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segunda-feira, 25 de maio de 2020

Psicoterapia de grupo

A reunião ministerial de 22 de abril foi uma psicoterapia de grupo, onde foi proposta coisa do tipo, diga o que você realmente pensa ou acha, sem restrições, inclusive de palavreado. Seja verdadeiro.
Jair Bolsonaro abriu com o seu palavreado usual, sem censura e disse entre outras coisas, entremeado de palavrões, que quer armar o povo, para a tê-lo consigo. Qualquer semelhança com Hugo Chávez, aqui já relatada, desde 2018, deve ser mera coincidência. Para os mais antigos, do tempo da II Guerra Mundial, com Mussolini.
A turma olavista tem obsessão com a prisão de autoridades e se manifestaram abertamente. Damares quer prender Governadores e Prefeitos. Weinstraub, os Ministros do Supremo. As prisões desejadas por Ernesto Araujo foram censuradas, por se referir a outros países. 
Ricardo Salles explicitou que quer aproveitar a oportunidade que todos estão voltados para o coronavirus, para passar a sua boiada. O que está fazendo: desmontando a fiscalização, deixando os grileiros e desmatadores agirem soltos. Só que a passagem da boiada é detetada pelos satélites e tem repercussão comercial internacional. Muitos países não querem comprar os bois do Brasil, reais ou imaginários.
Paulo Guedes deixou bem claro que quer privatizar o Banco do Brasil, ou melhor, a "porra" do Banco do Brasil. Quer exterminar as fracas pequenas e médias empresas, desenvolvendo um modelo de grandes e fortes empresas. 
Foi uma ampla sessão verdade, sem meias palavras: com muitos palavrões. 
Foi um "strip-tease" memorável para os bolsonaristas. Vibraram, se excitaram, entraram em orgasmo total. 
Para os demais foi um "show de horror".

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Brasil 2021 1

A par do movimento sócio-politico-cultural, antiprogressista, a descoberta de um imenso esquema de corrupção, coordenada pela direção superior do PT, gerou uma ampla animosidade, em todos os segmentos da população, contra os governantes petistas. Em 2016, com amplo apoio popular, o Congresso concluiu a aprovação do impeachment de Dilma Rousseff, encerrando o período de 13 anos de governo petista, na área federal. O nordeste se manteve mais fiel ao petismo, contra as elites do "sul maravilha". Estas desenvolveram o estigma e receio do retorno do PT ao Governo, após a transição de Temer.
Este segmento da população entendeu que Jair Bolsonaro era quem tinha melhores condições de manter o combate à corrupção. Mesmo sendo um renitente membro da Câmara dos Deputados, seu nome nunca apareceu nas listas malditas: sejam das empreiteiras, notadamente a do Construtora Odebrecht, como a do Janot. Era visto como honesto e ele usou muito desse elemento no imaginário popular.
Eleito, convidou o Juiz Sérgio Moro, para assumir o Ministério da Justiça e Segurança Pública, para que ele institucionalizasse os instrumentos de combate à corrupção.
Os combatentes da corrupção, incluindo muitos "politicamente corretos" formaram a segunda camada do bolsonarismo.
Os informes sobre as supostas ligações da família Bolsonaro com as milicias, assim como o não empenho de Jair Bolsonaro na aprovação no Legislativo do pacote anti-crime proposto pelo Ministro Sérgio Moro, enfraqueceram o apoio desses anti-corrupção, mas mantendo o apoio ao Governo e ao Presidente, em função da presença de Sérgio Moro, cuja aceitação popular supera a de Bolsonaro.
Há uma crescente frustração dos anticorrupção que não integram a primeira camada com Jair Bolsonaro, mas que mantém o apoio ao Governo. 
No segundo semestre de 2020, Jair Bolsonaro terá que indicar dois nomes para o STF. Embora Sérgio Moro seja o favorito disparado, Jair Bolsonaro poderá não indicar Moro para a primeira vaga, indicando um "terrivelmente evangélico", para atender a primeira camada dos seus apoiadores e para testar a reação popular. Prometerá a Sérgio Moro a segunda vaga, mas poderá cumprir ou não. Sem a indicação para o STF, Moro dificilmente ficará no Governo.
A não indicação de Moro poderá decorrer da insatisfação de Bolsonaro pela recusa do seu Ministro e responsável pela Policia Federal, em interferir nos processos que envolvem as ligações com as  milícias.
Em qualquer das hipóteses, ao iniciar 2021, Jair Bolsonaro estaria popularmente mais fraco, com muitas defecções na sua segunda camada de apoiadores de 2018. 
O desgaste de Bolsonaro nessa camada será sucessivo e constante. Os fatos futuros indicam um agravamento. A única ocorrência positiva será a indicação de Sérgio Moro para o STF, o que será visto pela camada "anti-corrupção", como o merecido reconhecimento da atuação do ex-juiz da "Lava-Jato" e a esperança de uma atuação mais rigorosa da corte, no julgamento dos corruptos. 
Por outro lado, o Governo ficará desfalcado da presença de um paladino anti-corrupção, no Ministério da Justiça. Sem Moro, será inevitável o desdobramento do Ministério da Justiça e Segurança Pública, para Bolsonaro agraciar o seu velho amigo Alberto Fraga, com um Ministério.
A eventual indicação de Sérgio Moro para o STF daria um alento temporário a Jair Bolsonaro, voltando depois à trajetória de desgaste, ao longo de 2021, junto à camada anti-corrupção.
Com o afastamento de Sérgio Moro de um potencial candidato à Presidência da República, em 2022, Bolsonaro deixará a paranoia de ver o Ministro como um adversário, mas perderá a condição de politico honesto e totalmente isento de corrupção. 
Essa segunda camada irá se desfazer, mas não significa que todos abandonarão o bolsonarismo. Bolsonaro perderá o apoio dos anticorrupção não bolsonaristas.
E o Brasil, com Moro fora do Governo?
Voltará a ser um país dominado pela corrupção?
Os políticos corruptos continuarão ou voltarão a ser predominantes? 
Como ficará a corrupção petista?

A mudança principal será o arrefecimento das ações para alterações nas legislações contra o crime organizado, entre essas as do colarinho branco.
Seria então mantido o entendimento atual da prisão somente após a última instância. Não voltaria o critério do após a condenação em segunda instância.
Os corruptos ricos continuarão contratando advogados caros para postergar os julgamentos, mesmo sabendo da menor probabilidade de sucesso no STF, com a nova composição do colegiado,  incluindo a troca do Presidente. Contarão com as prescrições dos crimes ou o envelhecimento do réu.
É um tema que trataremos em outro momento.
Com a saída de Moro, o cenário mais provável é de aumento da sensação de impunidade, o que poderá aumentar as ocorrências de corrupção de altos valores. A corrupção "miuda" não parou, mesmo com a Lava Jato, e tende a permanecer.




(cont)



terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Brasil 2021

Os cenários 2021 tem como personagem principal  Jair Bolsonaro pela sua condição de Presidente da República, reforçada pela sua natureza pessoal e promessas de mudar o Brasil.
O que é para o povo brasileiro mudar o Brasil? Na economia, na política, nos costumes, na vida pessoal, na vida comunitária?
A sua esperança de mudança é função da sua visão de mundo: do Brasil que ele vê, segundo a sua perspectivas pessoais. Essas, por sua vez, partem do ambiente e circunstâncias em que vive, o que limita a sua visão: só até onde a vista alcança.
O Brasil, como  um todo, isto é, pela sua população total não tem unanimidade, sendo formado por diversos segmentos que vão muito além da divisão simplista e tradicional de esquerda e direita.
Ao longo dos anos dos governos petistas, promovendo mudanças na economia, nas ações sociais, nos costumes, um segmento da população, que se autodenomina progressista, defendendo as posições "politicamente corretas" se tornou hegemônico, com ações de patrulhamento para submeter os demais ao silêncio. 
Alguns grupos dos demais segmentos passaram a se valer das redes sociais para as suas manifestações, fugindo às imposições e restrições dos meios tradicionais de comunicação.
Uma condição fundamental criada pelos novos instrumentos (facebook, whatsapp, twitter, instagram e outros) facilitou a comunicação de um público pouco intelectualizado, que não se dispõe a leituras mais longas, ou a falas ou digressões mais demoradas. É tudo na base do "pá-pum", "bateu, levou". Se muito tempo para o racional, predomina o emocional. As crenças se sobrepõe às ciências.
Este segmento foi oprimido pela elite intelectualizada, influenciada pelos acadêmicos, predominantemente de esquerda e pelos progressistas, defensores do "politicamente correto", dentre os quais muitos jornalistas, com grande espaço nas mídias tradicionais. Isto é, os ditos "formadores de opinião". 
A "nova minoria oprimida" insatisfeita e magoada com os avanços das tradicionais minorias (homossexuais, negros, mulheres e outros), quebrando a estrutura "hierarquica" tradicional ou conservadora, encontraram um porta-voz, com assento no Congresso Nacional, há mais de 26 anos, sempre no baixo clero, eleito com votos das corporações militares no Rio de Janeiro, onde sempre expressou as suas manifestações, de forma contundente, mas com mínima repercussão, sem espaço na mídia tradicional.  
Ao se lançar - ousadamente - à eleição presidencial, ainda em 2016, valeu-se das novas mídias, criando uma mitologia em torno do seu nome, que depois foi reforçado por um atentado em plena rua.
Esse segmento "anti politicamente correto", havia buscado nas igrejas evangélicas um abrigo, sendo bem acolhidos, com mensagens de esperança, ao contrário da igreja católica que oferecia o perdão e do PT e demais partidos de esquerda que ofereciam a luta e resistência. 
Esse segmento, então caracterizado como conservador e reacionário porque defende a anulação das mudanças promovidas pelos progressistas, retornando às tradições baseadas no patriotismo, na família e em Deus, foi a base inicial de apoio de Jair Bolsonaro, tornando-se a primeira camada do bolsonarismo.

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Governando para os seus

 Jair Bolsonaro segue governando para os seus e não para todo o povo brasileiro, embora o seu discurso seja de atendimento nacional.
A tentativa de baratear o preço do óleo diesel, pela contenção ou redução do ICMS foi para atender à principal reivindicação de um grupo de caminheiros, liderado pelo Chorão, um dos principais apoiadores. de primeira hora, da sua candidatura à Presidência. Criou mais uma área de atrito, só para dizer aos seus apoiadores "fiz a minha parte". "Só não baixou o preço do diesel porque os Governadores não querem". "Só pensam nos seus interesses não nos interesses nacionais." Se não foram as palavras literais foi o sentido. Foi mais uma jogada ensaiada, porque sabia que Paulo Guedes não permitiria. Mas para os seus apoiadores foi um grande gesto de quem se arvora no monopólio da defesa dos interesses nacionais. 

A aprovação do garimpo em terras indígenas é para atender a outro grupo de apoio: os garimpeiros ilegais da região amazônica. Para não ficar no garimpo, ampliou o escopo, mas o que interessa é o garimpo.
Jair Bolsonaro tem a ousadia de quebrar paradigmas e contraria os "indigenistas" ou os "pró-indios" que querem a preservação deles como comunidades separadas, em nome das tradições.
Com a liberação os índios poderão explorar os minérios do seu território. Se não houver devida fiscalização (que é o que contam os apoiadores de Bolsonaro) os índios servirão de "laranjas" dos "brancos" arrendando - ainda que informalmente as suas terras - ou tercerizando a exploração em troca dos tradicionais "espelhinhos" de Cabral. Do Pedro e não do Sérgio.
Grupos indígenas serão incorporados à sociedade brasileira, não como cidadãos de terceira classe, com alguns ficando ricos, ainda que menos aos quais vão transferir as atividades. 
Será um grande avanço para eles e a saída da pobreza a que são submetidos, em nome da preservação cultural. 
O problema maior não está nessa integração dos índios à sociedade brasileira, mas os efeitos ou danos colaterais. 
De uma parte haverá - inevitavelmente - uma ampliação do desmatamento da floresta. O mais grave, no entanto, poderá ser a contaminação das águas por mercúrio, afetando uma população imensa, seja de índios, como de não índios. 


quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

A grande feira de Davos

O Fórum Econômico Mundial, em Davos, tornou-se a maior feira de exposições de investimentos, onde Governos montam os seus estandes e apresentam os seus discursos e power points, com as oportunidades de investimentos em seus países ou estados para atrair banqueiros, gestores de fundos, empresários capitalizados.
O Brasil nem sempre se dedicou a esse mister, com alguns governos até contra o maior ingresso de capitais estrangeiros, com o lema "O Brasil não está à venda!"
Jair Bolsonaro faz parte dessa turma nacionalista, com grande penetração nas hostes militares. 
No entanto, diante da restrição de recursos públicos para investimentos, foi instado por Paulo Guedes a ir a Davos, logo no início de seu mandato, para vender as oportunidades de investimentos no Brasil. Foi um desastre.
Decidiu nem ir em 2020 para não passar por novo vexame, mas autorizou Guedes a "vender o Brasil".
Dória, um profissional da área de eventos, não quer perder a oportunidade de ser expositor e "vender São Paulo".
O outro lado, no entanto, não quer "comprar Brasil", porque não fica bem. Comentamos no ano passado que a principal oposição que o investidor enfrentaria seria em casa: com os filhos e netos. Muitos debocharam.
Greta Thunberg representa os filhos e netos adolescentes dos investidores, para pedir aos pais e avós a responsabilidade com o meio ambiente. Ganhou repercussão mundial e a piralha é o principal empecilho para os investimentos "ocidentais". Só os chineses não "dão bola".
Não por outro motivo e momento, Jair Bolsonaro, contrariando um dos seus principais grupos de apoio, resolveu por em prática uma Política Nacional de Segurança Ambiental, anunciando a criação de uma Força Nacional Ambiental e Conselho da Amazônia, entregando o comando ao seu Vice-Presidente General Hamilton Mourão. Para a mídia brasileira é assunto de menor importância. A indicação de Regina Duarte para a Cultura tem maior repercussão. Nem deve atravessar o oceano para chegar a Davos. Mas junto aos grileiros, desmatadores e outros responsáveis diretos pela depredação da floresta amazônica, será considerado um traidor, podendo perder o apoio deles.



quarta-feira, 26 de junho de 2019

A legalidade no processo da suspeição de Moro na Lava-Jato (2)

Na questão da suspeição de Sérgio Moro no julgamento das ações da Operação Lava-Jato, a segunda turma do STF votou pela manutenção da prisão de Lula, não tomando conhecimento das supostas conversas entre o então Juiz Sérgio Moro e Daltan Dallagnol, mineradas por um suposto hacker, nos telefones daqueles e divulgadas pelo Jornalista Greenwald. 
O jornalista foi à Câmara dos Deputados, prometendo divulgar tudo. Não acrescentou nada, além das suas avaliações pessoais. 
Enfatizou a liberdade de imprensa e o direito de manter anônima a fonte. O que gera um efeito político e popular, mas não jurídico. Não há como comprovar a veracidade das conversas sem a entrega das respectivas fitas para as perícias oficiais. Sem isso não podem ser aceitas como provas válidas, nos julgamentos oficiais.

Gilmar Mendes pediu mais prazo para tentar demonstrar a validade legal das transcrições das conversas atribuidas a Sérgio Moro e Daltan Dallagnol. Sem essa comprovação o mais provável é que Celso de Melo, considerado um "garantista e legalista", recuse liminarmente a aceitá-las como provas e vote contra a suspeição de Sérgio Moro. Mas não deixará de fazer uma longa censura aos protagonistas da Operação Lava-Jato. Apenas mais um pito nos meninos.
A menos de legalização das transcrições, os votos de ontem já indicaram o resultado do julgamento de agosto. A 2ª Turma do STF votará contra o pedido de suspeição de Sérgio Moro, por falta de provas legalmente válidas e os processos não serão anulados.
Lula seguirá preso 

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Hélio Jaguaribe e o legado do ISEB

Muito da visão que tenho colocado aqui aprendi no ISEB - Instituto Superior de Estudos Brasileiros. Aprendi com os mestres Hélio Jaguaribe Gomes de Mattos, recém falecido , Roland Corbisier, Alberto Guerreiro Ramos, Cândido Antonio Mendes de Almeida, Alvaro Vieira Pinto, Nelson Werneck Sodré, Ignácio Rangel, Gilberto Paim e outros a entender o Brasil em suas diversas dimensões. Com a sua composição e evolução estrutural.
O ISEB foi dizimado pelo golpe militar de 1964 e o pensamento estrutural foi substituído pelo pensamento econômico, para o qual o Brasil se resumia a um conjunto de tabelas numéricas. Do ponto de vista estrutural a simplificação era: o Estado de um lado e o mercado de outro. 
Registro aqui as minhas homenagens póstumas a Hélio Jaguaribe, tentando aqui - humilde e tacanhamente - manter as visões que aprendi no casarão de Botafogo, no Rio de Janeiro, ainda nos anos cinquenta.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Moradia da miserabilidade

Moradia não se resume a um teto para viver (ou sobreviver). E um local de repouso do trabalhador e para abrigar a sua família. O responsável pela moradia precisa trabalhar para auferir renda, porque não basta ter abrigo: precisa alimentar a si e a sua família. E quer ter na sua moradia um mínimo de equipamentos domésticos, desde o colchão à televisão, passando pelo fogão e o botijão de gás.
A condição básica da moradia do miserável é estar próximo às oportunidades de trabalho: trabalho informal, trabalho precário, mas fonte da renda mínima de sobrevivência. Ele não tem condições de pagar a condução para ir trabalhar e voltar para casa. 

A visão idealista propõe a geração de empregos, mas a situação econômica geral não é favorável e não depende apenas de ações governamentais.
Criação de empregos formais depende de decisões empresariais, patronais e esses estão muito cautelosos. A sua missão não é social, é econômica e estão avessos aos riscos.
Sem aumento significativo dos empregos, com manutenção alta da desocupação, os pobres e miseráveis tem poucas opções de moradia.  Os miseráveis nem isso. Não contam com o dinheiro para condução, tampouco tem quem pague por ela. Precisam morar mais próximo das oportunidades de trabalho. As oportunidades maiores estão na coleta e venda de resíduos: principalmente das latinhas e do papelão, os resíduos de maior valor. E esses estão nos polos comerciais e de entretenimento. Em torno desses se formam os cordões de pobreza ou de miserabilidade, com invasão de terrenos vagos ou de imóveis vazios.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Mudar os paradigmas na questão habitacional

O problema de moradia no Brasil não está sendo resolvido, mesmo com políticas públicas quase centenárias, por equívoco das premissas ou dos paradigmas.
A solução não está na casa própria. Não há possibilidade de universalizar o acesso a moradia adequada, pretendendo que todos tenham a sua casa própria. 
E a defesa desse objetivo como utopia, é tão somente um escapismo para não enfrentar a realidade que se mostra de forma trágica, com a implosão de um edifício invadido por "sem tetos".
Não basta anunciar que foi uma "tragédia anunciada". É preciso reconhecer os nossos erros. De toda sociedade.
O segundo grande equívoco é a caracterização de moradia adequada. Essa é definida - predominantemente - pelos arquitetos segundo os padrões da sua classe, ou seja, da class média. É uma visão mais física e estética do que social. Essa visão não quer reconhecer que favela é solução. Não problema.

Déficit habitacional é um parâmetro da indústria da construção. O déficit real que precisa ser vencido é o déficit de moradia.

(cont)

segunda-feira, 26 de março de 2018

Batata

A batata, um dos alimentos mais consumidos no mundo, é  mais um caso em que a tecnologia tornou viável a sua comercialização mundial.
A batata frita que os brasileiros estão acostumados a comer numa unidade do McDonalds, por vontade própria ou levado pelos filhos, não é brasileira: é argentina.
O mercado mundial de "batata frita" cortada, pré-cozida e congelada, foi dominado pela McCain, uma multinacional de origem canadense.
Com a compra de participação acionária relevante da Forno de Minas, irá levar o pão de queijo mineiro ao mundo. A mandioca brasileira irá ganhar o mundo.
E ajudará populações pobres a vencer a fome, com o que mais facilmente conseguem produzir.

sábado, 17 de março de 2018

Marielle, Globo e sociedade

O assassinato de Marielle Franco seria apenas mais uma morte violenta para aumentar as estatísticas da violência urbana no Rio de Janeiro.

Seria uma notícia policial como várias outras, relevante, porém não com mais de uma e única chamada no Jornal Nacional e outros noticiários de menor audiência.

Porém a Rede Globo, um conglomerado acusado de direita, anti-esquerda, combatida ferozmente pela mesma esquerda radical, da qual Marielle fazia parte, resolveu pautar o assassinato da vereadora como um fato diferenciado, notório e excepcional.

O que seria apenas mais um crime violento no Rio de Janeiro, com promessas de investigações rápidas, foi tornado pela Rede Globo num evento político, com alguma repercussão internacional, amplificada pela própria rede.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Marielle presente: comoção momentânea ou prenúncio de grandes mudanças

O assassinato de Marielle Franco, uma jovem política, com uma vida autêntica, fiel à sua trajetória pessoal e esperança de renovação dos quadros desejados pela sociedade, causou e vem causando grande e devida comoção social, que alcança repercussão internacional.

A mobilização poderá se esvair em pouco tempo, como ocorreu com outros episódios semelhantes. Ou poderá alimentar uma grande mobilização nas ruas, provocando grande mudança na vida dos moradores do Rio de Janeiro, com repercussões maiores.

O que aconteceu com o Rio de Janeiro, foi um retrocesso do processo civilizatório, com a reemergência da barbárie.

Grupos mais fortes, baseados nas armas, assumiram o controle de comunidades, submetendo a população às suas normas e cobranças.

O Estado se omitiu nas suas funções de segurança pública, suprimento de serviços de utilidades públicas ou da sua regulação, assim como de serviços de saúde e assistência social. 

Sem a presença do Estado, com o seu poder institucional e com o monopólio de atividades públicas, grupos privados passaram a disputar a governança das comunidades, submetidas ao grupo mais forte, pelo medo.

Ao contrário do Estado que tem uma justiça institucionalizada (apesar de defeitos) com regras e penas definidas e limitadas, as penas aplicadas por esses grupos privados são próprias. A pena de morte é aplicada, por julgamentos sumários ou até sem julgamento. 

Governam pelo medo, a população submetida paga pela "proteção" e não fala, não denuncia por medo. 


A mobilização "Marielle presente" só terá efeitos positivos se as comunidades submetidas às forças espúrias deixarem de se intimidar, e deixarem de dar cobertura àquelas. O principal instrumento será a denúncia. 

Vencer a barbárie envolverá guerra. Não adianta clamar paz, para quem não a quer. A barbárie só será vencida quando derrotada (parafraseando Vicente Matheus).

E não será derrotada sem a participação direta da população submetida à ela. 

Mobilizações na Avenida Atlântica dão repercussão na televisão e só. Elas precisam ser feita na Avenida Brasil e em outras localidades, onde as populações das comunidades submetidas percebem visualmente e presencialmente o apoio da sociedade organizada. 

quarta-feira, 14 de março de 2018

As origens da violência no Rio de Janeiro

A violência urbana no Rio de Janeiro verificada recentemente e que justificaria a intervenção militar federal é a eclosão de um processo de muitos anos que tem uma primeira e fundamental origem.

O amplo e disseminado crescimento do mercado de drogas consumido pela classe média e rica do Rio de Janeiro. 

Essa demanda crescente não foi contida nem com a recessão econômica. Ao contrário, a recessão deu margem ao seu maior crescimento. 

Como em qualquer processo econômico, com uma demanda em expansão, a oferta se organiza para atender a essa demanda, e os diversos interessados passam a disputar os mercados. 

É um processo econômico natural, usual, mas com uma diferença fundamental: a disputa pelo mercado é feita, a bala. Não por um processo, supostamente civilizado, mas ainda da barbárie.

O que escandaliza a sociedade civilizada que sustenta esse processo.

Essa sociedade se divide: uma parte segue como consumidora de drogas e racionaliza com diversos argumentos e lógica para justificar o seu comportamento. E não aceita que seja sustentadora da barbárie. Não aceita e não reconhece que é parte fundamental da cadeia produtiva (ou de valor) da droga.

Outra parte não é consumidora, mas é leniente com a parte consumidora. Percebe o comprometimento, mas como esses consumidores são seus pares, são da mesma classe social, são seus vizinhos, amigos ou familiares, aceitam o comportamento como "fatos da vida". 

E preferem atribuir a culpa aos demais: aos traficantes violentos, à polícia despreparada, aos políticos corruptos e todos os demais: menos os seus.

quarta-feira, 7 de março de 2018

4ª Revolução Industrial e o Trabalho Humano (5)

As tecnologias só se efetivam como inovação, quando aceitas pelo mercado. E isso ocorre porque atendem a uma necessidade, desejo ou aspiração do comprador ou usuário. 

A necessidade/desejo do consumidor pode corresponder a uma demanda reprimida - quantitativa ou qualitativa - ou uma demanda não percebida.

A partir dessa visão, com foco na necessidade/desejo do consumidor final, o setor produtivo inova. Algumas dessas inovações levam à substituição do trabalho humano pela máquina ou aplicativo puro. 

Mas para que isso ocorra é preciso que o consumidor adote a inovação, o que fará se atender a uma necessidade / desejo e estiver ao seu alcance econômico.

Isso significa que não basta existir a tecnologia que atenda a uma necessidade/desejo. É preciso que tenha custo compatível com o benefício esperado pelo consumidor. E ainda dentro da sua capacidade econômica de compra.

terça-feira, 6 de março de 2018

4ª Revolução Industrial e Trabalho Humano (4)

As inovações são avaliadas predominantemente pela ótica da sua criação e da sua produção. Mas elas só se efetivam como inovação, quando absorvidas pelo mercado. E isso ocorre porque atendem a uma necessidade, desejo ou aspiração do comprador ou usuário. Antes de ser aceito pelo mercado são pesquisas e não inovação.

A necessidade/desejo do consumidor pode corresponder a uma demanda reprimida - quantitativa ou qualitativa - ou uma demanda não percebida. Que se torna efetiva diante de um produto que a atenda. Foi o que fez Steve Job.


As compras pela internet - tanto de bens físicos como de serviços - não só vão continuar como aumentar. O que gera três atividades subsequentes, todas pela internet: a venda prévia, a cobrança e o atendimento das reclamações.

As compras/vendas pela internet podem dispensar um vendedor específico para cada operação. Tudo pode ser automatizado, a partir de "cliques" no computador ou smartphone.

Dará margem para outras profissões. Algumas novas como o webdesign, o produtor do sítio (ou responsável pelo conteúdo), curador de imagens, analista de inteligência competititva, outras tradicionais como fotógrafos, desenhistas, marketólogo ou selecionador de produtos, precificadores e outros.


terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

4ª Revolução Industrial e Trabalho Humano

Os avanços tecnológicos abrangidos pela 4ª Revolução Industrial são desenvolvidos pela elite mundial para ela mesma. Mudam a sua forma de viver, geram comodidades, reduzem custos relativos, mas são - em geral - caros e inacessíveis para a maioria da população mundial.

São avanços na ponta ou no cume que não chegam à base. Mas são apresentados  ou "vendidos" como mudanças que afetam todo o mundo. 

Tem um mercado restrito, com impacto reduzido sobre o conjunto total do mercado de trabalho. Na maioria das atividades produtivas o trabalho humano continua sendo mais barato do que o trabalho tecnológico. 

O custo maior não é impeditivo para a elite que busca a modernidade a qualquer custo. Está disposta a pagar mais. Não é o que ocorre com a maioria da população, para a qual o preço é o principal fator de decisão da compra.

A vantagem tecnológica está na produção em massa, em grande escala, próprio para a produção e processamento de commodities. Mas menos vantajosa e aplicável em atividades em unidades de menor escala. 

A produção em escala precisa ser mundial, mas ainda não resolveu satisfatoriamente o problema dos custos logísticos. O que mantém a competividade da produção local para o consumo local.

A vantagem do trabalho humano está no seu custo, o que gera um dilema. Se a remuneração melhorar o trabalhador corre o risco de ser substituído pela máquina ou pela tecnologia.

O principal objetivo das novas tecnologias não deveria ser a suposta redução dos custos pela substituição do trabalho humano. A tecnologia deve ter como principais objetivos, tornar o trabalho humano menos penoso e ajudá-lo a obter maior produtividade. 

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Demanda 4.0


O que a 4ª Revolução Industrial irá gerar de mudança significativa na vida das pessoas? Será o robô? O que a Internet das Coisas irá afetar o modo de viver? Ou será o barateamento de coisas que hoje já existem, mas são pouco acessíveis à maioria das pessoas, em função do seu custo?

A proposta japonesa para a sociedade 5.0 traz algumas dicas, em função do envelhecimento da população. A questão levantada não é apenas a inversão da pirâmide etária ou a previdência social. Mas também, o que esses "velhos" ou "jovens idosos ou idosos jovens" irão fazer com o seu tempo, já que não tem que ou não precisam utilizá-lo para trabalhar?


Ou seja, um dos maiores problemas futuro da humanidade é adequar a forma de viver com o chamado tempo ocioso? E como a tecnologia, as inovações ajudarão a ajustar a vida dessas pessoas? Para que eles não pensem em abreviar uma vida fisicamente possível, mas monótona, repetitiva, sem desafios e com poucas alegrias.

Atender às demandas futuras, algumas delas ainda nem percebidas, deverá ser o foco das inovações.

O avanço da 4ª Revolução Industrial não irá ocorrer sem uma Demanda 4.0.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Construção cidadã (2)

Respeito pelo meio ambiente

O respeito ao meio ambiente não se refere apenas às condições naturais, mas às condições de vida dos cidadãos no ambiente em que vivem. 

O respeito à vizinhança envolve a segurança e o conforto dos cidadãos afetados pelas obras.

Numa obra urbana, pública ou privada, o construtor deve providenciar as proteções a fim de evitar que elementos caiam sobre as pessoas, deve providenciar o desvio de veículos, com adequada sinalização, assim, como os caminhos alternativos, bem protegidos e funcionais para os pedestres. 

A construtora deve ainda providenciar o controle e a redução dos resíduos.

Uma obra cidadã para os vizinhos é aquela que é realizada, praticamente sem a percepção deles.


Ética e respeito com os colaboradores e fornecedores

Uma construtora cidadã é a que segue os preceitos legais na contratação e utilização dos seus colaboradores.

A condição mínima é "assinar a carteira de trabalho".

As condições de trabalho no sítio da obra  devem ser dignas ou decentes.

O respeito aos fornecedores significa estabelecer relações comerciais justas. Principalmente, cumprir o acordado. 

sábado, 8 de abril de 2017

A boa cidade

Uma cidade boa para se viver não pode ser grande e espraiada. A cidade grande precisa ser adensada e verticalizada. A cidade horizontal, toda de casinhas sem prédios altos não pode ser grande.

Em cidades democráticas e sob regime capitalista, onde a propriedade imobiliária é um ativo objeto de valorização constante, o grande desafio é aproximar a casa do trabalho. Isto é, fazer com que as pessoas morem perto do seu local de trabalho ou trabalhem perto da sua moradia. 

Para que isso ocorra há três caminhos básicos:

  1. o da racionalidade comunitária que se baseia no planejamento da cidade desejável (ou desejada) influenciando todos ou a maioria dos moradores  da cidade a adotar os preceitos propostos;
  2. o da intervenção pública determinando ou induzindo os comportamentos sociais desejáveis;
  3. o do mercado que oferece à comunidade os produtos que atendam aos objetivos do planejamento.
Nenhum dos três caminhos, leva à cidade desejada. 

A racionalidade comunitária não é a soma das racionalidades individuais comuns. É o resultado de somas algébricas em que para cada situação considerada pelos planejadores urbanos, existem fatores e comportamentos positivos e negativos.

Em regime democrático o Estado não determina onde e como as pessoas podem morar e trabalhar. O seu poder é limitado a regulações restritivas genéricas, dentro das quais os urbanos, sejam demandantes ou ofertantes, tomam as suas decisões. Nem sempre no sentido desejado pelos planejadores.

O mercado é movido pelo objetivo de valorização constante do ativo imobiliário. Promove e estimula a valorização de áreas e produtos com capacidade de gerar demanda. A valorização "expulsa" os urbanos cuja renda não tem condições de acompanhar a valorização dando lugar aos mais "abonados". Os "expulsos" vão buscar novas áreas para morar, sem deixar de trabalhar na área antiga. O que gera maiores deslocamentos.

O mercado, que congrega o conjunto de decisões dos empreendedores e investidores imobiliários, quando percebem que a valorização alcançou um patamar que determina taxas de valorização menores e mais estáveis, busca novas áreas com valores relativamente mais baixos, para promover valorizações a taxas mais elevadas e em tempos menores. É o real processo especulativo urbano, com características próprias. 

Algumas comunidades urbanas conseguiram conciliar os três caminhos e produzir uma cidade boa para morar, para todos. Outras conseguiram organizar uma cidade boa para morar para poucos, marginalizando os demais. E finalmente há as comunidades, como a paulistana (ou metropolitana) que conseguiram produzir cidades ruins de morar, para quase todos. 


terça-feira, 4 de abril de 2017

Terceirização e as "ondas industriais"

A batalha da terceirização gira em torno das "ondas industriais". 
Com a chegada ao Brasil da "segunda onda industrial" caracterizada pelo "fordismo" foram  consolidadas as Leis do Trabalho - CLT. Com um grande símbolo: a carteira de trabalho. 
Esse modelo de produção prevaleceu até o final dos anos oitenta, quando com a emergência da globalização, se evidenciou um novo modelo, caracterizado como terceirização, ou "outsourcing" (na expressão inglesa). 

Para os trabalhadores, para a "classe trabalhadora" e para os defensores da CLT as mudanças foram vistas e interpretadas como tentativas de fuga à CLT e aos direitos e benefícios previstos pela mesma e pelas legislações posteriores. Simbolizada pelo lema "precarização das condições (ou relações) de trabalho".

A tentativa de fuga à CLT é um fato inequívoco. 

Mas ocorre de diversas formas, tanto formais como informais. Uma delas é a "pejotização".

Para o trabalhador PJ, mesmo com uma remuneração maior no seu valor-hora, incorporando a ela todos os direitos, benefícios e acréscimos, há uma sensação de perda. Não terá a garantia de uma receita fixa a cada mês. Tem que "ralar" para garantir a sua receita. Quando quiser tirar férias, terá que ser por conta própria, deixando de receber nesse período e sem direito a qualquer adicional. No final do ano não terá décimo-terceiro e quando dispensado não terá aviso prévio, tampouco levantamento do Fundo de Garantia.

Não terá perspectiva de carreira dentro da empresa

Para quem tem a cultura "celetista", mesmo com a preservação ou melhoria de remuneração são grandes e essenciais perdas. 

A sensação é efetivamente de "precarização". 

Lula, meio livre

Lula está jurídica e politicamente livre, mas não como ele e o PT desejam. Ele não está condenado, mas tampouco inocentado. Ele não está jul...