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Culpa da engenharia? (2)

Ocorrido um grande desastre, como a ruptura da barragem em Brumadinho,  todo noticiário é tomado pelas questões ambientais e da vítimas humanas, ficando os motivo do rompimento em segundo plano, ou visto apenas como falha da regulação ou da fiscalização, com os aspectos da engenharia minimizados ou desconsiderados.
A construção da barragem é um obra de engenharia. A ruptura da barragem também. 
Informa-se que a concepção da barragem e sua expansão é uma tecnologia obsoleta e que não é mais utilizada. 
Mas a barragem não é uma questão primária, mas derivada da metodologia de extração do minério de ferro, a céu aberto. 
A mais tradicional é a via úmida, com grande uso de água, seja de jatos d´água para desbastar a camada de terra que cobre a mina, como para a separação dos componentes do  minério bruto: dessa separação são selecionados e retirados os desejados. O resto é rejeito.  A tecnologia tradicional é de armazenar esses rejeitos em lagoas ou represas, com os rejeitos e a água contidas por barragens.
As tecnologias mais modernas são da extração por via seca,  com o depósito dos rejeitos em pilhas secas, sem o represamento da água e em áreas relativamente pequenas. Uma vez esgotada a capacidade de armazenamento da área essa deixa de receber os rejeitos, é recoberta de terra, guardada como rejeito e depois de recoberta, gramada ou replantada, tornando-se uma área verde. 
As represas ou lagoas de rejeitos só são necessárias quando a extração é feita por via úmida e a partir dai se coloca a questão da alternativa de tecnologia da concepção e construção das barragens. 
A primeira concepção é de construção de uma barragem definitiva ou de contenção gradual, com alteamentos sucessivos da sua altura.
No caso da barragem de concreto, o mais econômico seria da construção de uma única vez. No caso de barragem de terra, a mineração vinha usando a expansão gradual, mediante alteamento a montante. 
Na extração do minério de ferro em Minas Gerais, cujas minas foram instaladas à muito tempo, a predominância é da extração por via úmida, com represamento dos rejeitos por barragens de terra e alteamento à montante à medida que aumenta o volume de rejeitos.

Assim sendo, diante da realidade do passado recente (pouco anterior à ruptura) para avaliar sobre eventuais erros de gestão ou tecnológicos é preciso considerar as seguintes questões:

  1. quando a Vale fez o último alteamento à montante? porque nessa ocasião não optou pelo alteamento à jusante, que seria mais segura?
  2. por que a Vale, em vez do alteamento da barragem não optou pela mudança na tecnologia de extração do minério, passando a usar a via seca?
    1. ela teria mudado a tecnologia, deixando de fazer a extração por via úmida na mina do córrego do Feijão.
  3. por que a Vale não desativou a represa, depois do desastre de Mariana, que foi construida segundo a mesma metodologia (alteamento a montante)?
    1. segundo informações da Vale, ela teria desativada a represa, depois do desastre de Mariana.
  4. por que a Vale, tendo desativada a represa não manteve um monitoramento severo para prevenir eventuais riscos?
    1. segundo informações ela teria seguido todos os procedimentos e ainda em 2018 contratou um laudo com uma certificadora internacional.
  5. se a Vale desativou a represa, manteve todos os procedimentos, como a barragem rompeu repentinamente, sem dar tempo, nem para acionar as sirenes?
É um grande mistério que precisa ser resolvido pela engenharia.

A empresa mentiu, o que é pouco provável, houve uma imperícia no monitoramento ou ocorreu um fato inusitado, que precisa ser explicado.
A eventual mentira da empresa seria desmentida pelos seus funcionários que estavam trabalhando junto à barragem. Por razões que ainda precisam ser explicados eles estavam logo abaixo da barragem e que, portanto, seriam os primeiro atingidos - o que infelizmente ocorreu. Não deixariam de denunciar eventuais riscos percebidos. 
Provavelmente houve uma imperícia, mas não foi por falta de monitoramento, de inspeções, tampouco de amadores. As atividades foram desenvolvidas por profissionais competentes mas provavelmente - de forma insuficiente - ai por razões econômicas. Prevaleceu a visão do lucro sobre os riscos. Como havia ocorrido em Mariana. 

Mesmo assim a engenharia precisa explicar para a sociedade como pode ter ocorrido uma ruptura repentina, sem sinais de risco. 
Se ela não for capaz de explicar esse inusitado, ficará sendo a responsável por incompetência deixando margem a todos os demais a darem os palpites mais desencontrados, com a sua extrema judicialização.

(cont)



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