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quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Uma boa intenção, mas duvidosa

 Na aprovação do projeto de lei que estabelece a autonomia operacional do Banco Central, foram estabelecidas duas missões adicionais ao BC para o qual ele não conta com instrumentos adequados, tampouco fundamentos teóricos.

Diz o projeto que:

“Sem prejuízo de seu objetivo fundamental [de estabilidade de preços], o Banco Central do Brasil também tem por objetivos zelar pela estabilidade e pela eficiência do sistema financeiro, suavizar as flutuações do nível de atividade econômica e fomentar o pleno emprego”,

São meras intenções políticas, ou "jabutis oficiais" para mitigar a oposição ao projeto.

O papel fundamental do Banco Central é de governança monetária, sustentado por teórica, ou cientifica segundo os economistas e instrumentos para tal, como a definição da taxa de juros básica, intervenção no mercado de câmbio, volume de dinheiro em circulação no país, gestão das reservas monetárias do país, regulação e controle do sistema bancário e afins, mais outras atividades pertinentes.

Em relação à suavizar as flutuações do nivel da atividade econômica, trata-se de orientar a política monetária para conter flutuações excessivas, que - em  geral - ocorrem por fatores externos. 

Requer uma boa gestão da politica monetária, sem a contaminação de interesses políticos imediatistas, vale dizer "populistas",  dai a importância da autonomia do Banco Central. 

Já em relação à fomentar o pleno emprego, há pouca ou nenhuma base teórica/científica para utilização da política monetária como instrumento de interferência no mercado de trabalho.

Sua atuação em relação ao mercado de trabalho seria indireta, a menos que extrapolasse as suas atribuições para adentrar em outros campos da política econômica.

Dois seriam os principais formas de atuação indireta: evitar flutuações cambiais de valorização do real, o que poderia conter as exportações, com impactos sobre a atividade produtiva voltada para o mercado internacional e, consequentemente, os empregos vinculados a essas atividades. 

No mercado interno já tem atuado na redução da taxa de juros para incentivar as compras a prazo. Só tem tido resultado positivo no mercado imobiliário de classes de renda mais alta. 

Vem ocorrendo um aumento dos empregos no setor, mas insuficiente para melhorar os índices agregados de emprego.

A construção não é o maior emprgador, como se imagina.

O comércio de automóveis estaria com maior aquecimento no segmento dos seminovos, comprometendo o dos carros novos que impulsionam a produção. E o Banco Central tem pouco a fazer, em relação a isso, embora seja uma situação conjuntural. 

Nos demais setores menos impactados pela taxa de juros, com prevalência das compras à vista a recuperação é lenta, o que indicaria a ineficácia da politica de juros para fomentar o pleno emprego.

O fator mais importante do tripé monetário, fundamento da ação de um Banco Central autônomo está em não intervir para sustentar a valorização do real, ou - o que é o outro lado da moeda - para evitar a desvalorização do dolar, que tem dominada a visão populista política. 

Jair Bolsonaro, embora um populista, tem dado independência ao Ministro da Economia e ao Banco Central, para manter uma política de não intervenção, o que pode dar maior segurança às empresas para aumentarem as suas exportações. 

O agronegócio tem respondido favorável e rapidamente, enquanto a indústria ainda está reticente, com receio de se aventurar mais amplamente no mercado internacional.

Nesse sentido o cenário decorrente da autonomia do Banco Central seria mais promissor. 

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

O agro como capitalização da indústria

  No passado os excedentes da acumulação de capital do café, um produto agricola, financiou a instalação da indústria brasileira. Não apenas uma indústria processadora de produtos do campo brasileiro, mas de uma gama diversificada de produtos voltada para o mercado interno. Os principais produtos do complexo agro-pecuário-florestal industrializados foram o algodão, para os tecidos, a madeira, para os móveis, entre os não alimentos e o açúcar, as carnes e o leite entre os alimentos. Umas das principais indústrias alimentícias, dessa fase inicial foi do trigo, cuja matéria prima era toda importada.

A indústria cresceu e se diversificou em torno de produtos metalúrgicos e derivados de petróleo, superando em muito a participação da agropecuária dentro do PIB.

A indústria brasileira foi fruto do capital do agronegócio. Com essa capitalização promoveu e impulsionou o crescimento macro da economia brasileira.

O próspero agronegócio brasileiro poderá exercer e novo esse papel e agora financiar a reindustrialização brasileira? 

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

O agronegócio como propulsor da economia

 A agropecuária brasileira segue em grande expansão, superando os obstáculos e atendendo às demandas nacionais e mundiais.

Na parte nacional o aumento dos preços dos alimentos, com maior visibilidade para o arroz e feijão, foi debitado à insuficiência da produção e, consequentemente, da oferta, diante do forte crescimento da demanda provocada pelo auxílio emergencial. No período, houve um aumento da produção desses alimentos, mas teriam ocorridos problemas logísticos, associados à especulação. Aparentemente o mercado se equilibrou, com a demonstração de que a agropecuaria brasileira tem total capacidade de atender às demandas nacionais e ainda ter grandes excedentes para suprir o mundo.

Enfrenta contestações ambientais, mas já surgiram contestações sobre o seu "poder de fogo" macroeconômico.

Os defensores do agronegócio alegam que este representa entre 24 a 30% do PIB, mas isso somando toda cadeia produtiva, inclusive os "chefs de cusine" que preparam os pratos sofisticados servidos aos "gourmands nacionais". Já teria chegado a esse nível de 30%, mas vem decrescendo não só em função do crescimento de outros setores, mas também pela perdas na agroindústria. Essa envolve os alimentos assim como os não alimentos.

A agropecuária, no sentido estrito, abrangendo as lavouras e a pecuária, atividades tipicas do campo, representariam apenas 6 a 8% do total do PIB.

Isso se explica por serem atividades iniciais da cadeia produtiva, com baixo custo/valor agregado e o PIB soma apenas os valores adicionados aos dos produtos anteriores.

O segmento moderno, que hoje representa a maior parte, tem elevada produtividade da terra, com a introdução de modernas tecnologias e equipamentos modernos. Reflete-se na produtividade da mão-de-obra, o que significa, em contrapartida, menor volume de trabalhadores e menor efeito-renda (a renda adicional gerada pelos gastos com os salários dos trabalhadores.

O volume maior de trabalhadores na agropecuária, mostrada nas estatísticas oficiais decorre da agricultura familiar, ainda com baixa produtividade, tanto da terra como do trabalho. O que se reflete no maior contingente de trabalhadores, supostamente um benefício social maior. A maior parte da produção da agricultura familiar é consumida no mercado interno, com pouca participação das exportações. 

O agronegócio tem na sequencia da cadeia produtiva, parte ainda no campo, de uma industrialização dos produtos. Para efeito do PIB, já é incluída como indústria, portanto fora dos 6 a 8% da agropecuária estrita.

O processamento da cana para produção de açúcar ou etanol, a produção de carnes, seja de aves, suinos ou bovinos e a produção de suco de laranja, apenas para citar alguns dos principais produtos de exportação do agronegócio, já são indústria e não mais agropecuária. Não estão no setor primário da economia, mas no secundário.

A principal agregação de custo/valor aos produtos do campo ou mesmo da industrialização inicial, não está - com se supõe no processamento dos produtos, mas nos serviços, principalmente na logística e na comercialização, tanto no atacado como no varejo.

Do valor final pago pelo consumidor nos supermercados ou quitandas apenas uma pequena parte é da fazenda. A maior parte ocorre pós porteira em serviços.

Isso gera uma contradição ou paradoxo: se o custo logístico for reduzido, com ganhos de produtividade, a soma dos valores adicionados do setor deverá cair, reduzindo o impacto relativo do agronegócio dentro do PIB. 

Esse quadro é relevante para avaliar a força do "motor" do agronegócio para promover um crescimento sustentável da macroeconomia brasileira.

Com uma participação atual, mais próxima de 20%, um crescimento de cerca de 10% no agronegócio representaria apenas 2% do pib.

O motor do agronegócio teria maior capacidade de impulso, na medida em que agregasse mais trabalhadores, os quais com a sua renda impulsionasse outros setores, não diretamente vinculados ao agronegócio. Por exemplo, uma compra maior de carros de passeio, de eletrodomésticos ou de imóveis. 

Como a agropecuária tem baixa geração quantitativa de empregos essa geração de  empregos precisa ocorrer nos outros segmentos da cadeia produtiva, principalmente na indústria e na logística.

Mas tanto em um como em outro é preciso melhorar a produtividade, para gerar mais trabalho, mais emprego é preciso aumentar substancialmente a produção e vendas.

Não bastará aumentar as vendas para o mercado interno, uma vez que a recuperação geral do consumo das famílias, ainda tem sido lenta. O "boom" dos alimentos  decorrente do auxílio emergencial deverá refluir, com a redução dos valores e eventual descontinuidade.

O agronegócio terá que expandir a sua participação no mercado global, com produtos de maior valor adicionado. Sem isso o impulsionamento do agronegócio terá efeito reduzido sobre o crescimento do PIB.


quinta-feira, 8 de outubro de 2020

O Brasil tem futuro?

  Um comentário publicado em site virtual de que o Brasil não tem futuro, se levado "ao pé da letra", significaria que o país acabaria no presente, não tendo amanhã. Se não acabar sempre terá futuro. O que se pode depreender do comentário é que o país não terá o futuro que ele deseja. Ou que o futuro do país será pior do que o presente ou passado.

O futuro que desejamos é sempre um amanhã, melhor que hoje. 

Em termos econômicos o Brasil de hoje seria pior do que ontem, embora não de forma uniforme: o agronegócio no campo hoje está melhor que ontem e as perspectivas são de que amanhã será melhor que hoje. As regiões de produção de grãos estão progredindo rapidamente e as pessoas que vivem em trono de suas atividades estão bem e em condições cada vez melhores. Mas é uma parte menor no conjunto da economia.

A parte maior está nas cidades, algumas ainda com base industrial, em decadência, mas em geral com a economia baseada no comércio e nos serviços, ambos estagnados.

Um futuro da nação, pior que o presente é inexorável? é uma maldição?

Ou pode ser revertido? Do que e de quem depende?

O Governo tem um papel preponderante, mas não único. O que o Governo está fazendo para evitar que o futuro econômico do país seja pior do que o atual?

O Governo, sob comando de Paulo Guedes, na economia só consegue ver um caminho e persiste neste. Estabelecer a hegemonia da economia liberal, reduzindo a participação e a interferência do Estado na economia. Acha que tem que caminhar pelas reformas estruturais e insiste, apesar as reações contrárias, inclusive dentro do próprio governo. 

Guedes tem absoluta convicção de que o futuro econômico do Brasil será melhor que o presente, com a transformação do país, numa economia liberal. Os que não vêm futuro no pais são os céticos ou os oponentes. 

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Vida x economia

Na frente de combate ao coronavirus só existe o batalhão da saúde. O da economia não enfrenta diretamente o coronavirus. Esse está na retaguarda com os batalhões de intendência, suprindo a linha de frente com recursos financeiros, com equipamentos e insumo.  Não existe uma política econômica contra o coronavirus. Só as políticas sanitárias. Essas políticas causam danos colaterais, maiores ou menores na economia. 
Não havendo ainda vacina preventiva para imunização, a única solução encontrada mundialmente é o distanciamento ou isolamento social, caracterizado popularmente como "quarentena" que, compreende, basicamente:

  • proibição do funcionamento de eventos que promovam aglomerações de pessoas;
  • proibição ou limitação de atividades comerciais e de prestação de serviços a pessoas;
  • orientação de práticas básicas de higiene, como lavar as mãos frequentemente;
  • recomendação para que as pessoas fiquem em casa e que quando saiam usem máscaras de proteção.
O nível de recomendação caracteriza a política de distanciamento. Quando a contaminação agrava se passa para a proibição de circulação, caracterizando o isolamento. Quando total é denominado "lockdown".

A recomendação do "fique em casa" determina a redução do consumo, sendo esse o principal dano colateral na economia. 

Várias atividades produtivas não estão proibidas ou são toleradas, mas não estão sendo realizadas, pelo receio dos trabalhadores em serem contaminados e os empregadores em ter que arcar com os custos da contaminação: muito acham mais prudente deixar os seus empregados em casa: custa menos, ainda que não estejam produzindo. E depois, porque produzir mais se não tem compradores?

O papel do batalhão da economia é mitigar os danos: preservar a renda dos trabalhadores e outros que ficaram sem renda ou tiveram grande redução da sua receita. 

Quanto mais demorada for a guerra sanitária contra o coronavirus, mais difícil será mitigar os danos. Os recursos para tal podem acabar e muitos poderão morrer de inanição por falta de renda para ter acesso aos alimentos.

Contido o inimigo, o batalhão da economia deverá entrar com todos as suas forças para o restabelecimento do funcionamento da economia. 

O coronavirus não será vencido integralmente com a sua extinção. Ele permanecerá atacando em frentes específicas, causando danos e mortes, mas que a sociedade considerará tolerável para restabelecer o funcionamento da economia.






quarta-feira, 4 de março de 2020

O valor de Celso Pinto

Ontem, Celso Pinto, nos deixou definitivamente. Há muitos anos estava "fora de combate", por conta de um AVC, após dois enfartes, em curto tempo.
Foi, sem dúvida, o melhor jornalista econômico, de quem tenho orgulho de ser colega, apesar de não ter a mesma competência e brilho: ele escrevia sobre economia sem ser economista. 
Esse foi o seu maior valor: como jornalista traduziu para os leitores - em geral - o que ocorria na economia mundial e no Brasil. Fez escola, mas nenhum com a sua competência.
Já o conhecia, como leitor, da Gazeta Mercantil, acompanhei - através de amigos - da sua empreitada em substituir aquele que havia sido o melhor jornal econômico brasileiro, antes do Valor.
Circunstâncias pessoais me levaram a conhecer pessoalmente o casal Celso e Célia: como pais de amigos dos filhos, frequentando as mesmas reuniões de pais do Vera Cruz.
Lula era o melhor colega e amigo do Ricardo, o meu caçula. Moravamos perto, Lula era frequente em casa, foi conosco a Ubatuba, em muitas férias, conde ficou conhecido como Azul. Porque um dia foi com o cabelo todo pintado de azul.
Mantiveram a mesma amizade depois da escola. Foram ambos estudar, morar e trabalhar em Campinas. Interessados em informática, começaram um projeto inacabado de criar um aplicativo de jogos. Ambos se etornaram internacionais, mas Ricardo de forma mais definitiva. Há vários anos tornou se CTO de uma startup, na Austrália. 
Acompanhei os enfartes do Celso, mas ele logo se á recuperou o voltou à atividade. Mas um fulminante AVC, na quadra de tênis (ou teria sido na academia de ginástic
a) o tirou do combate. O jornalismo econômico ficou mais pobre, mas sempre com a esperança do seu retorno. Agora foi definitivo: perda inestimável.
Como diretor do Valor deu cobertura às minhas eventuais colaborações, publicando-as prontamente. Tive essa honra.
Uma imensa perda profissional e pessoal, 
Quem mais perde é o Brasil. Que no meio de tanta mediocridade, perde definitivamente as mais lúcidas falas e letras sobre a economia. 

terça-feira, 3 de março de 2020

Decolagem e pouso do voo de galinha

Os economistas são dado a profecias, levando milhares de pessoas a acreditaram nelas, para logo em seguida, formular novas, revogando a anterior. Operam em manada, com todo mundo seguindo a mesma direção, para de repente todos eles mudarem de direção.
Até a semana passada eram unânimes as projeções para 2020 em torno de 2%, com os otimistas uma taxa um pouco acima. Os pessimistas ficavam pouco abaixo dos 2%. Agora todos acham que não chega aos 2%. A culpa para os erros passou a ser o coronavirus.
Aqui colocamos que o mês de dezembro de 2019 não repetiria a perfomance dos meses anteriores e não garantindo a sustentabilidade do crescimento.
Para 2020 a economia brasileira seguirá os seus voos de galinha, subindo um pouco, descendo outro, sem sair da faixa de zero a 2% de crescimento anual do seu PIB. 
As reformas econômicas são mudanças na forma de dirigir uma máquina obsoleta, sem força, sem tração. A importância é ideologica ou de expectativas. Sem fazer uma retífica no motor, ou na turbina.
Paulo Guedes, no comando da economia, quer implantar obsessivamente uma economia liberal, com o mínimo de participação do Estado, seja estrutural como conjunturalmente. Mas o seu principal "sabotador" é o Presidente Bolsonaro que  exige resultados mais imediatos, impondo intervenções conjunturais, como a liberação do FGTS, com efeito temporário insuficiente e que já se esvaiu. Por outro lado, patrocina movimentos altistas, como as das corporações policiais, uma das suas principais bases eleitorais, comprometendo o equilíbrio fiscal dos Estados, que terão que ser socorridos pelo Tesouro Federal, para desespero de Paulo Guedes.
Com o motor atual, seja gerido dentro do intervencionismo do Estado, como dentro de uma economia liberal a economia brasileira não sairá do galinheiro. 
A alternativa é uma mudança estrutural da economia, saindo da dependência - quase total - do mercado interno, para se integrar mais amplamente nas cadeias produtivas mundiais. 
Essa alternativa foi abalada com a "guerra comercial" entre os EUA e a China. Quando se chegou a uma trégua o coronavirus, comprometeu inteiramente as perspectivas. 
A economia brasileira ficou sem perspectiva de trocar as turbinas para poder alçar voos mais altos. A perspectiva de um crescimento sustentado está adiada para 2021, ou mais. A nova perspectiva otimista é não ser alcançado pela recessão. 

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

O mercado brasileiro de consumo

Apesar de uma enorme população, a massa consumidora do mercado brasileiro sempre foi relativamente pequena, abrangendo uma parcela menor da população total.
Até o início dos anos 90 era formada por uma pequena elite de fazendeiros e comerciantes, movimentando um mercado de produtos importados, em contrapartida às exportações de commodities florestais, minerais ou agrícolas. 
Esse modelo, com reflexo no poder, foi questionado por uma geração de jovens militares e civis, de classe média, que assumiram o poder, em 1930 e iniciaram a promoção da industrialização e da incorporação da classe média no mercado de consumo. 
Formou-se um circuito virtuoso, com uma indústria produtora de bens anteriormente importados, contratando trabalhadores no Brasil que transformaram os seus salários, preponderantemente em consumo e investimento em bens duráveis e imóveis.
A par da ascensão social de um segmento da população remanesceu uma grande parte fora do mercado, seja sobrevivendo com uma produção de subsistência no meio rural ou em favelas ou comunidades urbanas, com o trabalho precário. 
O circuito de produção --- consumo interno se enfraqueceu por um crescimento menor da população de renda média e alta, paralelamente à maior substituição do trabalho humano pelas máquinas e maior importação dos bens de consumo. 
A produção interna, com uso do trabalho nacional, com proteção governamental tendeu a perder produtividade e ficar mais cara, reduzindo o consumo dos produtos, em termos quantitativos. Além disso obsoletos tecnologicamente.
O que motivou a pressão desses consumidores de média e alta renda pela abertura do mercado, flexibilizando as restrições para a importação. 
O consumidor passou a dar preferência aos produtos importados elevando, a curto prazo, a sua capacidade de consumo, mas gerando menos empregos, o que se refletiu mais adiante na redução geral do volume de consumo. 

Essa perda de postos de trabalho e, consequentemente, de potencial de consumo, poderia ou deveria ter sido compensado com aumentos de produção industrial e de postos de trabalho, voltados para sua exportação. 
Porém as exportações se concentraram no minério de ferro e mais recentemente numa agropecuária moderna de alta produtividade. Ambos geram grandes volumes de divisas, mais que suficientes para a importação dos bens de consumo requeridos pela média e alta renda, porém com baixa geração de empregos. 
A indústria brasileira se conformou em ser um produtor secundário e de penúltima geração enfraquecendo o seu papel de correia transportadora da força gerada pelo consumo doméstico.
O resultado foi uma redução gradual, mas continuada da participação da indústria de transformação, no conjunto do PIB e da geração de empregos pelo setor. 
A tendência de reversão estrutural do mercado de trabalho começa por volta de 2011, mas a sua dinâmica é sustentada por ampla intervenção do Estado, no crédito e alocação direta de gastos públicos.
A justificativa foi a necessidade de investimentos para o Brasil sediar a Copa do Mundo da FIFA em 2014.
Nenhum estádio existente foi aproveitado, 12 novas arenas, foram construídas, para atender ao "padrão FIFA", algumas para receber apenas 4 jogos e ficarem posteriormente ociosas. Mas durante a construção geraram postos de trabalhos temporários e farta distribuição de "propinas".
Além dos estádios, o Governo Federal proporcionou generosos financiamentos aos Estados e Municípios, para melhorarem a sua infraestrutura, além da facilitar as licitações através de um Regime Diferenciado de Contratações. 
A movimentação das obras, assim como dos serviços preparatórios para a Copa, contribuíram decisivamente para a manutenção dos níveis de emprego.
Com o encerramentos ou suspensão das obras, houve uma redução dos níveis de emprego, mas tendo em vista as eleições de 2014, o Governo manteve ou desenvolveu mecanismos para sustentar os níveis de consumo e de emprego, até o final do mês de outubro. Vários subsídios foram concedidos, sendo os principais dos combustíveis e da energia elétrica. 

A irrigação do mercado com gastos públicos, comprometeu o superávit primário, transformado em 2014 em déficit primário e ainda comprometendo os orçamentos futuros, com o parcelamento dos reajustes dos servidores públicos.
O enfraquecimento da economia verificada em 2012, quando o PIB cresceu apenas 1,92% foi atribuida à uma suposta crise internacional, com a estabilização dos preços das commodities, quando era um sintoma do enfraquecimento estrutural do consumo interno. Em 2013 as medidas de sustentação elevaram a evolução do PIB para 3%, mas não se sustentaram em 2014. 
As eleições de  outubro de 2014 já ocorreram num ambiente recessivo, mas ainda não demonstrado estatisticamente, o que contribuiu para a reeleição de Dilma Rousseff. Mas as demonstrações subsequentes monstraram que a recessão tinha se instalado no segundo trimestre de 2014, quando o PIB da construção caiu 2,9% em relação ao trimestre anterior e o PIB, como um todo 0,4%.  O consumo das famílias é mantido positivo em 1,5%.
O ano de 2014 terminou fortemente negativo, com o PIB da construção caindo 8,7% em relação ao trimestre anterior. Mas em função do crescimento no inicio do ano, fechou com apenas 1,2% negativo. Da mesma forma o PIB, apesar de mais uma queda no último trimestre em relação ao anterior, fechou com uma evolução positiva de 0,5%. O consumo das famílias, já sem o suporte governamental, caiu no quarto trimestre em 0,9% em relação ao trimestre anterior, mas terminou o ano com 2,3% positivo.
Com a contenção fiscal, a retração do consumo se agravou e afetou o PIB, como um todo, em 2015 e 2016. O consumo caiu sucessivamente, segundo um circuito negativo, onde a queda do consumo afetou os empregos que, por sua vez, reduziu o consumo das famílias.

Como na economia brasileira a sua evolução é puxada pelo consumo, a recessão é desencadeada pelo enfraquecimento do consumo das familias, cabendo avaliar as causas desse processo de enfraquecimento. 

Podemos considerar algumas hipóteses:

  • perda de confiança em relação ao futuro, com a contenção de consumo, pelas pessoas com renda (seja do trabalho, como de investimentos);
  • esgotamento da capacidade de endividamento, agravada pela taxa de juros;
  • elevação da inflação corroendo a capacidade real de compra;


Na questão da confiança, o que leva à perda de confiança e como o processo evolui, crescendo ou se esvaindo?





















domingo, 22 de dezembro de 2019

Oportunidade de diversificação

O agronegócio brasileiro teve uma grande evolução, por conta das compras pelos chineses, através das grandes tradings internacionais, de grãos, tanto a soja, como o milho.
O agronegócio brasileiro não "vendeu" os seus produtos para a China, mas teve os mesmos "comprados" e atendeu a demanda, entregando os produtos. Ainda é um entregador e não um vendedor.
As perspectivas futuras são de que mesmo com a recuperação dos rebanhos de porcos, a China não aumente substancialmente as suas compras no Brasil, podendo até diminuir, dados os acordos da China com os EUA, para comprar mais produtos agropecuários desse país, como passo para superar a guerra comercial. 
O Brasil corre o risco de ter estoques de grãos. Diante dessa perspectiva terá que deixar a posição de entregador, para se tornar - efetivamente - vendedor.
As maiores oportunidades estão no Norte da África e no sudoeste asiático, principalmente na Índia, onde estão ocorrendo os maiores crescimentos demográficos, com reflexo na demanda de grãos e outros produtos agrícolas. 
A comercialização internacional de grãos não é feita diretamente entre os produtores e os consumidores, mas com ampla intermediação de um pequeno grupo de tradings internacionais. 
São duas de origem indiscutivelmente norte-americanas, uma anglo americana, com passagem pela Argentina e até pelo Brasil e uma francesa. As chinesas começam a entrar no mercado, mas ainda não se firmaram em grãos, embora tenham importante participação em outros produtos do agronegócio, como a Olam, em cacau. Entre as nacionais, no setor de grãos, apenas a Maggi, que tem o respaldo de ser a maior produtora de grãos, tem relevância. Algumas ficaram no meio do caminho.
Todas elas são predominante compradoras, atendendo aos comparadores e buscando no Brasil os fornecedores. 
Com o compromisso da China em comprar mais produtos agrícolas dos EUA, como a sua contrapartida na trégua da guerra comercial, as tradings tenderão a dar preferência aos fornecedores norte-americanos, em detrimento aos fornecedores brasileiros e argentinos.
Os produtores brasileiros, com a menor procura dos chineses pelos seus produtos, terão que buscar novos mercados e a questão crucial é se farão através das mesma tradings  através das quais entregam os seus produtos, ou se irão criar ou desenvolver canais de comercialização diferenciados para esses novos mercados?
A continuidade de crescimento do agronegócio brasileiro dependerá dessas decisões.





sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Black friday x natal


O resultado do CAGED de novembro é auspicioso, porque tradicionalmente em novembro começa uma trajetória de queda no estoque de empregos formais, alcançando o auge negativo em dezembro, por um movimento simples: as empresas demitem, pela queda da demanda e só voltam a contratar no início do ano.
Como a apuração é mensal, mesmo que haja maior contratação no comércio até a terceira semana, por conta das compras de Natal, assim que esse termina, há um grande volume de dispensas, refletindo-se no resultado negativo do mês. Há outros fatores, como a saída de imigrantes que voltam no período para o seu domicílio de origem. O setor agrícola está, na sua maior parte, na entressafra.
O resultado de novembro foi puxado pelo comércio varejista, com a antecipação das compras de final de ano, aproveitando as promoções do “black Friday”. Como já comentamos aqui, há uma mudança no comportamento do consumidor popular, guardando o dinheiro para aproveitar os descontos nas compras à vista no black Friday, o sentido inicial do modelo. Levou algum tempo no Brasil, mas afinal “emplacou”.
Antecipou as vendas no comércio, com uma grande diferença no valor médio (ticket médio). O do black Friday teria sido superior a R$ 1.000,00. O do Natal deverá ser muito menos, apesar da liberação do FGTS e da segunda parcela do 13º salário. Continuará sendo o Natal das Lembrancinhas.
O bom resultado do CAGED é sazonal e preciso entendê-lo como tal, para não gerar frustrações com os resultados dos meses subsequentes, principalmente de dezembro.
Dezembro deverá ter uma queda, mas igualmente sazonal. Em janeiro o agro deverá contribuir para um novo aumento, em função da colheita da safra da soja e outros.
Ajustados os efeitos sazonais, a tendência é de melhoria no mercado de trabalho formal em 2020, devendo ultrapassar a marca de um milhão de novos empregos, nas apurações do CAGED. Nada de excepcional, mas positivo.
A análise setorial mostra que o comércio deu um bom salto, criando 106.834 novos postos de trabalho, associado aos serviços, com 44.287 alcançando mais de 150.000 novos postos. Mas a indústria de transformação continuou perdendo, com uma redução de 25 mil postos.
A construção civil ainda perdeu postos, em novembro, mas menos do que do mesmo mês em 2018. Deverá ter uma queda maior em dezembro em função da chamada "férias do baiano". 
O ritmo só será fortalecido se a economia brasileira se voltar mais para o mercado externo com produtos de maior valor agregado, não ficando dependente dos surtos do final do ano.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

O Brasil vai bem, mas...


Paulo Guedes tem ido aos EUA para tentar trazer investimentos para o Brasil, mas o que ele consegue, na prática, é afastar e repelir os investidores. Mostra a eles um Brasil inseguro e que se houver mobilização, como no Chile, a resposta será o restabelecimento da ditadura. Não foi o que ele disse, mas como ele foi entendido.
Em política, como em economia, a versão inicial vale mais que os fatos, para a reação das pessoas.
Diz ele que o aumento do dólar, a fuga de capitais nada tem a ver com a soltura de Lula, mas passa a impressão contrária.
Paulo Guedes é um péssimo ator e o que ele diz fora do script econômico é interpretado com o sentido oposto.
A macroeconomia brasileira vai bem nos seus principais sinais vitais, mas com dois sintomas associados preocupantes: uma hemorragia, ainda que controlada, com perda de capitais estrangeiros e causando uma febre, medida pela cotação do dólar.
O problema maior está numa doença incubada, cuja manifestação pode eclodir por alguma incidente: a concentração de renda, com a manutenção de enormes contingentes de pobres e de alguns miseráveis.
Enquanto toda economia vai mal, essa população fica conformada com as más condições de vida, mas quando a economia melhorar e eles se sentem excluídos da festa, podem se revoltar.
Paulo Guedes, com a sua estrita visão “pinochetista (liberalismo econômico com autoritarismo politico)” não quer perceber a bomba que está armando.  
Quanto mais ele disser que o Brasil amanhã não será o Chile de hoje, mais ele infla essa possibilidade.

sábado, 23 de novembro de 2019

Néo bolsonarismo

O bolsonarismo que emergiu como um tsunami em 2018, trazendo Jair Bolsonaro à Presidência da República está sendo parcialmente repaginado, na criação do seu partido: o Aliança para o Brasil, que já está sendo cunhado pela mídia como APB e não como ALIANÇA. Alguns lerão a sigla como "Acordão pró Bolsonaros".
A principal diferença está na perda de importância, quase sumiço do combate à corrupção.
Uma grande massa de eleitores que formou o conjunto de 57 milhões de votos para o Jair foi dos eleitores de menor renda, decepcionados com a "roubalheira" do PT. 
Bolsonaro se apresentou ao povo como um político que apesar de tradicional não havia se envolvido com a corrupção e prometeu acabar com ela. Mas não tem conseguido manter a imagem de "inteiramente limpo". 
Os "lava-jatistas" que tem saído às Avenidas, contra Ministros do STF e em defesa de Sérgio Moro, não tem mantido o apoio irrestrito a Jair Bolsonaro.
Sérgio Moro não cabe no APB e isso tem um impacto eleitoral significativo.
Em 2018, Jair Bolsonaro associou-se aos grupos antiambientalistas, principalmente desmatadores, madeireiros ilegais e grileiros, além dos empresários perseguidos pela indústria da multa ambiental. Os movimentos ambientalistas não deram atenção, não acreditando na possibilidade de Bolsonaro ser eleito. Muito menos que, eleito, iria por em prática as suas proposições antiambientalistas. Cumpriu as promessas e os efeitos reais foram desastrosos para a imagem do Brasil no exterior, afetando as questões comerciais. Se em 2018, não teve a oposição ambientalista passou a ter, com reflexo nas próximas eleições. 
A pauta do APB não trata diretamente da questão que está mascarada nas posições soberanistas e antiglobalismo, dois apelidos para a mesma coisa: ser contra as supostas tentativas de tirar a soberania do Brasil sobre a Amazônia, com inimigos objetivos e imaginários: Macron, o Presidente francês, as ONGs internacionais que seriam disfarce de grandes empresas internacionais interessadas em explorar as riquezas mineiras da região. 
Em função das suas posições corporativistas vem interditando a discussão das reformas tributárias e administrativas. Essas só irão adiante se o Congresso resolver confrontar diretamente o Presidente e a sua caneta. Os atrasos poderão afetar a continuidade do apoio empresarial, animado com a pequena melhoria da macroeconomia.
Esse espera pela continuidade das reformas que, se dependerem de Bolsonaro e do APB não vão prosperar. Como irão se posicionar em 2022?
O liberalismo na economia é princípio do APB, mas as reformas estruturais não estão nas prioridades.
Outra grande diferença entre o bolsonarismo de 2018 e o atual está no apoio dos grupos militares. 
O apoio militar foi interpretado pela população como o restabelecimento da ordem e do patriotismo. "Brasil, acima de tudo", seria garantido pelo Exército, onde estão os seus velhos companheiros. Ao longo do seu primeiro ano de mandato foi se libertando da tutela militar, formando um governo com a "sua turma" de oficiais militares, assim como de egressos da polícia civil e militar. Em 2022 poderá não ter o respaldo do segmento militar. 
Para compensar as perdas, está reforçando o apoio da comunidade evangélica, que vem ampliando os espaços dentro da sociedade brasileira.
Essa comunidade asseguraria a Jair Bolsonaro e ao APB a base eleitoral da população de baixa renda, com fundamento nos valores tradicionais da família, contra o progressismo, considerado desagregador e instrumento do comunismo.
As denominações evangélicas promovem o acolhimento dos desamparados e a sustentação da esperança por uma vida melhor, pela crença.
Em 2022, a macroeconomia deverá estar melhor que 2018, com Jair Bolsonaro se creditando dessas melhoria e aceitação por parte de empresários e de rentistas. A sua principal mensagem deverá ser o de evitar o retorno do PT, que promoveria o retrocesso da macroeconomia e a tributação dos mais ricos. Mas ele poderá ter que promover essa tributação ainda dentro do seu Governo, enfraquecendo o argumento.
Já em relação à baixa renda, a desigualdade de renda deverá continuar, mas essa vem se reorganizando, desenvolvendo o chamado trabalho informal, mas que garante a sobrevivência. E as denominações evangélicas e seus pastores, mantém as esperanças e uma visão de mundo de que a prosperidade virá pelo esforço pessoal. Deus ajudará a quem se esforçar, sem deixar de pagar a comissão a ele, entregue às igrejas na forma de dízimo. Dificilmente essas massas se revoltarão contra as suas igrejas. E essas segurarão os movimentos contra o Estado.
O problema e risco maior está na classe média, principalmente da emergente, que teve a sua ascensão cortada pela crise econômica.
Uma parte dessa classe média ainda aspira por empregos formais, com carteira assinada e expectativa de receber os benefícios, como férias remuneradas, 13º salário, aviso prévio, aposentadoria, plano de saúde e outros, além dos salários.
Com a dificuldade de conseguir empregos, em 2022, ou antes, estarão desalentados e conformados, ou revoltados, esperando uma oportunidade para manifestar a sua revolta. 
O mercado de trabalho, nos próximos anos estará desdobrado entre:

  • o mercado de trabalho dos talentosos, com carência de oferta e melhoria sucessiva de rendimentos;
  • o mercado de carteira assinada, com participação relativa em queda;
  • o mercado de trabalho formal por conta própria, substituindo o de carteira assinada;
  • o mercado de trabalho informal por conta própria, sem proteção social. 
O resultado eleitoral de 2022 dependerá de como cada um desses segmentos irá votar.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

E depois?

O Brasil está doente. O principal órgão é a economia, mas o cultural e o social também. O que o coloca em risco mais iminente é a economia e o médico-chefe Paulo Guedes está cuidando. O tratamento inicial, com a reforma da previdência está quase completo, mas ele já percebeu que não é suficiente. Já detetou que o problema subsequente maior não é a reforma tributária, mas a tal reforma administrativa. O foco não é a organização, tampouco os processos, como sempre foi tratada, mas os gastos com pessoal, com os servidores públicos.
Terá uma batalha árdua, tendo que enfrentar o fogo amigo, de dentro do Planalto, onde estão forças corporativistas de grande poder.
Completada a reforma da previdência, embora o Brasil, não esteja inteiramente curado, estará o suficientemente restabelecido para definir os seus rumos. 
Poderá persistir numa economia fechada, voltada para dentro, tentando reanimar o consumo e protegendo a sua produção, seja agrícola como industrial ou dos serviços. O Estado Brasileiro não conta mais com recursos para subsidiar atividades internas, tampouco instrumentos aceitos internacionalmente para proteção da produção nacional, contra importações. As últimas tentativas, feitas em governos anteriores estão sendo contestadas pelos outros paises na OMC. 
Tem pouco para oferecer aos investidores estrangeiros como atrativo para investir num Brasil de economia fechada. Restabelecimento da confiança não será suficiente.
Trazendo a questão para o setor de estacionamentos, haverá interesse de investidores ou empreendedores estrangeiros em investir em empresas de operação de estacionamentos? 
Como negócio isolado ou independente, provavelmente não. Operadoras estrangeiras teriam grandes diferenciais tecnológicos ou modelos de gestão, através dos quais chegariam, conquistando mercados. Uma das alternativas são as garagens subterrâneas, cujo mercado é restrito e depende de licitações públicas, com prevalência do critério de seleção pelo menor preço.
As maiores oportunidades estariam nos edifícios garagens, altamente automatizadas. A demanda ainda é restrita, mas como aconteceu com outros produtos de maior densidade tecnológica, uma vez que pega, se alastra rapidamente, como ocorreu com os aplicativos de chamada de carros. 
O problema maior está no debate entre urbanistas e transporteiros em aceitar ou não a opção. 
Em São Paulo, a gestão petista aceitou a opção, mas desde que seja em área sem demanda. Fez para não se efetivar.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Uma cultura de fofocas


A sociedade brasileira está propensa a dar maior atenção às fofocas, às "briguinhas" da política e fatos eventuais inusitados do que a questões estruturais de impacto nacional mais amplo. 
A viagem de Bolsonaro ao Japão, acabando por aceitar as imposições dos líderes europeus, para manter o respeito às questões ambientais, aos indígenas e ao trabalho decente, completando as negociações para o Acordo Comercial UE-Mercosul, tem amplas implicações futuras no seu Governo e para o Brasil.
Mas foi e ainda é ofuscado pelo episódio da prisão de um militar com 39kg de cocaina dentro do avião presidencial reserva. É uma questão policial, sem maior relevância nacional. Mas é destaque na mídia brasileira.
Mais que o noticiário sobre o acordo.  Este não é tema para "conversa de botequim".

O amanhã do Brasil está no seu agronegócio voltado para o mundo. Não mais numa indústria voltada para o mercado interno, protegido pelo Estado.

O grande sonho de Roberto Simonsen, ainda nos anos quarenta do século passado, em tornar o Brasil do Futuro, numa potência industrial mundial, acalentado por muitos brasileiros, incluindo este que vos fala, está sucumbindo por incompetência.

Ao longo desses 70 anos tivermos alguns acertos e muitos erros, nos momentos presentes, que comprometeram o futuro que se tornou o hoje. 

Mas, mais uma oportunidade histórica, se coloca diante do Brasil. Um novo rumo. Podemos acertar, como errar, mais uma vez.

A oportunidade pode ser perdida se o  fechamento do acordo EU-Mercosul, ficar num triunfalismo midiático e não foi efetivamente assumido pelo Governo e pela sociedade brasileira.

O "país do futuro", será novamente adiado se continuar ficando preso a ontem. O amanhã será a repetição do ontem. 

segunda-feira, 8 de abril de 2019

O agoverno Bolsonaro

Ao  chegarmos aos quase 100 dias, a grande constatação é que estamos diante de um agoverno, ou um não governo. Não se trata de um desgoverno, que não sabe para onde vai, mas uma falta de governo. E o país, sem governo, segue a inércia. 
Na realidade, o que ainda acontece de ação governamental é a continuidade do Governo Temer, em que pese a merecida imagem negativa do ex-presidente. Temer foi mal, mas o seu governo nem tanto. Só não teve tempo para implantar uma série de medidas que agora foram efetivadas.
Um dos poucos pontos positivos dos 100 dias será a privatização ou  concessão dos aeroportos, de terminais portuários, dos dutos da Petrobras, da Ferrovia Norte-Sul, gerando um enorme caixa para o Tesouro Nacional. Nada disso começou com o Governo Bolsonaro, mas esse tem o mérito de dar continuidade e efetivar. Ao contrário e outras medidas, de menor importância, suspensas. 
O problema é que os projetos incluídos no "pipeline" estão praticamente esgotados. 

quinta-feira, 22 de março de 2018

Cervejas artesanais

A melhoria de renda nos paises desenvolvidos e emergentes, vem gerando a oportunidade para a produção de cervejas artesanais.

Essas cervejas por serem vendidas a preços mais elevados, em função dos ingredientes e diferenciação de paladar, podem arcar com custos logísticos maiores, sendo assim passíveis de exportações a paises mais distantes.

As "cervejas artesanais" já representariam cerca de 1% do mercado nacional de cerveja, segundo a Euromonitor.

As microcervejarias seguem a trajetória das "start-ups" de tecnologia.

Quando um pequeno empreendedor passa a produzir uma cerveja artesanal que "cai no gosto do mercado", se expandindo, saindo do seu nicho local e chegando às gôndolas dos supermercados nos grandes centros urbanos, são comprados por uma das grandes cervejarias.

Isso já ocorreu com a Colorado, de Ribeirão Preto, São Paulo, adquirida pela Ambev. A Schincariol - posteriormente venida para a Kirin e subsequentemente à Heineken -  assumiu o controle da Baden-Baden de Campos do Jordão, São Paulo e da Eisenbahn, de Blumenau, Santa Catarina. 

quinta-feira, 15 de março de 2018

Brasil alimentador do muindo - cervejas

O Brasil como mercado tem grande importância mundial no setor de bebidas, sendo o terceiro maior mercado produtor e consumidor de cervejas. 

O mercado brasileiro de cervejas foi estruturado - ao longo do tempo - por duas características principais: a concentração numa única categoria de cervejas: a pilsen e a forte oligopolização, quase chegando ao monopolio.

O domínio de mercado, baseado em logística e marketing, constituiu-se durante muitos anos em barreira de entrada de outros grupos, inclusive as grandes cervejarias mundiais. Algumas tentaram mas acabaram sendo absorvidas por uma das duas grandes.


Um novo mercado foi aberto com a produção artesanal e aceitação por um mercado de renda média alta e alta, de cervejas premium. Com preços mais elevados que as cervejas comuns. Na maior parte dos casos são de distribuição local ou regional, sem grandes redes de distribuição.

O surgimento e evolução desse mercado de cervejas "premium" de margem à importação de um grande volume de cervejas importadas, concorrendo com as nacionais. 

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

A quarta revolução industrial é uma falácia (2)

A 4ª Revolução Industrial é uma tentativa da indústria manter a sua importância, mas as principais mudanças no mercado não são as tecnologias que ela alardeia, mas o domínio crescente dos serviços. E a transferência do poder do mercado para o setor terciário e para o consumidor.

Um dos casos mais emblemáticos é o setor de vestuário e calçados, onde a indústria não "empurra" o mercado, mas é "puxado" pelo setor comercial e de marca. O comando da cadeia produtiva está passando para o varejo.

A indústria tem que ir a reboque da líder da cadeia produtiva (ou de valor). O maior valor agregado e pago pelo consumidor não está no material ou na produção industrial, mas na marca. Para a valorização desta, a investe pesadamente no marketing. Que não se limita à publicidade, mas envolve - principalmente - o patrocínio de esportistas talentosos, cultuados pelo mercado.

A 4ª Revolução Industrial é uma tentativa dos países - ditos centrais - de recuperar a produção industrial de vestuário e calçados, para os seus territórios. Em alguns casos pode conseguir, mas não há recuperação do emprego emprego.

A 4ª Revolução Industrial não é uma revolução mundial, embora vá afetar diversas partes do mundo. É uma revolução dos paises desenvolvidos que se desindustrializaram e buscam pela tecnologia se reindustrializar. 

Porém o "resto do mundo" resiste, preferindo manter o trabalho humano, mesmo mal remunerado. 

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Os eleitores evangélicos e a bancada evangélica (2)

Os discursos religiosos são os mesmos, mas ao contrário da Igreja Católica, os evangélicos se agregam em múltiplas igrejas. Os adeptos não são fieis a uma igreja específica. Podem migrar facilmente de uma a outra, em função do interesse pelo pastor ou pelos serviços e apoio oferecidos.

Há várias outras conotações, mas o mais importante, para esta análise é que os evangélicos estão mais ligados à importância de ter representantes políticos no Governo, assim entendido legislativo e executivo.

Constituindo uma parcela  significativa do eleitorado, atrai o interesse dos candidatos, seja de forma oportunista, como permanente. 

As pesquisas da Fundação Perseu Abramo (a entidades de estudos do PT) mostram duas facetas importantes da visão dos evangélicos em relação ao Estado. Eles querem um Estado amplo que os atendam plenamente com quantidade e qualidade nos serviços de saúde e educação. 

O que mais querem do Estado não é "esmola", mas oportunidade para crescer e poder viver melhor às custas do seu esforço pessoal. 

Para eles, principalmente os mais jovens, a aspiração é ter um negócio próprio, um trabalho por conta própria, ser um empresário (a) bem sucedido (a): ainda que de pequeno porte.


terça-feira, 6 de junho de 2017

Brasil: uma categoria estatística

A consolidação estatística dos múltiplos dados da realidade, como a da apuração do Produto Interno Bruto (PIB), dá margem a simplificações e análises equivocadas sobre o que acontece realmente na economia brasileira.

Rigorosa e tecnicamente a economia brasileira esteve em recessão a partir do primeiro trimestre de 2015. Não só o índice global apresentou decréscimos sucessivos, como todos os setores integrantes tiveram decréscimos. 

A agropecuária teve altos e baixos. Saiu de uma recessão para uma retomada do crescimento que deverá seguir pelos dois trimestres seguintes em função da super-safra. Deverá fechar o ano com uma variação positiva superior a dois dígitos. E seu crescimento deverá sustentar, pelo menos a estabilidade da variação do PIB. O agronegócio, considerando toda a cadeia produtiva deverá promover a retomada do crescimento, contribuindo para o crescimento industrial, graças à agroindústria e o próprio comércio, pela irrigação de renda para as compras familiares. 

O setor que continua em recessão, é o de intermediação financeira. Acumula resultados negativos de -0,83% em 2015 e -2,76% em 2016. E já aumentou a evolução negativa no primeiro trimestre de 2017, para -3,44%.

Desconsiderando esse setor,  a economia brasileira não só saiu da recessão, como já superou o estágio da estagnação para a alcançar o de crescimento.

O que está freando um crescimento mais forte é o setor financeiro. O que pode ser interpretado como ruim, porque está afetando os resultados globais do PIB. Mas também pode ser interpretado como bom, uma vez que não estaria onerando os setores de produção material com os custos financeiros. 

Lula, meio livre

Lula está jurídica e politicamente livre, mas não como ele e o PT desejam. Ele não está condenado, mas tampouco inocentado. Ele não está jul...