segunda-feira, 6 de abril de 2020

Rainha da Inglaterra ou Pato Manco?


Duas figuras simbólicas caracterizam a perda de poder de um governante: rainha da Inglaterra e pato manco.
“Rainha da Inglaterra” (com pedido de perdão à Elizabeth pelo seu mau uso) é o governante que mantém formalmente o cargo, mas é tutelado, com as suas decisões e ações controladas por terceiros.
“Pato manco” é o governante que permanece no cargo, mas sem efetivo poder, porque ninguém o obedece. Os seus ministros tem força política e popular maior que a do Governante formal, que não tem condições de demití-los. É comum ocorrer próximo aos finais de mandato e lhe dizem “daqui a pouco o seu governo acaba, mas nos continuamos”. Segundo o folclore político, o principal indício do enfraquecimento é quando o “homem do cafezinho, serve o café frio”, ou derruba a água no terno do governante”.
Jair Bolsonaro, tem um grande carisma e muita sinceridade, sendo esse um dos seus pontos fortes que mantém o apoio popular de cerca de 1/3 da população. Afirmou, ainda no início do seu mandato “não nasci para ser Presidente, nasci para ser militar”. Conhecendo as limitações e desinteresse de Bolsonaro em administrar, Gustavo Bebbiano tentou tutelá-lo. Foi implodido pelo filho Carlos Bolsonaro e acabou demitido. O General Santos Cruz, também tentou, mas mais uma vez por interferência dos filhos, acabou demitido sumariamente.
Tentou assumir plenamente o comando da Administração Federal, mas sem vocação, tampouco competência, delegou as atribuições decisórias aos seus Ministros, mas mantendo o direito de veto, o que exerce constantemente.  Adotou um estilo de descentralização, quase plena, mas desde que não contrarie as suas idiossincrasias pessoais ou de seus filhos.
Ao assumir um entendimento e posição contrária às recomendações das entidades internacionais de saúde, primeiramente desprezando a epidemia, tratando-a como uma “gripezinha”, depois insistindo na prioridade do trabalho e renda, em detrimento da saúde e da vida, foi perdendo apoios, aliados e ganhando contestadores e opositores.
A sua reação foi de atacar esses opositores, inclusive dentro do seu próprio Governo, acusando-os de pretender enfraquecer e abreviar o seu governo.
Os tutores, ou pretendentes a tal, tentam moderar o discurso do Presidente, mas ele resiste para não se transformar em “Rainha da Inglaterra”. Mas insistindo em ir na contramão de todo o mundo, inclusive do seu mestre Donald Trump, vem atrasando ou comprometendo o combate ao vírus, ficando cada vez mais isolado e sem poder: um “pato manco” precoce.
Mantendo a sua natureza contestadora tornou-se um líder oposicionista contra o Governo, para manter o apoio popular dos seus seguidores.

domingo, 5 de abril de 2020

"Pato manco"?

No final de 2019 emergiu um coronavirus mutante, devastando a próspera cidade industrial chinesa de Wuhan, onde ao lado de modernas indústrias dos setores de alta tecnologia, convive feiras livres, sujas e com venda da animais vivos, infestando milhares de pessoas e causando a morte de muitas pessoas, em tempo muito curto. 
A reação do Presidente Bolsonaro foi de minimizar a ameaça, repetindo a "marolinha" de Lula, diante da grande crise financeira de 2018. "Tá muito longe. E se chegar aqui vai ser uma gripezinha". 
Apesar do desprezo do Presidente e da quase totalidade da sociedade brasileira, o Ministro da Saúde, começou a tomar providências pelo risco de colapso no Sistema de Saúde Público Brasileiro: o sempre mal falado SUS. Na defesa desse sistema buscou alertar todo o sistema de saúde - público ou privado - para se preparar para a chegada do vírus do Brasil e buscar recursos adicionais para fortalecer o referido sistema.
A disseminação do cornovarius, por outros países, seja da Ásia, como da Europa, principalmente a Itália, com rápido crescimento das mortes, por conta das disputas políticas, deixando de tomar as medidas de isolamento social, para conter a contaminação, alertou mais ainda a área da saude do Governo, com o Presidente Bolsonaro, seguindo na posição de minimizar o risco de epidemia, acompanhando o "seu mestre" Donald Trump, alertando contra o risco do alarmismo e da histeria, mas não impediu que o seu Ministro da Saúde, até então um obscuro Ministro, da série C, mantivesse a sua atuação com as medidas preventivas. 
Com a chegada do vírus ao Brasil, importada através da Itália, o Ministro ganhou protagonismo, com ampla cobertura da Rede Globo, posteriormente acompanhado pelos outros meios de comunicação tradicional, alcançando o apoio de outros poderes, da comunidade médica e científica, de Governadores, menos do Presidente, que seguiu na linha do menosprezo da doença, continuando a trata-lá como gripezinha ou resfriadinho. 
Diante de um movimento do Congresso Nacional, para reforçar o seu poder sobre a gestão do orçamento, não só ampliado as dotações das emendas parlamentares, como verbas impositivas, mas também a gestão sobre as mesmas, primeiramente negociou, através do seu Ministro Secretário Geral. General Ramos, a redução das verbas de 30 bilhões para 15 bilhões. Em um segundo momento, ao perceber a reação negativa da sua turma de apoio, que considerou a negociação uma concessão excessiva à velha política. Uma manifestação indignada, supostamente vazada, do General Augusto Heleno, contra o que ele caracterizou como chantagem do Congresso, liderada por Rodrigo Maia, acirrou os ânimos. Bolsonaro vetou a medida inserida na Lei de Diretrizes Orçamentária para 2020. A reação do Congresso foi de articular a derrubada do veto. Para manter o veto, sem se propor a renegociar, mobilizou os seus adeptos - através das redes sociais para irem às ruas. 
Foi  com uma grande comitiva aos EUA, jantar com Trump, na Flórida, trazendo na bagagem, o vírus que contaminou metade da comitiva, incluindo o General Heleno. 
O Senador Nelsinho Trad, foi um dos contaminados, mas sem sintomas, circulou livremente pelo Congresso abraçando muitos colegas. Segundo a imprensa, apenas o Presidente do Senado, Davi Alcolumbre foi contaminado. Não teria havido uma ampla disseminação do vírus,dentro do Congresso.
Mesmo o vírus ter chegado ao Palácio do Planalto, avançando pelo Alvorada, com gente da segurança, contaminado, Jair Bolsonaro não mudou de entendimento e de posição, minimizando os riscos e evitando e se opondo a medidas radicais. Não mobilizou as demais áreas do Governo, principalmente, a área econômica, cuja posição inical foi de que a doença poderia ser oportunidade para acelerar a aprovação das reformas estruturais. Não chegou a cogitar de medidas emergenciais.

Manteve o apoio às convocações das manifestações de 15 de março, contrariando as orientações do seu Ministro da Saúde. Para demonstrar a inaceitação dessas orientações, foi cumprimentar os manifestantes, quando deveria ter se mantido recolhido em quarentena. Sofreu muitas críticas, mas a "sua turma" se manteve fiel, acompanhando-os em manifestações de rebeldia.
Rapidamente a situação mudou, com a confirmação da primeira morte pelo COVID-19, em 16 de março e o rápido crescimento das contaminações e das mortes, concentradas em São Paulo e no Rio de Janeiro, por serem as maiores aglomerações populacionais, como por receber o maior número de viajantes - estrangeiros ou retornantes - dentre os quais alguns contaminados.
O medo tomou conta da maioria da população. Bolsonaro continuou minimizando a epidemia, reiterando que não passava de uma gripezinha, e acusou os "seus inimigos" de fomentar a histeria, trazendo e difundindo informações e dados alarmantes de outros países. 
Quando os Governadores dos dois maiores Estados, onde se concentram os casos de contaminação e óbitos, passaram a tomar medidas mais amplas para impor isolamento social na tentativa de conter a velocidade das contaminações as diferenças de posições viraram uma disputa política. João Dória e Wilson Witzel seriam concorrentes à eleição presidencial de 2022, enfrentando Jair Bolsonaro que já se explicitou a sua intenção de disputar a reeleição. Para Bolsonaro esses governadores com o objetivo de fortalecer a sua candidatura, estão adotando medidas populistas contrárias às dele, prejudicando o funcionamento da economia. Segundo Bolsonaro, já explicitou, se a economia entrar em colapso "acaba o Governo dele", o que comprometeria a possibilidade da sua reeleição. Todo o seu foco seria o poder atual e futuro: um projeto de poder prolongado.
A questão é que os Governadores estão seguindo, embora de forma mais radical e ampla, as recomendações técnicas do Ministério da Saúde, que se respalda em conhecimentos técnicos e orientações da Organização Mundial da Saúde. Não estão se opondo ao Governo Federal, mas ao Presidente da República, o que deixou de ser a mesma coisa.
Desprezando o risco de epidemia que poderia afetar todas atividades e a população do país, tratando o novo coronavirus, como um problema menor de saúde pública, não maior que de outros vírus e doenças, que tem causando mais mortes, deixou o campo livre para o Ministro da Saúde. Mandetta passou a liderar as ações contra a epidemia, reconhecendo a magnitude do problema, tentando enfrentá-la, numa operação de guerra, contra um inimigo virulento e insidioso, sabendo não ter estar devidamente preparado e equipado para combatê-la.
A sua estratégia, constante de todos os manuais de guerra é evitar a sua chegada e, não conseguindo, tentar conter os seus avanços, para dar tempo de preparar as defesas. No caso, a capacidade de hospitalização e de tratamentos intensivos. 
Ao longo dos últimos anos, o despeso pelos riscos da saúde, levou a uma degradação do sistema público de saúde. 
Falando praticamente sozinho ou só entre "nois mesmo". foi ganhando notoriedade e credibilidade, ganhou apoio da mídia que passou a dar cobertura às entrevistas coletivas diárias, em que os dados eram atualizados e ele passava orientações, além de noticiar o que vinha fazendo ou planejando, com grande transparência, sem tentar esconder a gravidade, mas tentando conter os alarmismos, baseados em noticias falsas. 
Foi ganhando adesões da classe política, dos Governadores e Prefeitos Municipais, além do apoio da mídia tradicional. 
Quando Bolsonaro rebelando-se contra as recomendações do seu Ministro da Saúde, incentivou as aglomerações de seus seguidores, em 15 de março, indo ademais cumprimentar pessoalmente os manifestantes, apesar de estar em período de quarentena, em função da proximidade com os contaminados da comitiva aos EUA, viu que a popularidade de Mandetta era superior à sua e teve mais reprovações do que aprovações, na rede social. 
Percebeu que Mandetta era indemissivel. Se o fizesse poderia gerar um problema político que se voltaria contra ele e "acabaria o seu Governo". 
Tentou enquadrar Mandetta, que recuou parcialmente, mas logo voltou a agir com total desenvoltura, explicitando que não deixaria o cargo por sua vontade. Somente se fosse demitido. 
Bolsonaro tentou assumir o comando das operações, montando uma entrevista coletiva, com todos os integrantes da mesa, com máscaras. Foi um fracasso. 
Aceitando que se tratava de uma guerra, convocou o General Braga, Chefe da Casa Civil, para assumir efetivamente o comando das operações de combate.
Agiu dentro dos conceitos das estratégias militares modernas. O comando deve ser entregue a um General, que nessas circunstâncias pode ser promovido a Marechal. O Presidente, independentemente, do seu passado militar, deve-se manter como um dirigente civil. Até porque se Bolsonaro quisesse fazer valer a sua condição de militar, como ex-capitão, não seria aceito pelos Generais. 
Não consegue mandar em Mandetta, tampouco demití-lo. Seu discurso destoa de Mandetta, sendo contra o isolamento social. Mas este não o obedece. É o Presidente, mas não manda na área da saúde. Pode emitir um decreto, estabelecendo medidas opostas ao entendimento da Saúde, sem a assinatura do Ministro da área. Corre o risco de vê-lo anulado pelo Supremo Tribunal Federal ou pelo Congresso, que estão alinhados com as linhas de Mandetta. 
Ao ser empossado não desceu do palanque, por uma razão básica. Nesse ele se sente a vontade, na base do discurso ou da falação. 
Como chefe de Administração Federal, não sabe mandar. Tem pouca idéia do que a máquina deve fazer. Então descentraliza plenamente. Não orienta, não fixa metas, na cobra - a não ser excepcionalmente - mas mantém o poder de veto. Cada Ministro conduz a sua área com liberdade e sem orientação superior. Mas se ele (o Presidente) não gostar veta e manda mudar. Conduziu (ou deixou de conduzir) a Administração Federal, ao longo de 2019 e início de 2020 com esse estilo de Governo. 
Esse estilo ficou evidente no processo de nomeação da Secretaria da Cultura, a atriz Regina Duarte. Deu carta branca a ela para conduzir a Secretaria e formar a sua equipe. Mas logo nas primeiras nomeações, vetou algumas mudanças. Respondeu às cobrança da Secretaria em público, reiterando que ela tinha carta branca, mas ele mantinha o poder de veto.
A função de coordenar a ação dos diversos Ministérios ficou com Onyx Lorenzoni, como Chefe da Casa Civil. Mas foi pouco eficaz, com muitos dos demais Ministros não o atendendo. Acabou perdendo o cargo para um General, que agora assumiu a coordenação, sem a participação efetiva do Presidente. o qual acha que é uma tarefa maçante, sem disposição de assumir. 
Diante desse estilo, os Ministros se submeteram, para permanecer no cargo. Mandetta não se submeteu e Bolsonaro não consegue vetar o que ele não gosta.
O General Braga assumiu a coordenação do combate ao coronavirus, com indpendência, sem ficar na dependência do Presidente e menos das questões politicas. Nessas Bolsonaro está amarrado às vontades do Congresso. Esse mudou o jogo de forças. Não negocia com o Governo: impõe a pauta, pressionando o Governo a encaminhar as propostas que, constitucionalmente, precisam ser de iniciativa do Executivo, toma a iniciativa nas demais e só aprova o que é acordado entre as lideranças partidárias, sob comando dos respectivos Presidentes das Casas. O Presidente não conta com um Congresso homologador das suas propostas. Se tenta alguma medida autoritária é barrado pelo Supremo. 
Isolado, com apoio apenas dos seus fieis seguidores, dentro e fora do Governo.
A tutela pretendida pelos seus auxiliares moderados e a ala militar seria para evitar que o Presidente  acabasse isolado como ficou e enfraquecido.

Jair Bolsonaro reagiu às tentativas de torná-lo uma "Rainha da Inglaterra", das tentativa de tutela, e sem essa, seguindo a sua natureza pessoal, de confronto em confronto, foi perdendo poder efetivo e vem se tornando um "pato manco" precoce. 


sábado, 4 de abril de 2020

Rainha da Inglaterra?

Rainha da Inglaterra é uma imagem usada nos meios políticos para caracterizar o dirigente que detém o cargo máximo do país, mas não manda. 
Nos cenários Bolsonaro 2019 desenhamos, como uma das alternativas, o cenário Rainha da Inglaterra, com a ala militar do Governo, tutelando o Presidente Bolsonaro, para conter os seus desmandos intempestivos. 
Bolsonaro, insuflado pelos filhos que lideram e mobilizam os seguidores fieis àquele, reagiu e prevaleceu o cenário "Bolsonaro Presidente", com este assumindo as rédeas do Governo e demitindo os que "queriam mandar nele" ou não o respeitavam devidamente. 
A principal vítima foi o seu antigo camarada, General Santos Cruz, que só o chamava de "meu capitão", tratamento afetuoso, mas não deixando de lembrar ao amigo que ele não passou da patente de capitão. 
O ex-capitão "ficou de saco cheio" e resolveu mostrar que "o Presidente sou eu, porra" e como tal, assumia a maior patente das Forças Armadas. Mandou o Vice-Presidente, General Mourão "ficar na sua". Demitiu o ex-amigo Santos Cruz e vários outros generais, para demonstrar que quem manda é ele. 
Com estilo autoritário e beligerante, "enquadrou" todos os Ministros: "quem não estiver satisfeito, pede pra saír". "Se mijar fora do pinico, demito". Confrontou o Legislativo, na pessoa do Presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. Quando o seu "néo amiginho" Toffoli retirou a cobertura ao trancamento do processo contra o seu filho, voltou-se contra ele, acusando-o (ainda que não publicamente) de ser um dos líderes da conspiração para derrubá-lo. Desenvolveu essa paranóia, alimentado pela teoria da conspiração, plantada e fomentada pelos seus filhos, sob inspiração de Olavo de Carvalho.
Introjetou a narrativa desses de que um só mandato seria insuficiente para "mudar o Brasil" e precisava de uma reeleição. Com uma vitória avassaladora, de forma a estabelecer um regime autoritário, com amplo apoio popular.
A reeleição passou a ser mais uma das suas obsessões e dentro de uma visão estratégica elementar, quer destruir, desde logo, qualquer ameaça à sua reeleição. Ao ver uma aceitação popular maior do seu Ministro Sérgio Moro, tratou de esvaziá-lo. Os seus principais inimigos passaram a ser os Governadores Witzel, do Rio de Janeiro e João Dória, de São Paulo, declarados ou supostos candidatos à Presidência, em 2022.
Tendo como foco a situação e evolução da economia, ao ver deles, da sua turma, alimentada por inúmero "especialistas" como a condição essencial para a sua reeleição, aceitou a fantasia narrada pelo seu Posto Ipiranga" de que o PIB de 2019 ficou 10% acima do que diz ele, ter previsto no ínicio do ano passado, e que a aceleração ocorreria em 2020, em torno de 2%, mantendo o crescimento em 2021, para ultrapassar 5% ao ano, em 2022, ano da eleição, sustentando a reeleição. Segundo Paulo Guedes a economia brasileira estava em fase de recuperação, com bons sinais do último trimestre de 2019 e melhores ainda no começo do ano, o que animou o Presidente Bolsonaro a tomar ou iniciar várias medidas, enquanto o Brasil e o Legislativo esperavam pelo carnaval. 
Assumiu plenamente a Presidência, afastou os militares e todos os demais que o queriam tutelar, tornando-o uma "Rainha da Inglaterra". 

(cont)


sexta-feira, 3 de abril de 2020

Teoria da conspiração, o principal motor

O Governo está retardando a distribuição do bonus de 600 reais, para os informais, insistindo na necessidade de uma PEC, para que possa ser descumprida a regra de ouro.
Em síntese, essa regra constitucional diz que o Governo não pode aumentar a sua dívida pública para atender despesas correntes e somente para despesas com investimentos. Ou em termos mais técnicos: não pode se financiar com títulos do Tesouro para cobrir subsídios.
A lei de responsabilidade fiscal limita a autorização para o déficit primário. A regra de ouro se refere ao déficit corrente. 
Se o fizer está cometendo um crime de responsabilidade, o que poderia dar origem - com base jurídica - a um processo de impeachment do Presidente.
Obcecado em proteger o seu cargo, insuflado pelos seus filhos, vê em toda medida do Congresso, uma "casca de banana", para dar margem ao seu impeachment.
Quando propôs o bônus de 200 reais para os informais, as contas do Ministério da Economia é que haveria margem dentro do orçamento e não afetaria a regra de ouro. 
Ao aumentar para 500 reais, a proposta exigiria alteração no limite do déficit primário e também na regra de ouro. Bolsonaro, aparentemente, não percebeu e para não perder a autoria da iniciativa, repicou com 600 reais, de forma intempestiva, sem uma consulta a Paulo Guedes. Ou este também não teria percebido. Foram alertados por parte da equipe econômica. 
Os filhos logo viram uma "casca de banana" e alertaram o pai. Se ele sancionasse a lei, poderia incorrer em crime de responsabilidade fiscal, uma das razões técnicas para o impeachment. Isso trancou o andamento. A versão disseminada foi do receio dos funcionários do Ministério da Economia de, mais tarde ter que responder a processos. No fundo é o receio do Presidente e dos filhos de dar margem técnica e jurídica a um processo de impeachment.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

E depois do fim da guerra?


O COVID-19 é um coronavirus, velho inimigo da humanidade, que de tempos em tempos emerge, causando grande estragos. Combatido e derrotado, se recolhe, se modifica e volta de forma cada mais forte e mortal.
Iniciado o ataque provoca uma devastação e morticínio, levando os Governos a organizarem operações de guerra, para combatê-lo em seu território. Em países asiáticos, onde começou e se espalhou inicialmente, os respectivos governos estão ganhando a guerra, depois de muitas baixas e ainda sem conseguir vencê-lo totalmente.
Mas o vírus escapa para outros países, onde vai provocar a ampla devastação. Para combate-lo é necessária a participação de toda a sociedade, adotando as medidas preventivas para evitar a sua rápida disseminação e um sistema de saúde, para atender às contaminações já ocorridas. No caso dos países orientais já há uma cultura de prevenção, diante de outras doenças e epidemias, e responde rápida e amplamente às orientações sanitárias, ainda que com prejuízo das liberdades de ir e vir, assim como de participar de eventos de massa.
Já nos países ocidentais, as resistências em abandonar hábitos e comportamentos são grandes e comprometem as ações para conter o avanço das contaminações.
Diante das resistências da população, o Governo estabelece restrições, que como comprometem as atividades econômicas, são contestadas. Se diante das resistências e oposições a contaminação se mantém ampla, provocando colapso nos sistemas de saúde, os Governos são obrigados a medidas radicais, obrigando toda a população a permanecer em casa e paralisando todas as atividades econômicas.
Como das outras vezes, o virus acabará sendo vencido, mas deixando um legado de cidades e economias devastadas, que precisarão ser reconstruidas. 
Por quanto tempo demorará a guerra e qual será o nível de devastação? 
No caso brasileiro, o combate ao coronavirus deverá um prazo básico, em que estará sob controle. A partir dai, a evolução será residual.
O Brasil é um país de enorme extensão territorial e uma população superior a 200 milhões de habitantes, com distribuição desigual, concentrando-se no Estado de São Paulo e, dentro dele, na Região Metropolitana. É também onde está a maior concentração da produção e do consumo nacional, ou em termos macroeconômicos, onde está a maior parte do PIB brasileiro, tanto do lado da oferta, como da demanda. 
Por essa razão é onde se tem concentrado a maior parte dos casos de contaminação do COVID-19, mais rápida evolução e acompanhamento estatístico dos casos. Mas este já entrou em colapso, acompanhando o colapso dos exames para constatação da contaminação ou não, dada excessiva demanda.
O primeiro caso confirmado de contaminação ocorreu em 26 de fevereiro, de um empresário/executivo que foi contaminado durante uma viagem à Lombardia, o epicentro do ataque do novo coronavirus na Itália. Todos os primeiros casos confirmados foram de importação e da transmissão, em segunda geração, àqueles que foram contaminados pelo importador. Alguns eventos, como um casamento milionário, no litoral da Bahia, centro do turismo de "socialites" paulistas e outros, promoveu uma disseminação em maior escala. 
As autoridades sanitárias não anunciaram - provavelmente por não monitorar as etapas de contaminação pessoal e não terem a informação - as chamada contaminação sustentada. Mas em 13 de março, quando já havia a confirmação de 56 casos importados e sustentados, foi comunicado o primeiro caso de contaminação comunitária. É uma transmissão local, em que não se conhece o foco original, podendo ter ocorrido em transporte coletivo, aglomerações de pessoas e outras situações coletivas. 
O número de infectado subiu rapidamente, mas já subestimados, diante do maior tempo para conclusão dos exames, diante da explosão de seu número. 
Em função da transmissão sustentada e da transmissão comunitária, os Governos começaram a estabelecer restrições à movimentação de pessoas, principalmente nas grandes aglomerações urbanas. Tais restrições, interrompem a atividade econômica, gerando problemas para as empresas, para os trabalhadores e para a macroeconomia. 

Ainda não há vacinas específica para o tratamento. O tratamento é o tempo de recuperação, sustentada por respiração mecânica. Não ocorrendo complicações, por outras doenças, poderá ter alta em até 30 dias. O primeiro paciente constatado, em 26 de fevereiro, já teve alta.

A oferta de instalações e equipamentos para o tratamento é limitada, não estando preparada, como qualquer outro país, para picos de crise. A consequência é o grande aumento de mortandade, como está ocorrendo na Itália.

A estratégia sanitária é de "achatar a curva" para não sobrecarregar o sistema de saúde. Para isso, a única estratégia viável é o isolamento e distanciamento social, em termos simples: "não saia de casa".

Isso significa um grande abalo no consumo, comprometendo o funcionamento da economia. As autoridades econômicas se contrapõe às autoridades sanitárias. 

A omissão do Presidente da República, que recusou a reconhecer a crise, caracterizando-a como histeria coletiva e fantasia, criada pelos seus adversários, acompanhada pelo seu Ministro da Economia que ficou insistindo em aproveitar o momento para aprovar as reformas estruturais fez com que o Ministro da Saúde, assumisse o total comando da guerra contra a expansão do COVID-19, no que tem sido acompanhado por vários Governadores de Estado. 

Com isso o Brasil não irá repetir a mesma tragédia da Itália, onde as disputas políticas e o lobby das grandes empresas retardou as medidas de distanciamento social. Essas só vieram a ser adotadas, já de forma radical, quando o país todo estava contaminado, em progressão geométrica. Esse pico levou a uma elevada mortandade, pela insuficiência de condições de tratamento. 

Com as medidas restritivas de circulação de pessoas, em locais públicos, aglomerações coletivas e outras deverá haver uma redução da progressão de novos casos. Isso porque  há uma contaminação silenciosa de infectados assintomáticos que não apresentam os sintomas, mas contaminam terceiros. Ocorreria com pessoas mais jovens e saudáveis, mas que contaminam pessoas mais idosas e saude mais frágil, com a manifestação, em até 14 dias, a partir da contaminação. Por isso a recomendação do isolamento de idosos, por pelo menos, 14 dias. Dentro dessa perspectiva, em São Paulo, a curva de contaminação deverá ter crescimento exponencial, até o final de março, passando - já em abril - a crescimentos moderados. Primeiramente haverá uma redução na progressividade do crescimento, em seguida uma redução absoluta, com o que voltará a crescer, para depois seguir uma trejatória decrescente.
A curva de óbitos também deverá crescer exponencialmente, isto é, rapidamente, ainda no mês de março e, provavelmente início de abril. 
São Paulo, além da transmissão comunitária local está sujeita à importação interna, em função de doentes ou suspeitos que buscarão assistência médica em São Paulo.
A atividade econômica terá forte retração nas duas próximas semanas, com uma incógnita na segunda semana, que será a santa, com um "feriadão". Depois da semana santa a tendência é de uma lenta retomada, com mais um feriado na terceira semana, por conta do Dia de Tiradentes, dia 21 uma terça-feira. Na última semana, mais um feriado, já entrando em maio: dia 1º uma sexta-feira. 
Não temos idéia, nem avaliações de terceiros sobre os prováveis comportamentos dos paulistas e paulistanos nesses próximos feriadões.
Para o comércio, a data mais importante é o dia 10, domingo, dia das mães.
As principais restrições governamentais à movimentação de pessoas, vão - no máximo - até o dia 30 de abril.
A eventual prorrogação das restrições dependerá da evolução da trajetória de contaminação. 






quarta-feira, 1 de abril de 2020

Contaminação por camadas sucessivas e sobepostas

A contaminação pelo virus SARS-COV2, causador da doença COVID-19, em um país ou em parte deste (bairro, municipio, região metropolitana ou estado) ocorre em camadas sucessivas e sobrepostas.
A primeira é importada e atinge as camadas de renda alta, com capacidade de passar férias no exterior, fazer viagens a negócios, etc.que  voltam do exterior já contaminados. Alguns não apresentavam sintomas, mas contaminaram terceiros.
A segunda camada ocorre uma contaminação interna, mas propagada pelo retornante contaminado. Este para comemorar o retorno, convidou a família e amigos para um churrasco, um almoço ou jantar, onde acabou por transmitir o vírus para os convidados. Alguns foram contaminados, apresentando sintomas e confirmados por testes. Outros, não apresentando sintomas, não passaram por testes.
Ficaram conhecidos polos de contaminação em casamentos de "ricos ou famosos", no Rio de Janeiro e na Bahia. Mas nesse caso em resorts, mais frequentados por paulistas. Em um deles um grupo de convidados  teria levado  o vírus para o Ceará.
Esta camada também se concentra em pessoas de alta renda,  que tiveram contato com um retornante. Mas, em função do modelo de trabalho brasileiro, que congrega milhões de trabalhadores domésticos, alguns deles que trabalhavam nas residência do contaminados também foram infectados e levaram o vírus para as localidades onde moram. Podem ter contaminado terceiros, dentro do ônibus, do trem, do metrô ou das barcas.
Os com renda continuaram almoçando em bons restaurantes e frequentando os bares em happy hours ou baladas noturnas, podendo ter contaminado outros frequentadores, assim como garçons e outros trabalhadores. 
A contaminação dos trabalhadores, seja nos transportes coletivos, como em aglomerações e muito nas condições precárias de moradia, que não permite o isolamento, contribui para uma inflação de casos comprovados. Essa camada se concentra territorialmente, restrita - inicialmente - nos grandes centros urbanos, onde os transportes coletivos estão sempre superlotados, nos horários de pico e onde há uma grande concentração de favelas. 
A quarta camada ocorre na disseminação do vírus por todo o Brasil, levado pelos viajantes, a partir dos polos de contaminação. Em alguns poucos estados a origem foi de viajantes internacionais, mas a principal difusão foi pelos viajantes nacionais. 
Uma análise da evolução das curvas de contaminação em todo Brasil e, separadamente, de São Paulo, mostra que São Paulo, vinha reduzindo a velocidade de contaminção, enquanto essa continuava acelerada, nos demais Estados. 
O crescimento diário das contaminações em São Paulo, tinha caido abaixo de dois dígitos, sendo de 3,2% no dia 29 e 4,5% enquanto os demais estados seguiam acima de dois dígitos. Mas no dia 31 de março houve um "repique" e a velocidade passou para 54,2%, ao dia. Os demais estados ficaram dentro do mesmo padrão de velocidade, próximo a 10% ao dia. O crescimento das contaminação nas estatísticas nacionais é devido à "explosão" da contaminação em São Paulo. 
Pode ter sido ampliado, ficando "fora da curva", ou mudando a curva, pela maior intensidade dos testes. A suspeita mais provável é que o vírus chegou às favelas, sem os Governos terem estratégias bem estruturadas para enfrentá-lo nesse flanco desguarnecido.
Quaisquer que sejam as explicações o fato é que o ritmo de contaminação ainda não está sob controle, permanecendo o risco de colapso no sistema de saúde. Ainda não dá para afrouxar nas políticas de isolamento, podendo até ser ampliado em São Paulo. 


Entendendo as estatísticas (3) Brechas


Um dos principais problemas de controlar a difusão da contaminação do COVID-19 está nas favelas, onde não há possibilidade de isolamento pessoal e mesmo familiar.
A contaminação inicial na favela é importada. Não do exterior, mas nacional. Importada de fora da comunidade. É de alguém que trabalha em outros locais, como doméstica, porteiro, comerciante, operário na construção civil, etc que é contaminado e leva para dentro da favela o vírus. 
Encontra um ambiente favorável e pode se expandir rapidamente. Não há hábito de lavar as mãos sempre que chegam de fora, até porque nem sempre dispõe de água corrente, não tem acesso ao alcool gel, em função da renda e não podemj ficar isolados, porque não tem espaços.
Tem que se enfrentado como uma situação de guerra. 

Lula, meio livre

Lula está jurídica e politicamente livre, mas não como ele e o PT desejam. Ele não está condenado, mas tampouco inocentado. Ele não está jul...