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quinta-feira, 22 de março de 2018

Cervejas artesanais

A melhoria de renda nos paises desenvolvidos e emergentes, vem gerando a oportunidade para a produção de cervejas artesanais.

Essas cervejas por serem vendidas a preços mais elevados, em função dos ingredientes e diferenciação de paladar, podem arcar com custos logísticos maiores, sendo assim passíveis de exportações a paises mais distantes.

As "cervejas artesanais" já representariam cerca de 1% do mercado nacional de cerveja, segundo a Euromonitor.

As microcervejarias seguem a trajetória das "start-ups" de tecnologia.

Quando um pequeno empreendedor passa a produzir uma cerveja artesanal que "cai no gosto do mercado", se expandindo, saindo do seu nicho local e chegando às gôndolas dos supermercados nos grandes centros urbanos, são comprados por uma das grandes cervejarias.

Isso já ocorreu com a Colorado, de Ribeirão Preto, São Paulo, adquirida pela Ambev. A Schincariol - posteriormente venida para a Kirin e subsequentemente à Heineken -  assumiu o controle da Baden-Baden de Campos do Jordão, São Paulo e da Eisenbahn, de Blumenau, Santa Catarina. 

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Encantamento, cultura e geração y

José Galló, o mais bem sucedido administrador profissional brasileiro,  terá pela frente um dos poucos desafios que ele ainda está recusando a aceitar, conforme está no seu brilhante livro "o poder do encantamento".

Fez toda a sua carreira baseada na formação e consolidação de uma cultura empresarial, tendo como principal valor o encantamento das clientes. 

O  seu ciclo de 2012 a 2019, de sucessivo crescimento da Rede Lojas Renner, enfrentando as turbulências da crise de 2014-2017, e prevê um futuro com grandes mudanças tecnológicas, anunciadas pela Revolução 4.0.

A introdução dessas tecnologias dentro da cultura Renner, provavelmente será o seu desafio menor. 

Os dois desafios maiores estarão na área de recursos humanos ou gestão de pessoas, com a eventual desumanização promovida pela tecnologia e a contradição da sua cultura consolidada com a cultura da geração y, onde estão os novos talentos.

Os jovens mais talentosos em todas as áreas, mas principalmente nas áreas de gestão empresarial, não querem mais fazer carreira profissional perene num mesma empresa. O seu projeto pessoal é uma trajetória de aprendizado passando por diversas empresas e estar preparado para a gestão superior em qualquer empresa, de qualquer setor, e por tempo limitado. Os seus contratos de trabalho, para a gestão empresarial são por prazo certo e finito.  O oposto da visão de Galló.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Corrupção: o maior inimigo do empreendedorismo

Promover o empreendedorismo no Brasil é jogar o empreendedor nas malhas da burocracia e da extorsão. 

A corrupção é o maior responsável pela alta mortalidade das empresas de menor porte. Embora isso não apareça nas estatísticas, porque poucos ou ninguém declare que perdeu ou fechou a sua empresa em função dos altos encargos e riscos da corrupção: as propinas tornaram inviável a continuidade do seu negócio.

A sociedade tomou consciência, horrorizada com a corrupção nas altas esferas dos Governos, envolvendo grandes construtoras, mas achou que o mal se limitava a elas. 

Mas a Operação Carne Fraca trouxe outra realidade, ofuscada pelas supostas perdas do Brasil no mercado mundial da carne, que  conseguiu abafar o extenso mecanismo de corrupção dentro das atividades de fiscalização pública, promovida e acobertada pela classe política. 

A Operação Lava-Jato foca os mega esquemas. A Operação Carne Fraca desvendou o esquema de extorsão e corrupção de pequenas e médias empresas. Entre as quais há bandidos que efetivamente fraudam, mancomunados com a fiscalização e as vítimas dos fiscais corruptos. Que aceitam pagar a propina para se manter no mercado. Que não denunciam ou denunciaram para poder se manter em atividade. 

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Por que de tanta reação negativa à terceirização?

Se a terceirização ampla não retira direitos dos trabalhadores, como afirmam os seus defensores, por que tanta reação negativa com a terceirização?

A razão principal é a desinformação, com a aceitação pelos desinformados da tese acima, repetindo sucessivamente que a terceirização retira direitos e precariza o trabalho. Outra seria a universalização de problemas de categorias específicas.

Entre as categorias que já são afetadas pela terceirização e que seriam mais afetadas ainda é dos jornalistas.

As empresas de comunicação, seja por efeito da crise econômica, ou de adoção de um novo modelo de negócios, estão reduzindo o seu quadro permanente de jornalistas, contratados pelo regime celetista, para a contratação de serviços ou produtos com empresas (coletivas ou individuais). Isto é com terceiros.

Os profissionais com a perda de emprego, com carteira assinada, se vêem obrigados a constituir uma empresa individual (MEI) ou se associar com colegas para formar uma sociedade de pequeno porte, recebendo um pro-labore e participando dos eventuais lucros. 

Com o regime de "PJ" o profissional pode até ganhar mais que, em primeiro lugar, pode ser aparente. As férias, o 13º salário, vale transporte, vale alimentação e outros benefícios tem que ser assumidos pelo próprio profissional ou pela sua empresa. Ele precisa faturar mais para compensar essas perdas. E mesmo que consiga fica a impressão de precarização, por não ter esses "direitos". 

Para os profissionais que ainda estão empregados, a perspectiva é de perda do emprego. Para os que estão sem emprego, trabalhando ou sobrevivendo como "frilas" a esperança de que com o fim da crise econômica, poderiam ser recontratados se esvai, com a nova lei da terceirização.

As empresas de comunicação tenderão a ter um quadro permanente mínimo e contratar amplamente terceiros. Sem o risco de contestações coletivas. As individuais permanecerão. 

Afetados pessoalmente, os profissionais de comunicação, que são os difusores das notícias e das versões ou interpretações poderiam ser a principal fonte ou correia de transmissão da reação contra a ampliação da terceirização. 

quarta-feira, 22 de junho de 2016

PPI (4)

As concessões de serviços públicos são concessões para prestação dos serviços, antecedidos por obras que deem suporte físico aquela prestação.

As concessões rodoviárias - as primeiras a serem estabelecidas a partir da redemocratização - estabeleceram os paradigmas das concessões, com todas as suas distorções.

Nas concessões rodoviárias o investimento inicial é o elemento mais importante e das receitas futuras a maior parte deve ser destinada à amortização dos investimentos. 

No jargão do mercado, o CAPEX (capital expenditure) é mais importante do que o OPEX (operation expenditure). Em todas as demais concessões ocorre o inverso. 

A concessão, como negócio é de prestação de serviços, suportada por grandes ativos físicos. A competência principal requerida para o sucesso do empreendimento está no serviços. O concessionário precisa ser um bom prestador de serviços.

As concessões envolvem investidor e empreendedor.


Investidor e empreendedor nem sempre se confundem numa mesma pessoa. Empreendedor é o que assume e toca o negócio. Assume maiores riscos e busca remuneração consistente com o risco. Já o investidor pode ser apenas um financiador, emprestando os recursos ao empreendedor, em troca de remuneração fixa, isto é, de juros pré-fixados.

O investidor aplica os recursos e os quer de volta, dentro de determinados tempos e vai comparar os seus rendimentos baseados apenas pelos prazos decorridos,  com os decorrentes da exploração de um negócio. 


Já o empreendedor é o que vai criar (ou implantar) o ativo e tem que cuidar durante longo tempo da exploração do negócio para gerar os resultados e remunerar os investimentos.

Também empreendedor e construtor também não precisam ser o mesmo. O empreendedor é o responsável pelo investimento, mas pode contratar uma construtora para executar a obra. O empreendedor é o responsável pelo projeto de engenharia. O que - igualmente - poderá ser contratado com terceiros.

Entender bem essas distinções é fundamental para o eventual sucesso das parcerias público-privadas.
 

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Novos rumos

As multinacionais automobilísticas instaladas no Brasil seguirão a mesma estratégia de pressionar o Governo para conceder benefícios para sustentar o consumo nacional ou vão se voltar mais para o exterior?


Em 2014, com a reeleição de Dilma resolveram acreditar na continuidade da "politica industrial" com apoio da CUT e de outros sindicatos, e se mantiveram voltados para o mercado interno.
Terminaram 2015 como o pior ano, com quedas absolutas de vendas, elevada ociosidade, demissões e perdas econômicas.

Que estratégias definiram, nas suas respectivas sedes, no Exterior em relação às suas unidades no Brasil? 
  • reorientar para exportações; ou
  • promover a sua gradual redução, preparando uma retirada?
 A principal mudança de circunstâncias do final de 2015 foi a eleição de Macri na Argentina derrotando o populismo kirschnerista. 


Transferirão produção para o país vizinho, ou aguardarão as possíveis mudanças em 2018? Ou trabalharão com a expectativa de uma antecipação? 


segunda-feira, 15 de junho de 2015

O animal é outro

A expectativa do Governo é restabelecer a confiança e despertar o instinto animal do empresário privado. Segundo as lições atribuidas a Schumpeter ou a Keynes.

O problema é que o mundo mudou e as grandes empresas não são mais dirigidas pelos seus criadores ou familiares, mas por executivos profissionais, contratados pelos acionistas.  Não tem o mesmo espírito do empreendedor, que, por natureza, corre maiores riscos. 

O executivo precisa mostrar resultados a curto prazo e preservar o seu emprego. Avalia os riscos racionalmente, diferentemente do empreendedor que arrisca na base do seu "feeling". Nem sempre dá certo, mas não é conservador como o executivo. O executivo não tem espírito animal.

Uma grande parte das empresas é formada por multinacionais cuja direção está em outro país. Despertar a partir de Brasília o instinto animal do dirigente alemão da Volkswagen não é tarefa fácil.

Ademais os próprios controladores das empresas não são mais os criadores, mas fundos de investimentos, que precisam prestar contas aos seus investidores.

Para despertar o instinto animal do empreendedor é preciso antes encontrá-los. 

(ver artigo completo, na coluna artigos)

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Rumos estruturais do Brasil

A maioria dos diagnósticos sobre a atual crise brasileira convergem para a interpretação de que o Brasil, com os governos do PT, basearam o crescimento econômico na expansão continuada do seu mercado interno. Esse modelo ou rumo se esgotou, com graves sequelas de mau uso dos recursos públicos e alto endividamento, com pesados encargos financeiros em função dos juros elevados.

O ajuste fiscal tem por objetivo combater as sequelas, porém sem intervenção direta sobre os rumos estruturais. A visão "néoliberal" é de que isso ocorra naturalmente pelas forças do mercado. (o que é um equívoco, pois todos os Estados Nacionais, interferem, de uma forma ou outra no modelo e rumos estruturais da economia do país).

De toda forma, o Estado Brasileiro, no momento atual, com a necessidade de ajuste fiscal, não tem condições de intervenção direta nos rumos estruturais da economia brasileira, que terá que seguir segundo "as forças do mercado". As intervenções indiretas estão na taxa de juros, como principal instrumento de combate à inflação, e na liberação do câmbio, represado - no modelo anterior - como um instrumento de combate à inflação.

Embora de forma não explícita o Brasil seguiu a receita também não explicita do "Reaganomics" de transferir a produção industrial dos bens de consumo dos norte-americanos para os países  asiáticos, principalmente a China, para tê-los mais barato, trazidos e distribuidos principalmente pela Walmart.
E fez isso, com aumento do endividamento do Tesouro Norte-Americano, para pagar as crescentes importações.
Com isso combateu a inflação, barrou aumentos salariais dos trabalhadores e promoveu a desindustrialização dentro dos EUA. Este processo está sendo revertido, com a reindustrialização norte-americana e controle da inflação pelos mecanismos monetários e não estruturais.

Valendo-se da produção agro-industrial, mineral e da crescente demanda das commodities pela China, gerando divisas, o Brasil seguiu - em escala menor - esse modelo de crescer através do mercado interno, e usar o câmbio controlado para as importações mais baratas.

Tanto o modelo original norte-americano, como o brasileiro se basearam numa componente, pouco percebido de que os serviços e o comércio agregado ao produto industrial barato, gera mais empregos do que aquele. Ou seja, a perda de emprego industrial é mais que compensado pelo aumento dos empregos no setor terciário. E com isso, mesmo com a desindustrialização, há uma sustentação da geração de empregos e os índices de desemprego ficam baixos.

A principal mudança estrutural não decorre do ajuste fiscal, mas da mudança no cenário internacional amplo, com a China perdendo exportações, ficando cada vez mais dependente da dinâmica do seu imenso mercado interno, cujas taxas de crescimento são relativamente menores do que os promovidos pelas suas exportações. Essa desaceleração de crescimento da economia chinesa afeta os volumes e preços das commodities, afetando diretamente a geração de divisas, aumentando o dólar e reprimindo as importações dos produtos mais baratos de consumo.

O comércio internacional das commodities brasileiras  sustenta o nível anterior da economia, mas não tem o poder de  alavancar o crescimento. Gera divisas, mas pouco empregos o que significa pouco efeito induzido, ou seja, a movimentação da economia, pelas compras dos trabalhadores. O crescimento do setor terciário está interativamente relacionado com a expansão do consumo interno. O que vai afetar o crescimento, estagnação ou recessão é ainda a produção industrial, com três alternativas básicas de mercado:

  • o mercado nacional e dos países vizinhos;
  • o mercado externo das empresas nacionais de cada mercado;
  • o mercado externo das multinacionais com presença produtiva no Brasil.
O mercado nacional e da vizinhança está enfraquecido e não tem, conjunturalmente, condições de alavancar um crescimento industrial e geral. 

A expansão das exportações das empresas nacionais brasileiras, para empresas e mercado nacional em outros países está sendo favorecido pela melhoria do câmbio estimulando essas empresas a aumentarem as exportações, com apoio do Governo Federal. Como muitas empresas industriais deixaram de exportar, pela condições desfavoráveis, a retomada será demorada. As novatas que precisam difundir a sua marca e organizar a sua rede logística e comercial, o tempo de maturação será ainda maior. O crescimento das exportações industriais para o mundo fora a vizinhança, só deverá tomar impulso em 2016 e anos subsequentes, podendo-se consolidar, desde que o Brasil não volte ao "stop and go", caindo de novo na tentação de conter as variações cambiais.

O rumo alternativo, com possibilidade de ampliar as exportações, tanto a curto prazo, como a médio e longo prazos está em aceitar a opção, sempre recusada, de tornar o Brasil um território hospedeiro de indústrias globais, envolvendo as plataformas de exportação.

Parte significativa do comércio exterior ocorre intrafirmas. São movimentos feitos por multinacionais de uma subsidiária a outra, ou com a própria sede. Não dependem de ações de marketing, tampouco do investimento próprio em logística e comercialização. Usam os sistemas já existentes. A Volkswagen importa o Jetta do México e o vende pela sua rede de distribuição nacional, junto com outros modelos produzidos no Brasil. O que vale é marca e não o local de fabricação. A Ford manda o Ecosport para o México, onde é comercializado pela rede nacional. 

As multinacionais são bem vindas ao Brasil para abastecer o mercado interno, com produção nacional, mas não são acolhidas se quiserem fazer do Brasil uma plataforma de exportação. Por decisão governamental, com apoio da sociedade. 

Mudança fundamental de rumo estrutural do Brasil está em tornar-se um grande supridor mundial dentro das redes das multinacionais.

Não é uma simples mudança de lado da chave. Envolve diversas implicações, positivas e negativas. Mas deve ser amplamente discutida. 

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Fatos e versões sobre a terceirização

Os Sindicatos são contra a terceirização e argumentam com o risco da precarização das relações de trabalho. O risco existe, mas a relação não é direta, tampouco automática.

Não é a terceirização que leva à precarização. O fato de haver maior ocorrência de precarização em empresas contratadas como terceiras e menos em empresas contratantes não significa que estas queiram a terceirização para precarizar as condições de trabalho.

Essa visão decorre dos primórdios da onda de terceirização de serviços, ocorrida há cerca de 30 anos. Seguindo uma tendência mundial, as multinacionais, acompanhadas pelas grandes estatais buscaram o modelo organizacional de especialização do seu "core business" ou negócio central, contratando com terceiros as demais atividades ou "comprando pronto". Em inglês "outsourcing", literalmente suprimento externo.

O caso mais emblemático foi o da indústria automobilística que em vez de comprar pneus, forjar ou fundir rodas, os parafusos e outras peças, passou a comprar o conjunto roda-pneu para ser acoplado diretamente no carro na montagem final. 

Embora um processo antigo, que sempre colocou para a gestão empresarial a opção entre "comprar de terceiros" ou "fazer em casa", ganhou força, com o desenvolvimento dos serviços de tecnologia da informação. Ao decidir por "comprar fora", as empresas perceberam que podiam contratar outros serviços fora. Foram acompanhadas pela organização de empresas "de fora" especializadas em fornecer esses serviços.

Passou a contratar com empresas especializadas os serviços de limpeza, manutenção predial, segurança patrimonial e outros. Terceirizou os serviços de fornecimento de alimentação aos seus funcionários, para se dedicar ao seu negócio principal que passou a ser a criação, promoção e marketing de seus veículos.

Com a concentração no seu negócio, esperavam focar mais nas suas estratégias (questões do negócio), ampliar a qualidade, produtividade e redução dos custos, ganhando maior competitividade.

Mas, além de transferir a gestão desses serviços a empresas especializadas, com a qual esperavam obter maior produtividade, pressionaram no sentido da redução de custos, o que levou algumas empresas contratadas a apelar para transferir essa redução de custos aos seus empregados e ao não pagamento de tributos e encargos sociais.

Algumas empresas que já não cumpriam regularmente as suas obrigações fiscais e previdenciárias e mantinham trabalhadores em condições irregulares buscaram na terceirização a transferência de responsabilidades. Muitas empresas laranjas foram criadas para produzir a menores custos, a custa dos trabalhadores, liberando as contratantes. Isso foi muito usual em empresas rurais e empresas de construção, subcontratadas pelas grandes empresas e mantendo trabalhadores em regime similar à escravidão.

O "outsourcing" no Brasil foi entendido como "terceirização da mão-de-obra" ou a terceirização dos serviços.

A extensão desse processo levou a uma reação dos sindicatos e dos Governos, em que a terceirização foi estigmatizada como a responsável pela precarização. A partir dai jurisprudência foi estabelecida, com a emissão da súmula 331 do Tribunal Superior do Trabalho, num processo de judicialização da regulação. Pois a súmula não tem a força de uma lei, mas orienta as decisões judiciais a respeito. Essa súmula, faz a distinção entre atividades-meio, para as quais seria permitida a terceirização e as atividades-fim para as quais não seria permitida.

Essa distinção, dos primórdios da teoria da administração, ainda dos anos de 1930 foi ficando superada pelas novas formas de organização do trabalho e das atividades produtiva. 
Por exemplo, a atividade principal de uma Fiat ou de um Volkswagen não é mais a produção de automóveis, mas o seu projeto e seu marketing. A atividade industrial de produção passou a ser atividade-meio.

A atividade principal da Coca-Cola como da Nike é a marca. 
A atividade principal da Nike é o "Just do it". A fabricação da bebida ou do tênis é terceirizada a centenas de fabricantes pelo mundo.

O negócio principal da Apple é criar as sucessivas gerações de Iphone, Ipad e outros dos seus inovadores produtos. A sua atividade-fim, concentrada nos EUA é a geração de novos produtos. A fabricação, como atividade-meio é feita toda na China.

O Brasil pouco acompanhou esse processo de organização globalizada da produção, como manteve  o entendimento obsoleto e distinção entre atividade-fim e atividade-meio.

"Outsourcing" é indevidamente traduzida como terceirização e percebida como terceirização de mão-de-obra. Desenvolveu-se a imagem de que terceirização era a demissão de trabalhadores com carteira assinada, por trabalhadores informais, sem carteira, sem direitos e, em alguns casos, submetidos a condições vexatórias, equivalentes ao trabalho escravo.

Agora, depois de muitos anos, com sucessivas proposições, discussão e protelações o Legislativo decidiu aprovar uma lei, com a adoção do PL 4330 cujo conteúdo permite a terceirização de qualquer parte das atividades de uma empresa, eliminando a ultrapassada distinção entre atividade-meio e fim.

Essa abertura desagrada alguns sindicatos, o partido dos trabalhadores e outros setores para manter coerência com as suas posições desde o início do processo. Não obstante tenha havido grande avanço no combate à precarização das condições do trabalho.

Mantém-se uma associação superada entre terceirização e informalidade, entre terceirização e precarização. Precarização ainda existe e ocorre no campo da ilegalidade. Mas não é filha da terceirização.

O problema sindical


O problema sindical maior não é precarização, mas a filiação sindical. Os empregados da empresa terceira, prestador de serviços a uma primeira empresa (ou a contratante dos serviços) irão se filiar à categoria econômica dessa contratante ou à categoria econômica da contratada? 

No caso de atividades meio é normal a distinção entre as categorias econômicas, da atividade principal da empresa, levando em conta que o objetivo primordial da terceirização seria a busca da especialização, como fator de produtividade e competitividade. Assim ocorre com os serviços de limpeza, manutenção patrimonial, alimentação e segurança, os serviços mais comumente terceirizados. 

Os trabalhadores terceirizados, dessas atividades se filiam a sindicatos de categorias econômicas das contratadas e não das contratantes.

O receio dos sindicatos das categorias econômicas é que a terceirização seja considerada uma categoria econômica, dando origem a sindicatos dos trabalhadores terceirizados, o que já existe, de forma pouco definida.

Há uma proposta de emenda que estabelece a filiação dos trabalhadores terceirizados nos sindicatos da categoria da contratante. Isso cria outras confusões, pois há empresas, como as de limpeza, que prestam serviços a diversas empresas e de categorias econômicas distintas. E há também rotatividade dos seus empregados por diversas empresas, o que dificulta a vinculação do trabalhador à empresas contratante primária.

Quando a empresa terceira pertence a mesma categoria econômica da contratante não haveria conflito, a menos da já citada criação da categoria de trabalhadores terceirizados.

(cont)

quinta-feira, 19 de março de 2015

A transformação do fluxo de produção em cadeia produtiva

O fluxo de produção é a concatenação das diversas etapas de transformação e transporte  desde a matéria prima, que partindo da concepção do produto, o torna um bem real para ser consumido ou utilizado pelas pessoas.

Esse fluxo de produção pode envolver diversas empresas, com relacionamento pontual de natureza comercial, mediante a negociação de preços, qualidade e prazos de entrega.

Esse fluxo pode ser organizado envolvendo diversas etapas e submetida a uma governança empresarial.

Pode envolver uma inteira verticalização, o que não é comum, ou a criação de uma rede de empresas submetida à governança de uma empresa principal. Essa torna-se a gestora de uma cadeia produtiva.

Essa gestora ou governadora da cadeia produtiva pode ser uma fabricante, uma varejista ou uma criadora de produtos. A característica comum dessa gestora é a detenção de uma marca. No primeiro caso temos a Toyota, a Fiat e todas as demais grandes montadoras automobilísticas. No segundo a Zara ou a C&A. As grandes redes de supermercados comercializam produtos, com marca própria, terceirizando a sua fabricação. No terceiro grupo a mais conhecida é a Apple, que cria ou desenvolve os seus produtos e contrata inteiramente a sua produção com terceiros. Há os casos hibridos, com desenvolvimento de produtos e parte da fabricação com unidades próprias e outras terceirizadas, como ocorre com a Nike, Adidas e outras empresas de material esportivo.


As cadeias produtivas globais são organizadas  por grupos empresariais e não por países. 
Essas cadeias são instaladas com partes de diversos paises, cada qual com uma função específica, porém interligadas. Decorrem de decisões empresariais e não governamentais, embora os Governos possam interferir fortemente nas decisões empresariais.

A participação de um país nas cadeias produtivas globais pode ser medida pela presença de estabelecimentos de multinacionais no respectivo país. 

Nesse sentido o Brasil está amplamente inserido nas cadeias produtivas globais, dada a grande presença das multinacionais, com estabelecimentos produtivos.

Praticamente não há nenhum setor industrial que não conte, no Brasil, sem a presença de, pelo menos, uma multinacional de grande porte.

Em alguns setores o domínio das multinacionais é total, como no caso do setor automobilístico. Não há um único produtor nacional de automóveis. Já no setor de autopeças, há várias empresas nacionais, mas o predomínio é de empresas multinacionais, de origem estrangeira. Essas se inserem nas cadeias produtivas comandadas pelas grandes empresas montadoras e donas das marcas mais valiosas. A Saboo é uma das poucas empresas nacionais de autopeças que alcançou a condição de multinacional.

No setor eletro-eletrônico todas as maiores empresas mundiais do setor estão presente, promovendo enormes déficits cambiais por conta das elevadas importações de peças, componentes e mesmo de produtos acabados. Não há nenhum grande grupo empresarial nacional para concorrer com as multinacionais. Alguns estão associados a elas, como a Semp, com a Toshiba. Outras conseguem atuar no mercado médio.

Outro setor também com elevados déficits comerciais é o químico-farmacêutico, também dominado pelas grandes multinacionais, porém com presença relevante de grandes grupos nacionais. A principal participação desses está na produção de genéricos farmacêuticos. Mas nenhum deles se tornou ainda uma multinacional.

A grande e rara exceção está na indústria aeronáutica, inteiramente dominada pela Embraer, a principal multinacional industrial brasileira. Petrobras e Vale as maiores multinacionais brasileiras não tem a indústria como sua atividade principal, atuando no campo das commodities minerais.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

A crise da indústria brasileira e sua superação

A balança comercial brasileira foi deficitária em 2014, uma condição que não ocorria desde 2000. De um lado a indústria foi a mais deficitária e de outro as commodities agrícolas e minerais, com os preços unitários em queda, não foram suficientes para cobrir aquele déficit. 

As análises apontam para baixa produtividade, baixo grau de inovação, câmbio supervalorizado, carga tributária, insuficiência de infraestrutura e outros fatores macroeconômicos, tratando a indústria como uma entidade monolítica. Ela não é, contemplando diversidades em que cada fator influencia de forma diferenciada. 


Esse tratamento da indústria como se fosse uma unidade decorre da visão estatistica. Nos números das estatísticas oficiais do comércio exterior ou da contabilidade nacional (a que apura o PIB). a indústria é uma categoria que soma os resultados de todos os seus subsetores.


E essa indústria, como um todos,  é responsabilizada pelo déficit por não se integrar nas cadeias produtivas globais. Tais análises não entram em detalhes sobre essa não inserção, tendo sido transformado num mantra, repetido sucessivamente. O que é uma falácia. Já escrevemos reiteradas vezes aqui que a "indústria brasileira" está ampla e profundamente inserida nas cadeias produtivas globais.


Duas considerações prévias devem ser feitas, a respeito.


A primeira de que a categoria estatística indústria significa indústria instalada no Brasil e não indústria brasileira, no sentido de propriedade. Essa indústria instalada no Brasil tem uma grande participação de multinacionais, que diante das mesmas questões acima listadas, não tem necessariamente a mesma reação das indústrias sob controle de brasileiros.


A indústria dos brasileiros, efetivamente, está pouco inserida nas cadeias produtivas globais. Já a indústria das multinacionais são, no Brasil, uma etapa da sua cadeia produtiva global. Portando estão inseridas, ao contrário do que se propala.


A segunda consideração preliminar é que cadeia produtiva global é de uma empresa. Não é um fenômeno aleatório ou natural, que é captada pelos estudos. A cadeia produtiva global é uma organização do processo produtivo criada e gerida por uma multinacional.  Com o controle de todas as suas etapas. Tem dono, com nome e sobrenome. 


Temos então a cadeia produtiva da Fiat, ou da Syngenta, da Siemens e de outras tantas multinacionais. Todas elas presentes no Brasil.


Quando se compara a competitividade global não é da indústria como um todo, mas de uma unidade nacional da multinacional com outra localizada em outro país.


Ou seja não se trata de comparar a competitivdade  da indústria brasileira com a mexicana, mas da das unidades da Volkswagen o Brasil, com as instaladas pela mesma multinacional no México. Isso vale para a comparação com as unidades na Alemanha, na Bélgica, na Turquia e qualquer outro país onde a multinacional esteja instalada. 


As decisões do local de produção e o mercado a ser atendido não é nacional, mas da Direção Regional ou do próprio board central da multinacional.


Se a Volkswagen não exporta os seus carros para os EUA ou a Fiat importa carros da sua fábrica no México, não é fruto da competência ou incompetência comercial da direção dessas unidades regionais, mas porque a direção superior do grupo empresarial assim decidiu, comparando as condições competitivas de cada uma das suas unidades e a lucratividade de cada operação.


O prof. Antonio Delfim Neto, em entrevista á Folha de São Paulo (publicada em 2 de novembro de 2014) diz que "das 500 maiores multinacionais 400 estão no Brasil. Você precisa de um diálogo com essa gente. Precisa saber o seguinte: o que você precisa para voltar a exportar do Brasil? Mas não pode fazer isso reduzindo o lucro delas" .


As cadeias globais podem ser vistas segundo duas perspectivas: o da produção ou do suprimento. Visto do lado da produção, a indústria no Brasil está inserida, abriga as unidades produtivas das multinacionais para suprir o mercado nacional e de paises vizinhos.  Significa que está na ponta final da cadeia produtiva. 


Vista do lado do suprimento, a unidade produtiva compra muitas partes e insumos da mesma cadeia produtiva, mas produzidos no exterior. 


A indústria no Brasil está inserida na cadeia produtiva, mas não na cadeia de suprimento. Significa que é importadora, mas não exportadora. O resultado é o déficit comercial.


Entre as questões que influem nas condições de competitividade duas são relevantes: a inovação e a produtividade.


Diz-se que a indústria brasileira não é competitiva porque inova pouco. Porque aplica poucos recursos em pesquisa & desenvolvimento. O que é outra falácia.


As multinacionais instaladas no Brasil investem em pesquisa & desenvolvimento, inovam, mas essas ficam dentro do grupo. Os resultados do esforço inovativo não é disseminado, não é democratizado, não é socializado, não é nacionalizado. É apropriado individualmente, privadamente. 


E a inovação pode ser aplicada na unidade brasileira, como nas demais unidades do próprio grupo. A inovação pode ser globalizada, mas nos limites do grupo empresarial que alcançou a inovação. 


Cada vez mais inovação não é um produto nacional, mas empresarial. 


E se uma inovação aplicada pela unidade no México não é aplicada no Brasil, não é porque aqui não se investiu em P&D para chegar aos mesmos resultados, ou a resultados melhores: é porque a direção mundial resolveu não aplicar. Vale o inverso: uma inovação na unidade brasileira não lhe dá vantagem em relação à mexicana, ou outra qualquer. Porque se for boa a direção mundial a leva para as demais unidades. 


Ou seja, dentro das cadeias globais inovação não dá vantagem de uma unidade regional sobre outra do mesmo grupo. A vantagem seria em relação aos concorrentes que, mesmo instaladas no mesmo país, onde foi desenvolvida a inovação não tem acesso a ela.


Portanto é uma falácia afirmar que a indústria brasileira não inova porque não investe em pesquisa & desenvolvimento. Pode valer para as indústrias de propriedade de brasileiros, mas não para as multinacionais. Pode valer para pequenas inovações, pontuais, mas não para as significativas inovações que afetam profundamente a competitividade.


A introdução de inovações na produção da multinacional no Brasil não decorre da P&D, mas da decisão da direção mundial em introduzir a inovação na sua produção no Brasil. 


A produtividade do trabalho na unidade brasileira é inferior ao de outras unidades em outros paises. É um fato real e verficável. Mas os diagnósticos nem sempre são corretos.


A principal causa apontada é a qualificação do trabalhador brasileiro, com menor grau de educação. É também um fato real, mas não é a causa principal da baixa produtividade.


A causa principal está na pequena escala de produção da unidade fabril brasileira. 


Quando a direção mundial da multinacional decide implantar no Brasil uma unidade produtiva para atender apenas ao mercado nacional e vizinhança, dimensiona a sua capacidade de produção para o tamanho e perspectivas desse mercado e em função desse tamanho, define o grau tecnológico. 


Quanto menor a escala, menor o grau tecnológico, maior o uso de mão-de-obra de menor qualificação, baixando o nível de produtividade. Ao contrário, quando maior a escala, maior o grau tecnológico, maior a produtividade da mão-de-obra e o requerimento de pessoal mais qualificado. 


A qualificação da mão-de-obra não vem antes da demanda. Ela é puxada pela demanda.


Havendo a demanda há o interesse das pessoas se qualificarem, pois representa, no mínimo, melhor remuneração.


Uma das restrições, no entanto, é a falta de base educacional formal, para esse avanço de qualificação. Ou seja, a carência da educação de base. 


A qualificação da mão-de-obra é uma questão de treinamento e as próprias empresas investem nesse treinamento para ter o pessoal qualificado. O que pode inibir essas inciativas é a visão de que o investimento em treinamento será ineficaz porque os candidatos não tem base.


Na prática há uma diversidade de situações: as multinacionais atraem os trabalhadores com maior base e os qualificam. As demais ficam com os de menor formação, ou ficam na espera de que o setor público ou o mercado os formem.


O resultado estatístico final é - efetivamente - uma produtividade menor: mas com grande desigualdade.


Se a direção mundial da multinacional decide instalar uma unidade produtiva no Brasil, para não perder este importante mercado, define uma escala xx, já prevendo complementar o atendimento do mercado nacional com importações.


Se essa unidade for planejada para suprir o mercado global, terá uma escala, digamos de 5 xs, ou seja, cinco vezes maior , o que permitirá, por outro lado, incorporar maior tecnologia. Consequentemente, maior produtividade. 


Em síntese: o principal fator que influi na produtividade é a escala de produção. É a escala de produção que define o grau de tecnologia a ser instalada.


E a escala depende da destinação planejada da produção.


A instalação de uma grande fábrica da Fiat em Goiana, Pernambuco é emblemática nesse sentido. 


Dentro da sua estratégia mundial a direção definiu a instalação de uma unidade de suprimento mundial: que atendesse à perspectiva de crescimento do mercado brasileiro, mas também do mundial.


Para atender à expansão do mercado brasileiro poderia se limitar à expansão da sua unidade em Betim, Minas Gerais. Mas para uma unidade mundial o espaço disponível era insuficiente.


O Governo de Pernambuco ofereceu vantagens tributárias e físicas para a instalação da nova unidade da Fiat em Pernambuco, dentro do complexo portuário-industrial de Suape.


Mas para uma unidade de suprimento mundial a Fiat não encontrou uma área ampla e foi se instalar em Goiana, na divisa com a Paraiba, cerca de 70 km. distante do Recife.


Mas nem Lula, tampouco Eduardo Campos, os mentores da instalação disseram que se tratava de uma plataforma de exportação. 


Para a Fiat uma aposta de alto risco, pois se baseia na expectativa de que o Governo mude a sua política industrial, voltando-se tambem para fora. 










Lula, meio livre

Lula está jurídica e politicamente livre, mas não como ele e o PT desejam. Ele não está condenado, mas tampouco inocentado. Ele não está jul...