus países ou estados para atrair banqueiros, gestores de fundos, empresários capitalizados.
O Brasil nem sempre se dedicou a esse mister, com alguns governos até contra o maior ingresso de capitais estrangeiros, com o lema "O Brasil não está à venda!"
Jair Bolsonaro faz parte dessa turma nacionalista, com grande penetração nas hostes militares. 
No entanto, diante da restrição de recursos públicos para investimentos, foi instado por Paulo Guedes a ir a Davos, logo no início de seu mandato, para vender as oportunidades de investimentos no Brasil. Foi um desastre.
Decidiu nem ir em 2020 para não passar por novo vexame, mas autorizou Guedes a "vender o Brasil".
Dória, um profissional da área de eventos, não quer perder a oportunidade de ser expositor e "vender São Paulo".
O outro lado, no entanto, não quer "comprar Brasil", porque não fica bem. Comentamos no ano passado que a principal oposição que o investidor enfrentaria seria em casa: com os filhos e netos. Muitos debocharam.
Greta Thunberg representa os filhos e netos adolescentes dos investidores, para pedir aos pais e avós a responsabilidade com o meio ambiente. Ganhou repercussão mundial e a piralha é o principal empecilho para os investimentos "ocidentais". Só os chineses não "dão bola".
Não por outro motivo e momento, Jair Bolsonaro, contrariando um dos seus principais grupos de apoio, resolveu por em prática uma Política Nacional de Segurança Ambiental, anunciando a criação de uma Força Nacional Ambiental e Conselho da Amazônia, entregando o comando ao seu Vice-Presidente General Hamilton Mourão. Para a mídia brasileira é assunto de menor importância. A indicação de Regina Duarte para a Cultura tem maior repercussão. Nem deve atravessar o oceano para chegar a Davos. Mas junto aos grileiros, desmatadores e outros responsáveis diretos pela depredação da floresta amazônica, será considerado um traidor, podendo perder o apoio deles.



quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Confronto de interesses


Jair Bolsonaro, no início da sua campanha, sem o apoio dos grandes partidos, sem o apoio de grandes empresários e das lideranças do mercado, teve que se valer de corporações, grupos minoritários, marginalizados pelo “establishment”, mas que ele sempre defendeu – enquanto deputado federal.
Entre esses estão grupos de caminhoneiros e predadores da floresta amazônica, como garimpeiros irregulares, grileiros, desmatadores, madeireiras e produtores agrícolas e rurais, em condições irregulares.
Eles se sentiam perseguidos pela política ambiental, criada por Marina Silva e que o PT manteve, mesmo depois da dissidência dela e da retirada do partido. 
Os antiambientalistas reclamavam junto ao deputado e depois candidato de que o Governo não os deixava exercer livremente a sua atividade econômica, que a fiscalização impunha multas astronômicas, impagáveis e que destruíam os seus equipamentos quando flagrados.
Empoderados, muitos fiscais e mesmo autoridades ambientalistas, extrapolaram as suas atribuições, se excederam na aplicação das penalidades, gerando a reação contrária. Na prática foi estabelecida a indústria da multa, parte por ativismo de radicais, mas uma grande parte, para dar suporte à corrupção.
Jair Bolsonaro prometeu a esses grupos de apoio que, quando eleito, mudaria tudo e eles voltariam a ter condições de trabalhar livremente. Acabaria com a "indústria da multa". Eleito, cumpriu.
Desmontou a estrutura de fiscalização ambiental, determinou à estrutura remanescente que  não aplicasse as multas e proibiu a destruição das máquinas e equipamentos encontrados em atividades de desmatamento ou garimpo ilegais. Orientou aos seus apoiadores a não pagarem as multas.
Sem fiscalização e punição, esses apoiadores de Bolsonaro, voltaram a desmatar.
Com a repercussão internacional do aumento do desmatamento, agravada pelos incêndios, tentou desmentir, desqualificar os dados. Abriu confronto direto com autoridades europeias, acusando-os de conspirar contra a soberania do Brasil na Amazônia, mas diante dos fatos foi obrigado a mandar as tropas do Exército para controlar a situação e com isso conteve a continuidade do desmatamento e dos incêndios. Mas foi por tempo limitado. A operação militar terminou.
Bolsonaro está diante da pressão direta dos seus apoiadores que querem flexibilidade para desmatar e do agronegócio exportador que está sentindo as restrições dos compradores.
O amanhã vai depender dos vitoriosos. A sociedade, por enquanto, está mais na torcida do que em ações efetivas.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

A "prensa" em Bolsonaro em Davos

Os mega trilionários "conscientes" que se reunem, anualmente, em Davos, estão menos interessados nas reformas estruturais que o Brasil se disponha a fazer, para a melhoria do ambiente econômico, para investir, do que na melhoria do ambiente natural da terra.
O Brasil tem uma importância emblemática no mundo por deter a maior reserva florestal, assumido no imaginário mundial como o "pulmão do mundo".
Os investidores não querem ser responsabilizados por ajudar um Governo que não se disponha a preservar esse pulmão e contribuir para o colapso da terra.
Armaram um palco mundial, para saber de Bolsonaro se o Brasil iria se manter ou se retirar do Acordo de Paris. Pouco importava o mais que ele fosse dizer e, talvez, percebendo isso, pouco disse. 
Klaus Schwab logo fez a pergunta crucial e obteve a resposta que queria: o Brasil irá se manter no Acordo de Paris. Ainda que "por enquanto". 
Obtida a resposta favorável "em nada mais havendo, encerrou a sessão". 

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Mais ilusões no programa de privatização

A inclusão de empresas estaduais de saneamento tem mais efeito midiático do que prático. Funciona apenas como sinalização de que o Governo Federal está francamente disposto a privatizar todas (ou o máximo) de empresas estatais e que está superando as resistências dos Governos Estaduais.

Mas isso não é suficiente para efetivar a transferência dos serviços para o setor privado. É preciso que elas sejam economicamente viáveis.
E nesse ponto que entra a confusão, transformada em ilusão entre déficit e demanda.´
Há identificado um certo volume de domicílios brasileiros que não está ligada à rede de abastecimento de água e um grande volume sem ligação com a rede de coleta de esgotos.
Isso é déficit. Não se transforma automaticamente em demanda se forem expandidas as redes de água e esgotos. Uma parte preferirá soluções naturais, individuais ou condominiais, não buscando os serviços públicos. No caso da água, em função dos custos e dos esgotos, além da questão das tarifas, a menor importância dada ao saneamento.

Para transformar o déficit em demanda o Poder Público, pressionado pelos interesses setoriais, estabeleceu um modelo de negócios para o setor que jamais alcançará a meta de universalização de atendimento por redes.
A mudança necessária não é a privatização das empresas estaduais. Em alguns casos deve ser a sua extinção.



sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Aedes. Zika e Matopiba

Matopiba será mais um nome exótico a povoar o imaginário brasileiro. 
Depois de aedes e zika, que nova coisa é essa?
Muito perguntarão de onde é essa tribo africana, ou que nova doença é essa?

O povo brasileiro tomará conhecimento quando ela for o pano de fundo, de uma inevitável novela, com todos os seus ingredientes - amor , sexo, heroismo, bandidagem, violência, belas paisagens,etc, caracterizando-a como o novo Eldorado, onde produção cresce a cada ano, apesar dos percalços climáticos, e os empregos também.  

Matopiba é a nova fronteira agrícola, uma região de 73 milhões de hectares, envolvendo partes de 4 estados brasileiros: Maranhão, Tocantins, Piaui  e Bahia. Com um "crescimento chinês" da produção de grãos é um "arquipélago" brasileiro de desenvolvimento em meio a uma crise e desânimo generalizado.
Será a "bola da vez" por volta de 2018, mas poderá ser antecipado pelo desespero do Governo em mostrar fatos positivos. Pode dar zica.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Mudança de visão

Assistindo ao noticiário da Globo News, das 18 horas, apraz-me uma mudança de orientação da emissora, dando mais ênfase e tempo a reportagens junto aos povoados e aos depoimentos da população.
A população dos povoados ao longo do Rio Doce, que vive da pesca no rio precisa ser assistida, além da época do defeso. Eles já devem estar recebendo as bolsas, mas elas devem ser prolongadas, com recursos supridos pela Samarco.
É preciso assegurar uma perspectiva a eles até que a condição efetiva do Rio Doce seja conhecida. O que terá que ocorrer após as chuvas de verão. 


Um mistério que cerca essa tragédia é a qualidade da água, em diversos pontos do Vale do Rio Doce. Os ambientalistas que são alarmistas - por natureza - já indicam as piores condições, embora sem análise conclusiva das amostras. O que precisa ser avaliado é o nível de decantação da lama pesada ao longo do rio e a diluição da lama leve que ficou mais à superfície, aumentando a turbidez. A menor penetração dos raios solares prejudica, sem dúvida, a flora e a fauna do rio, mas não se sabe em que níveis. 

O rio Doce foi severamente atacado, mas decretar a sua morte é precipitada. 

De toda forma promover as ações para a sua revitalização são necessárias e de imediato. 

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Coitada de Mariana

Dentro das condições atuais do mercado, com o minério de ferro caindo a patamares abaixo de 50 dólares, não haverá interesse dos controladores, tanto a Vale, como a BHP em retomar a exploração das minas em Mariana.

Mariana vai ficar sem a sua principal fonte de empregos e de renda. 

Assegurar a sustentabilidade econômica e social de Mariana deve ser a prioridade das indenizações e destinação das multas aplicadas à Samarco.

Cuidar da sobrevivência da população de Marina é mais importante do que dos peixes do Rio Doce. Ainda que esses sejam fonte de renda de muitos pescadores ao longo do rio. 

Mas os peixes tem muitos adeptos. O povo de Mariana apenas com a solidariedade de alguns que vai acabar logo. 

A solidariedade é com os impactos momentâneos da tragédia, não com a continuidade econômica e social dos efeitos da tragédia sobre as pessoas. 

Há um confronto entre a visão biocêntrica e  a antropocêntrica.    A biocêntrica tem mais visibilidade e impacto de maior amplitude. 

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Realidade e versão

A realidade não é mostrada como ela é. Os meios de comunicação sempre a mostram segundo uma versão  plausível. Versão mais aceita, versão que a maioria quer acreditar seja a verdadeira. 

A ruptura de uma barragem com bilhões de m3 de água, misturada com terra e rejeitos da mineração de ferro, destruiu inteiramente dois pequenos povoados, deixando mortos e desaparecidos. 
A torrente de água seguiu seu curso natural de destruição, assoreando os corpos d'água aos quais se juntou e derrubando terras às suas margens, desprotegidas, sem matas ciliar, formando uma camada lamaçenta que agora chegou ao mar. 
A versão que está nas manchetes é "lama de Mariana chega ao mar". 
Muito pouco da lama de Mariana conseguiu viajar tanto. A sua água sim. A lama de Mariana foi ficando pelo caminho, assoreando os rios.  
Essa água barrenta não "matou o Rio Doce", embora tenha causado grande destruição.
Em termos comparativos, o Rio Doce está na UTI (ou CTI), mas vai sobreviver. E ainda vai causar muitos estragos, por ação da natureza. 
As chuvas de verão vão remover parte da lama ora depositada e que chegará ao mar. Mais diluida, mas provavelmente em quantidades maiores do que agora. 
Sem a carga emotiva que cerca o desastre atual. 

A realidade é que não foi a lama de Mariana que chegou ao mar. Foi a lama de todo o Vale do Rio Doce, devastado pelo desmatamento, carregada pelas águas liberadas pela mina.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Riscos de judicialização ignorante

Há um ativismo do Ministério Público, juntamente com o Judiciário, necessário mas sob grave riscos de distorção, por ignorância dos seus representantes sobre a vida fora do campo jurídico. Agravado pela disseminação acrítica da mídia, que prefere o sensacionalismo do que o esclarecimento.
A decisão de um Juiz Federal do Espírito Santo determinando à SAMARCO que impeça a chegada da lama que vem correndo pelo Rio Doce ao mar, ameaçando a imposição de multas, caso isso não ocorra em 24 horas é inteiramente estapafúrdia. 

A água lamaçenta do Rio Doce vai chegar ao mar e não há Moises algum que consiga evitá-la. 


A lama dos rejeitos da mineração, por ser mais pesada, foi ficando depositada no leito do Rio Doce, assoreando-o.   Esse é o seu maior problema atual. Mas isso está escondido no fundo do rio, enquanto peixes mortos à superfície dão outra impressão.

Cotaina em dezembro de 2013
O problema maior será por volta de janeiro, quando usualmente chove muito no vale do Rio Doce. Esse transborda e vai inundar várzeas e cidades. 

Assoreado o rio, a extensão das inundações será maior. E a lama dos rejeitos que ficou depositada, vai ser de novo removida. 

Os rejeitos da mineração que estão chegando ao mar agora são relativamente poucos.   Vão chegar em quantidades maiores em janeiro. Ainda que mais diluídos pelas águas das chuvas. 
Governador Valadares em dezembro de 2013

E depois, o Rio Doce vai reviver.  Mas nunca mais será o mesmo. 

São realidades que precisam ser percebidas sem o emocionalismo que a tragédia causou. 

sábado, 29 de agosto de 2015

Brasil ambientalmente sustentável

A sustentabilidade ambiental é definida por alguns indicadores básicos, como:
  1. volume de emissão de gases de efeito estufa;
  2. preservação de vegetação original;
  3. reposição de material utilizado;
  4. disponibilidade de água potável utilizável

As estratégias para uma condição sustentável estão:
  1. na redução de atividades poluentes;
  2. na substituição de fontes poluentes por alternativas menos poluentes;
  3. regulação restritiva do desmatamento e reposição de áreas desmatadas;
  4. redução do uso de produtos decorrentes de recursos naturais não renováveis por outros renováveis, como o caso do etanol em substituição à gasolina;
  5. maior reuso e reciclagem de material utilizado;
  6. maior economia no uso de água potável e de eletricidade;
  7. reuso das águas servidas.

As alternativas de rotas estão no foco prioritário:

  1. mudanças culturais - o foco é o ser humano como usuário ou consumidor, envolvendo o consumo consciente, seja de bens como de meios de locomoção e de insumos básicos (água e eletricidade);
  2. transformações nas atividades industriais;
  3. mudança na matriz  energética e elétrica;
  4.  gestão da produção agro-florestal.
Há consenso sobre a visão pretendida, mas não, em relação ao momento para ser alcançado.

Enquanto os ambientalistas querem resultados efetivos mais rápidos, em função das consequências futuras sobre o planeta e sobre a humanidade, os "pragmáticos" entendem que as mudanças propostas pelos ambientalistas não podem ser radicais e apressada, comprometendo o crescimento econômico. 
Alegam que é preciso seguir os conceitos do desenvolvimento sustentável e não do ambiente sustentável sem desenvolvimento.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

A agenda positiva de Obama

Para Obama o Brasil é um importante parceiro ambiental, seja pelas suas reservas florestais, como pelo tamanho da sua população e emissão de gases de efeito estufa. 
Não é visto como um relevante parceiro econômico, político e humanístico, mas Obama infla o ego brasileiro, incluindo essas dimensões para conseguir os seus objetivos estratégicos ambientais.

Afagou o ego de Dilma e conseguiu a adesão do Brasil para as metas climáticas. 

Ela deixou de lado o seu antiamericanismo e aceitou as metas ambientais. 

(ver o artigo completo na coluna artigos, ao final da lista)

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Brasil Ambientalmente Sustentável

A principal diferença em relação à dimensão, dentro de um projeto nacional, não é interna ou instrumental, mas em relação à sua importância efetiva.
Embora haja um amplo discurso no seio da opinião publicada, a dimensão ambiental não é importante, tampouco decisivo para a escolha presidencial, assim como do Congresso Nacional, que teoricamente representa a sociedade brasileira.
Haja vista a derrota de Marina Silva, ainda no primeiro turno e a pequena representatividade dos "ambientalistas" ou "sustentabilistas" que não chegam a formar uma bancada parlamentar. Emergem com alguma força, na discussão ou votação de questões específicas, como ocorreu com o Código Florestal, mas permanece, a maior parte do tempo, hibernada. 
Souberam aproveitar a oportunidade em que o tema ainda não havia ganho a importância que veio a ter e aprovaram um conjunto de medidas restritivas que tentam, pelo menos, manter.

O PT não tem, nem nunca teve um projeto de sustentabilidade. O projeto era de Marina Silva, então integrada dentro do PT, e na sua saída ela levou com ela. Mantém o seu grupo de ambientalistas, a maioria, como burocratas,  dentro dos órgãos reguladores e fiscalizadores, disputando com os "corruptos" que querem usar as dificuldades para vender as facilidades. 

Dilma não prioriza o tema e entende - pessoalmente - que as restrições dificultam e atrasam o desenvolvimento, principalmente nas obras de infraestrutura. Sem as restrições, acredita ela e muitos dos seus seguidores de que o Brasil estaria em melhores condições para enfrentar a estiagem atual, assim como maior disponibilidade de energia elétrica mais barata. Se isso estaria transferindo os custos para as gerações futuras, conforme alegam os ambientalistas, é visto como duvidoso. Ela não quer cuidar só do curto prazo, da sua gestão, mas não é uma estadista. Se as restrições ambientais colocam em risco o projeto de poder, ou o projeto social, como chegou a ameaçar, essas são afastadas.

Dilma e o PT podem reassumir o discurso ambientalista, mas faltam-lhe uma liderança crível e ficará dependente da influência do projeto de poder. Irá dar atenção ao desmatamento se um eventual aumento gerar um ambiente eleitoral desfavorável. Não assumirá posições de liderança internacional nas discussões sobre aquecimento global e gerenciamento da emissão dos gases de efeito estufa.
Mas reagirá, fortemente, por visão ideológica, contra qualquer ameça de internacionalização da Amazônia.
A tendência para os próximos 4 anos é de sequência do que ocorreu nestes últimos, do primeiro mandato: levar "em banho maria" e só reagir a questões especificas.

Na falta de opção Dilma preferiu manter Izabella Teixeira.

O PSDB, como a principal liderança da oposição, também não tem um claro projeto de sustentabilidade para o Brasil, faltando-lhe também significativas lideranças pessoais, embora historicamente tenha abrigado as lideranças iniciais. Fábio Feldmann foi uma delas, tendo sido eleito deputado dederal por três vezes, mas desistiu da carreira legislativa. Tentou a Governadoria de São Paulo, pelo PV e foi derrotado. Os ambientalistas tem muito espaço na mídia, mas poucos votos.
As lideranças remanescentes estão nas áreas acadêmicas e técnicas, sem a emergência de um ambientalista, com forte liderança política. Os seus principais líderes não dão maior importância à questão da sustentabilidade, a menos de discursos oportunistas. 

Precisará construir um projeto forte de impacto eleitoral, concorrendo com o PT que tem a mesma necessidade dentro de um espaço amplamente ocupado por Marina Silva.

Marina Silva está no dilema de aderir a um projeto político, mais amplo ou de se concentrar no projeto do Brasil ambientalmente sustentável. No primeiro caso, deve permanecer dentro do PSB. No segundo viabilizar o seu partido e construir nos próximos 4 anos um projeto eleitoralmente competitivo.

Não se trata de um projeto unitemático, mas de ter um forte pilar para sustentar os demais temas.

A primeira visão desse projeto é que, já no presente, mas mais no futuro próximo, a indústria sustentável é a alternativa (talvez a única) para a revitalização desse setor, hoje decadente. 

A competitividade futura do produto industrial não será apenas o seu custo ou as qualidades que influenciam o seu valor percebido, mas os recursos sócio-ambientais para a sua produção, até chegar ao seu consumidor.

Atualmente os produtos alimentícios já são obrigados a declarar na embalagem se contém ou não glúten e a sua composição nutricional. Embora ainda não seja a maioria, os que lêem as embalagens querem saber se contém ou não açúcares e gorduras trans. Ainda que não seja a exigência da maioria dos consumidores, os compradores das lojas de varejo já exigem dos seus fornecedores.

Os indicadores sociais ainda não estão consolidados, para serem incluidos nas embalagens ou nas etiquetas dos calçados, vestuário, eletrodomésticos e outros produtos de consumo. Mas qualquer grande marca que seja flagrado com uso de trabalho infantil, ou utilizado em condições similares à escravidão, tem logo uma redução de consumo. Para refazer a imagem podem gastar mais do que prevenir e evitar.

Embora haja avanços nesse sentido, há grandes resistências dos paises asiáticos, onde é mais comum a produção industrial em condições de trabalho degradantes. Mas ainda ocorre no Brasil, onde se alega o prejuizo social, com as restrições. Para alguns trabalhadores o trabalho, mesmo em condições precárias, é visto como a unica alternativa. Sem essa só lhe restaria a desocupação ou desemprego. No Brasil a sustentação mínima é dada pelo Bolsa-Família. Mas é preciso ter soluções mais expeditas para os trabalhadores liberados da condição similares à escravidão. A fiscalização se preocupa com a penalização dos empregadores, à liberação dos trabalhadores, mas pouco com o seu destino subsequente.

Apesar das resistências o consumidor consciente, em todo o mundo, tende a aumentar e ser mais exigente, de tal forma que não bastará ter o menor custo. O consumidor tende a ficar cada vez mais desconfiado, exigindo saber em que condições o produto foi fabricado. A sua ocorrência ainda não é majoritária, o que gera a oportunidade aos partidos políticos,  principalmente para a Rede de Sustentabilidade. 

Este assumindo a bandeira do consumo socialmente sustentável o incorpora a um projeto político. Essa colocação, por outro lado está sujeitos a críticas e contestações daqueles que são contra a politização do tema.

A outra dimensão da produção e consumo sustentável está no consumo energético e na emissão dos gases de efeito estufa. Aqui também o Brasil enfrenta um dilema: voltar a uma produção hidroelétrica, com base no volume de água represada, ou  restringir ao fio d'água e buscar produção alternativa. A curto prazo a alternativa viável é o gás ou o diesel, muito mais poluentes. As alternativas eólicas e solares ainda não decolaram. Há necessidade de uma política previsível de longo prazo.

O PT no governo fará a política real. A oposição e da Rede poderão concordar com o retorno da solução de represamento, diante da crise nacional da água, ou manter as restrições.  A tendência é que a oposição, se coloque a favor, diante dos impactos em São Paulo. Já a Rede deverá manter as restrições, principalmente na Amazônia. Com relação às soluções alternativas a tendência é de manutenção de uma política lenta e gradual, focando toda expectativa no aumento da produção do petróleo do pré-sal, com redução nos custos dos insumos. A queda já ocorrida nos preços internacionais de petróleo já ajudarão na redução dos preços finais da eletricidade.

Do ponto de vista político, os problemas da falta da água pesam mais que a preservação das terras indígenas na Amazônia. A restrição da produção hidroelétrica não levará ao apagão, dadas das alternativas térmicas, mas impacta nos preços.

Em relação ao desmatamento não há divergências finalisticas quanto à necessidade de reduzí-lo e controlá-lo, porém há diferenças quando à efetividade e aos instrumentos. 

A efetividade no Governo Dilma é baixa e o desmatamento voltou a crescer.

O maior desafio de Marina é transformar a questão ambiental em prioridade eleitoral. A primeira condição é tornar a questão a base para o crescimento econômico, como exposto acima.

A segunda condição é fazer da sustentabilidade uma ação para a redução da desigualdade social e gerar mais oportunidades de geração de trabalho e renda para os mais pobres.

A visão elitista tende tirar mais do que criar oportunidades de renda. 

Radicalizando na preservação das florestas naturais, acabam retirando populações tradicionais que sempre viveram da extração para consumo próprio. Não fizeram a distinção entre o consumo próprio e o consumo para a industrialização. Essa distorção veio a ser corrigida, mas depois de muitos terem sido expulsos do seu habitat natural.

A alternativa é o pagamento pelos serviços de preservação amiental, que é uma indenização pelo não extração e exploração das matas naturais. Mas isso não é suficiente. É preciso gerar oportunidades de trabalho para os "filhos dos beneficiários", no caso os "filhos da floresta".




Lula, meio livre

Lula está jurídica e politicamente livre, mas não como ele e o PT desejam. Ele não está condenado, mas tampouco inocentado. Ele não está jul...