sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Mais um episódio da guerra interna do PT

Dilma não precisava ir a Davos. A menos para assinar um termo de capitulação. Aceitar o fracasso da sua nova matriz macroeconômica. Fez melhor. Mandou Joaquim Levy para dizer às lideranças dos investidores financeiros mundiais que irá fazer o que eles querem. 

A economia, para eles, é um jogo que trabalha com um elemento operado virtualmente, mas que tem base e reflexos reais. E o jogo se baseia em crenças, aparentemente comprovadas por modelos matemáticos. Com lógicas que estão fora ou até contrárias ao senso comum dos leigos. Se aumentar a taxa de juros a inflação cai. É um contra senso, mas acontece. 

O ajuste vai provocar um decréscimo da produção global, ou seja, do PIB. Significa recessão. A diferença de Levy para o seu antecessor é que ele reconhece. Não escamoteia, não procura infundir um falso otimismo. Tem transparência e credibilidade. O que ele espera é que com a recuperação da credibilidade os investidores financeiros voltem a financiar o Brasil, a taxas menores, e garantam um crescimento sustentável. Pequeno, mas sustentável. 

O caminho alternativo é não fazer o ajuste, resistir no modelo anterior até chegar ao colapso. Além de faltar água, de faltar luz iria faltar dinheiro. E a situação econômica para os brasileiros iria ficar pior. 

A estratégia é de fazer uma dieta rigorosa agora, para evitar uma cirurgia futura em situação mais desfavorável. A dúvida e angústia é saber por quanto tempo durará a agonia.

A oposição está numa situação paradoxal. O Governo está se propondo a fazer o que ela, caso tivesse vencida a eleição, faria. Ela precisa dar a Levy o apoio que Dilma não explicita, porque apenas se conforma em fazer o que não gosta. Mas tem que manter a autoridade e se defender da oposição real.

Essa está dentro do PT e dos antigos companheiros. A liderança técnica dessa oposição foi assumida por Belluzo, um economista estruturalista, defensor da "nova matriz macroeconômica". Opõe-se ao retorno do "tripê macroeconômico" dos monetaristas, por causar a recessão e vir a prejudicar os programas sociais e os trabalhadores. Ele tem razão, mas com a sustentação do modelo anterior seria pior. Além de não promover o crescimento, levaria a economia brasileira ao colapso.

A oposição política foi assumida por José Dirceu, dentro do PT. Ele é desafeto de Dilma e vice-versa, na disputa dentro do "projeto de poder" do PT. JD foi o mentor desse projeto. Foi o gestor e operador que levou |Lula a ser eleito e reeleito. Depois seria a vez dele, por oito anos. Mas teve um acidente de percurso e preparou a cama para Dilma se deitar. Ela tomou o lugar que ele teve que deixar por causa do "mensalão". 

Não obstante o julgamento e condenação no caso do "mensalão" ele não teria abandonado a sustentação financeira do projeto de poder do PT e o transferiu para dentro da Petrobras, com a ajuda de José Janene e outros, montando o "supermensalão" ou o "petrolão".

Montou o mecanismo de captação de recursos, buscou parceiros confiáveis, e operou, com a maior parte "não contabilizada" e uma parte formalizada, para demonstrar uma fonte de renda formal, com o pagamento de todos os impostos.

Como em a política é um campo fértil para "coincidências" algumas das empresas que cresceram vertiginosamente com contratos com a Petrobras contrataram serviços de "lobby" com a empresa de José Dirceu. Como essa categoria de serviços não é reconhecida e até criminalizada, embora praticada intensamente, é mascarada como consultoria, contaminando a real atividade.

Foram contratos formais, legais, com faturamento transparente para justificar as despesas do ex-Ministro da Casa Civil, fora do Governo. Já conhecidas e não escondidas, mas não evidenciadas pela mídia.

José Dirceu, embora ainda cumprindo prisão domiciliar está tentando retomar o protagonismo político, criticando a política econômica - que não é nova, mas a velha - no seu blog e reunindo "companheiros" para formar uma facção, contrária à Dilma. 

Como derrubá-la do poder só ajuda a oposição, a alternativa é "sequestrá-la" e tornar refém dessa nova facção, comandada por JD.

A reação da turma da Dilma, foi imediata. Por mais um dessas coincidências, logo depois das iniciativas de José Dirceu, foram vazadas as supostas informações confidenciais, que estariam nas delações premiadas, dos contratos das empresas denunciadas na Operação Lava-Jato com a firma JD. O objetivo é claro e usual: desconstruir a credibilidade do adversário: evitar a reemergência da liderança de José Dirceu. 

Reclama-se muito da pouca ação da oposição diante da conjuntura atual. Mas parafraseando um dito tradicional, para uma situação que briga tanto internamente entre os amigos, não precisa de uma oposição, como inimiga.


quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Não falta água suja

A decisão do Governo de São Paulo em usar a água da represa Billings indica que, na Região Metropolitana de São Paulo, apesar da estiagem não falta água. O que falta é água limpa.

Tem chovido pouco, no geral, mas concentrado e intenso, com temporais que dão a sensação de que "o mundo vai acabar". Mas o nível das represas continua baixando. Isso porque a demanda continua alta.

A água tem um ciclo que todo estudante conhece na escola: a água evapora, forma nuvens e volta na forma de chuva. Só que não nos mesmos locais.

A água que a chuva traz, uma parte some por evaporação. O intenso calor ajuda a aumentar a evaporação e os níveis das represas caem mais rápidos.

Mas o que não evapora e é usado pela produção, pelas pessoas e pela irrigação, para onde vai? As estatísticas mostram muito o uso da água, o que não quer dizer, necessariamente, seu fim. A irrigação, que é um dos principais usos, segundo as estatísticas, significa que o irrigante tira a água de um corpo d'água, para molhar o solo e essa água se infiltra e vai para o lençol freático, que nada mais é que uma represa subterrânea de água. De onde o irrigante pode retirar a água, mediante poços. Há um ciclo, onde a saída final da água é muito menor do que o uso contabilizado. A irrigação é um mecanismo de compensação, com baixo consumo definitivo da água. As estatísticas não mostram o uso líquido.

As pessoas usam e consomem a água. O que acontece com a água do banho? Tira a sujeira e suor do corpo, misturado com o sabonete, shampoo e outros elementos, vai para o ralo e depois? Vai para o córrego, para o rio e, em São Paulo, grande parte acaba na represa Billings. Outra parte vai para a Estação de Tratamento de Esgotos e uma vez processado, volta ao Rio e segue para o interior. No primeiro caso a água não sai imediatamente da região. Mas depois vai para o mar, onde o sal do oceano a salga e a torna imprópria para beber. 

Uma outra parte da água disponível é consumida pelas pessoas, pela bebida. Mas ela é retornada sob forma de urina. A perda líquida da água é sempre menor do que a demanda. Mas com uma diferença fundamental: o homem consome água limpa e devolve ela suja. Para que ela possa novamente ser consumida é preciso um processo de tratamento. Quanto mais suja, maior a necessidade de tratamento. Mas a mesma água, o mesmo litro de água que a chuva traz pode ser utilizada diversas vezes. O melhor exemplo é dado por Israel, com um território com pouca, muita pouca água.

O ciclo pode ser desenvolvido em circuitos curtos ou longos. O melhor circuito curto é o aproveitamento domiciliar da água de chuva. O longo é o feito pelas empresas de saneamento. Isso requer muito mais investimentos e tecnologia.  Foram adiados, agora não podem ser mais.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

A culpa é do Jorge Ben Jor


"Chove chuva, chove sem parar. Pois eu vou fazer uma prece. Prá Deus, nosso Senhor Prá chuva parar".
Deus que seria brasileiro, resolveu atendê-lo e ficamos sem chuvas.
Falta água para as torneiras, falta água para gerar energia. O que era uma bênção de Deus fazendo do Brasil o campeão da geração de eletricidade com fontes renováveis virou um pesadelo. A água já não é tão renovável quando se pensava.
A seca atual no Brasil é inusitada. Nunca houve antes neste pais. E o país não se preparou para a ocorrência. Não acreditou na possibilidade de ocorrência. No caso de energia foram planejadas diversas grandes obras que atrasaram. Por diversos motivos e agora se colocam as culpas nos índios, nos ambientalistas, nos trabalhadores que destruíram canteiros de obras e outros. 

O apagão da segunda feira foi preventivo. O Operador Nacional do Sistema Elétrico determinou o corte de suprimento por diversas distribuidoras dado um desequilibrio momentâneo entre demanda e oferta. Foi um "apaguinho" controlado para evitar um "apagão" maior, mais generalizado e com maior tempo de recuperação. O ONS agiu certo e foi competente. As razões do pico da demanda são explicáveis. Teria sido o calor e a ligação simultânea de aparelhos de ar condicionado e outros para referescar. A origem de uma queda de demanda, ainda está para ser explicada. Mas seguramente houve uma queda em alguma seção e o o ONS tomou a medida para evitar uma propagação não controlada. Para o público, em geral, é difícil explicar.  Mas o mais difícil é aceitar. 

O coordenador do ONS veio a público para explicar e o fez sem viés político, mas com o viés tecnocrático, pouco explicativo. Não foram explicações para leigos. Isso caberia ao Ministro de Minas Energia ou ao porta-voz oficial do Governo e à mídia. Mas o Governo logo coloca um viés eleitoreiro. Apagão é estigmatizado. Não pode nem ser pronunciado. 

Para entender pode se tomar um exemplo doméstico. Quando começam os trovões e os raios, a pessoa prevenida desliga a televisão ou a geladeira, tira o plug da tomada. Quando passa a tempestade ele recoloca o plug, liga os aparelhos e volta ao normal. Se não fizer isso, há o risco de uma queda de energia, com uma recuperação bruscas e o aparelho queima. Leverá hora ou dias para recuperar, além dos custos e das brigas com a concessionária para conseguir indenizações.  O ONS tirou o plug de várias distribuidoras da tomada. E a Eletropaulo desligou o da linha 4 do metrô de São Paulo. Simples assim.

A mídia não quer explicar, só quer fazer escândalo. Supõe que, quanto maior, mais chama atenção e "venda do jornal". 

A questão fundamental é saber se continuamos sob risco de falta de água e de luz. Estamos. Se chover sem parar a água encobrirá todas as incompetências. E a água e a luz não faltarão no primeiro semestre. 

Mas continuamos sob grave risco para o segundo semestre. 

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Tudo dentro do prometido

O anúncio feito pelo Ministro Levy sobre aumento de impostos não foi agradável, porém sem surpresas. Ninguém gosta de pagar mais impostos, mas a opinião publicada já estava mais que esperando. Estava exigindo, como prova de seriedade. O Governo não deveria recuar no propósito de ajudar as contas, ainda que com medidas dolorosas. 


Só Deus não ajudou. Depois do 1 x 7, seguindo de outros tantos vexames ele teria desistido de ser brasileiro. Aumentou um pouco mais o calor o que desencadeou um apagão. Para agravar a incompetência governamental.


E pegou o metrô, a linha 4, a mais moderna de São Paulo, o símbolo do serviço eficiente e sem falhas para as pessoas deixarem o carro em casa e usarem o transporte coletivo.

Ficou ainda uma incógnita. Ele abriu todo o seu saco de maldades ou vai lançar por partes? Segundo uma visão estratégica teria sido o pacote todo de 2015, mas que dependerá da reação dos demais agentes econômicos.


A maior preocupação é com o repique inflacionário, com o reajuste dos preços que os demais agentes vão fazer e as negociações trabalhistas. 


O  ajuste deverá ser feito com a estagnação econômica. Se houver um crescimento tópico da demanda, com compras preventivas, voltará a cultura inflacionária. Se o consumidor se conformar e aceitar que os tempos são outros, com um patamar de preços mais altos, mas que com isso a vida vai melhorar, os que aumentarem os preços correm o risco de não vender.


De toda forma haverá um aumento geral dos índices inflacionários e uma parada na economia.


Muitos sonhos pessoais vão se frustrar. 


Mas seriam os remédios amargos para acertar os rumos em direção ao crescimento.


O problema maior será dos movimentos sindicais para os reajustes salariais. 


Haverá muita mobilização, muitas greves, mas com poucas exceções os trabalhadores conseguirão reajustes acima da inflação.



O que estará em jogo será mais a manutenção dos empregos, do que os reajustes. O caso da Volkswagen foi uma amostra. 

O futuro da economia brasileira dependerá, como sempre, do comportamento do consumidor nacional.



segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Mudança na barganha

A Volkswagen voltou atrás, nas demissões, sem nada ter conseguido de benefício do Governo, como das outras vezes. É o que diz o noticiário na mídia, a partir de informações dos sindicatos.
Não é o que parece. Para manter os empregos ela se dispõe a produzir novos carros, a partir de um novo chassis (que tem sido caracterizado como plataforma. A diferença é que essa unidade será mesmo uma plataforma de exportação. Ou seja, não será para o mercado interno e Mercosul, mas para o mundo. Ou melhor, para as outras unidades mundiais da própria Volkswagen.
Isso significa uma mudança de 180º graus na política industrial brasileira. Significa aceitar, com estímulos governamentais, plataforma de exportação, um estigma para os nacionais-desenvolvimentistas.
A Volkswagen recuou e vai seguir agora as negociações com o Governo. Para melhorar as condições de viabilização do seu empreendimento e para as exportações. Esse vai confirmar?

O Governo não precisa esperar pelo novo carro mundial da VW a ser produzido no Brasil. Pode negociar as condições para a exportação do excedente que está nos páteos da empresa.

Onde estão os problemas?

O mais importante era o câmbio defasado. Agora está menos. Ainda um pouco defasado segundo as avaliações internacionais. Não basta o ajuste. A empresa quer segurança: segurança de que por qualquer "dor de barriga" o Governo não iria mudar a orientação e intervir no câmbio. Um dos principais problemas do primeiro mandato de Dilma era que ela e Mântega não inspiravam confiança em relação à permanência ou continuidade das políticas. Com a nova equipe econômica há maior segurança. A Volkswagen como as demais podem acertar contratos com a sua matriz e outras subsidiárias em todo o mundo um suprimento ao longo de 12, 20 ou mais meses, com um câmbio flutuante, mas segundo as circunstâncias do mercado internacional e não por intervenções governamentais, sempre desastradas.

O tratamento tributário é outra questão, para evitar bi ou multi-tributação, além da exportação - ainda que embutida - de tributos, quando a regra universal é que não se exportam tributos.

Há ainda os problemas burocráticos. O Governo quer que as empresas exportem, mas não facilitam os procedimentos e a documentação. Muitas exigências são descabidas, algumas com fundamentos ideológicos. A esquerda é contra a exportação por empresas multinacionais. Ainda mais quando a exportação é feita para outra unidade da mesma empresa.

A desconfiança inicial é de que a exportação está sendo subfaturada, para transferir os lucros para a matriz, sem o devido pagamentos dos tributos nacionais. E as exigências que a empresa tem que cumprir para demonstrar que não existe subfaturamento, dificultam e atrasam as exportações. Há casos, de outras multinacionais que desistiram de exportar e reduziram a sua produção no Brasil, com demissões de trabalhadores.

Uma questão é a competitividade comparativa internacionalmente. Existem duas dimensões: a interna e a externa. 

Na dimensão interna se dirá que a fábrica brasileira da multinacional é menos competitiva que a sua similar em outro país porque tem menor produtividade, é menos moderna, tem menos inovação e o custo da mão-de-obra é mais alto. Se a unidade brasileira é menos produtiva a responsabilidade é do próprio grupo empresarial que não a dotou das modernas tecnologias e equipamentos e não capacitou adequadamente a mão-de-obra. Para os cargos chaves não trouxe os melhores ou os bons, a partir de qualquer país. Quanto ao custo da mão-de-obra se coloca muito a culpa nos encargos sociais, mas o que interessa é o custo total. Como os salários base são menores, os custos finais do trabalhador são mais baixos do que de muitas das outras fábricas da própria Volkswagen no mundo. Quando se considera a cadeia produtiva as comparações não podem ser por médias nacionais, mas por médias das próprias empresas que gerem as cadeias produtivas. 

Reiteramos aqui: as cadeias produtivas tem nome e sobrenome. Não são genéricas. Qualquer comparação de competitividade não pode ser feita segundo os países onde estão estabelecidas, mas entre unidades do próprio grupo empresarial.

As comparações nacionais podem ser feitas com relação às políticas econômicas, os procedimentos burocráticos, já citados e a infraestrutura logística. Reclama-se muito das más condições da rede rodoviária brasileira que elevaria os custos. Mas as fábricas das montadoras automobilísticas, em geral, estão dentro da parte boa da malha, com rodovias de classe mundial. Não se perde competitividade por conta desse quesito a menos na questão comercial: os transportadores rodoviários cobram muito caro. Mas é dos outros.
O gargalo real está nos portos que ainda são ineficientes e trabalham com custos elevados.

Se o Governo, realmente acha, que a solução para a crise da indústria automobilística brasileira é aumentar a exportação, precisa resolver a questão dos portos, do ponto de vista físico e burocrático.

Mas antes de tudo entender que não existe indústria automobilística brasileira, mas uma indústria automobilística mundial instalada no Brasil. Não se trata de um mero jogo de palavras, entre brasileiro e no Brasil, mas uma diferença essencial de tratamento e de resultados.

PS - Essa discussão é tradicional dentro da esquerda brasileira. Dai a cisão do Partido Comunista Brasileiro (o antigo partidão) e a criação do Partido Comunista do Brasil.

domingo, 18 de janeiro de 2015

A estigmatização do racionamento


A partir do uso político-eleitoral do racionamento de energia elétrica, adotado em 2001, ficou estigmatizado e os governantes evitam usar o termo e muito menos adotá-lo, como medida compulsória.
Isso gerou uma forte rejeição da população ao racionamento, ainda que poucos saibam o que isso efetivamente significa.
Racionamento é uma redução do uso, podendo ser voluntário, forçado, indireto ou compulsório.

O racionamento voluntário é o feito pelo próprio consumidor podendo ser:
Por consciência, quando  consumidor faz a redução por decisão pessoal, independentemente de fatores externos;
Induzido, quando a redução é premiada por descontos na sua conta, como faz a SABESP.

Para forçar o menos consumo da água, o Governo pode optar pela cobrança de sobretaxas sobre o aumento de consumo, ou o consumo excessivo.
Isso é interpretado como multa, cuja legalidade é discutível, mas é na realidade um sobrevalor tarifário, o que é legal.

Racionamento indireto
O gerenciamento da operação de distribuição da água varia as pressões, em função dos níveis de consumo, de forma a evitar rupturas na canalização e outras perdas.
Isso é feito, normalmente,  no período noturno, quando o consumo é menor, com as pessoas já dormindo.
Ao reduzir mais a pressão e ampliar os períodos de pressão mais baixa, a SABESP promoveu um racionamento indireto,  recebendo reclamações generalizadas.
O maior problema do racionamento indireto é o baixo grau de transparência.
Por ser uma medida usual o Governo não avisa com antecedência aos moradores e demais consumidores, tampouco reconhece como racionamento.
Gera a interrupção ou a redução do suprimento durante um pequeno período, mas é negado como racionamento.

Todas as variações bruscas de pressão da água aumentam os riscos de ruptura das tubulações ou conexões e abertura de vazamentos.
Quando ocorre o vazamento, para o seu conserto a concessionária tem que fechar o suprimento da área, gerando a falta da água nas torneiras das casas.
A redução da pressão e o retorno dessa gerarm maior incidência de vazamentos, com o prolongamento da falta de água, reclamada por muitos moradores, com cobertura da mídia.                         

O racionamento formal: cortes em rodízio
O racionamento formal, reconhecido institucionalmente, é o corte programado,  devidamente comunicado, da suspensão temporária do fornecimento.
Os cortes são feitos por área segundo rodízio, ao longo da semana ou do mês.

A energia elétrica não pode ser estocada domiciliarmente.
Já a água pode ser estocada de forma que o usuário pode compensar o dia sem água, acumulando o dobro.
O resultado final pode não ser a redução do consumo.
Dai a combinação entre o racionamento por rodízio com a sobretaxa por aumento ou excesso de consumo.

Não tem faltado estudos, diagnósticos e proposições, mas tem faltado decisões:
Planejar não é apenas levantar informações, estudar, diagnosticar e propor tecnicamente.
Planejar é decidir por antecipação e, como tal, é um ato de poder.
Os governantes tem hesitado na tomada de decisões e é a falta de decisões que tem sido objeto de criticas da oposição política, dos usuários e da sociedade.
     
Os estudos já apontavam para os riscos na Região Metropolitana de São Paulo.
Além da limitação de capacidade dos sistemas atuais para o atendimento pleno da demanda, da forte dependência do Sistema Cantareira, havia o risco de repetição da forte e prolongada estiagem ocorrida nos anos 50.
Infelizmente a estiagem atual está sendo pior do que dos 50.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Os projetos nacionais distintos

O PT quer ficar no poder por um longo tempo para implantar um projeto de eliminação da pobreza e reduzir a desigualdade social. 

Acredita, plenamente, que só ele tem  condições de implantar esse projeto nacional e que o PSDB, seu principal concorrente, não mostrou condições de sua viabilização e que suas prioridades são outras. 

A visão do PSDB é que o combate à pobreza só terá êxito com o crescimento econômico. 

A concepção do PT é que deve se distribuir o bolo que já existe, sem esperar que ele cresça mais. E para fazer com que cresça sem sacrificar a distribuição, deve haver uma participação mais intensa do Estado.

Acredita que essa distribuição fará o bolo crescer mais ainda, como ocorreu durante o Governo Lula. E mais ainda, acredita que esse modelo se contrapõe ao néo-liberal e evitar crises como a que foi iniciada em 2008, com a quebra de um grande banco norte-americano com ramificações internacionais.

Ao contrário do que se divulga que o Brasil carece de um projeto nacional, existem dois, que são divergentes. Não são caracterizadas com projetos e envolvam todas as dimensões, mas existem como rumos principais para o país.

O problema é o que os projetos são maculados por uma disputa de poder, que obscurece os elementos programáticos. 

A opinião publicada, influenciada pela chamada grande imprensa não entende, não quer entender o projeto petista e, avaliando pela ótica néo-liberal, acha que está baseada num diagnóstico e instrumentos equivocados. O que é um diagnóstico equivocado.

Os fatos reais é que os objetivos dos dois projetos são distintos e não podem ser avaliado pela sua ótica própria. É como a torcida corintiana analisado o jogo do Palmeiras. Mesmo que esse ganhe a análise será sempre negativa, considerando que jogou e só ganhou por sorte. E se o time adversário perder vai logo dizer que o time não presta e não sabe jogar.

O projeto petista deu certo no seu principal objetivo, de caráter social, e também econômico, num primeiro momento, mas não se sustentou, fracassando num segundo momento. 

O modelo petista começou a ser implantado ainda no primeiro governo Lula, sem abandonar a herança do modelo néo-liberal baseado no chamado "tripê macro-econômico" e aproveitando um superavit fiscal deu início à expansão do bolsa-família e da assistência social aos "desvalidos" (conforme estabelecido na Constituição Federal, de 1988 e até então pouco efetivado). Começou a tirar grandes massas de  brasileiros da miséria e da pobreza e injetou um grande volume de recursos, amplamente multiplicados por essa população, até então fora do mercado de consumo formal. Isso transferiu os recursos para uma classe média baixa, de comerciante e prestadores de serviços populares, e pequenas indústrias de fornecimento local. Com a melhoria da renda direta, esses beneficiários indiretos foram buscar o crédito bancário não só para financiar as suas atividades econômicas, como para melhoria da sua condição de vida.

Esse processo foi complementado pela melhoria do salário mínimo e das facilidades de crédito, ampliando a capacidade de consumo de grande parte da população brasileira. Que continuou ganhando pouco, em termos per-capita, porém pelo seu volume representava um grande movimento econômico.

Ao contrário do que imaginam os economistas néo-liberais que só há crescimento com investimentos e que aumento de consumo só gera inflação, o primeiro governo Lula mostrou que o aumento do consumo interno era a melhor política anti-ciclica e que isso poderia ocorrer sem estouro da inflação, com o mercado aberto para as exportações para substituir eventuais produtos com elevação excessiva de preços. 

Embora as taxas globais de investimentos refletidos no PIB não aumentassem tanto, o fato é que as indústrias multinacionais e também as nacionais investiram no aumento de produção dos produtos de massa, seja no marketing (que aparece como serviços) como na fabricação. O iogurte foi o grande símbolo da inserção da pobreza no mercado de consumo, embora não tenha sido o principal. Foi, efetivamente, o escolhido pela mídia.

O fato é que deu certo. "Pura sorte" disseram os adversários. Mas sorte também faz parte do processo. A principal sorte teria sido uma razoável estabilidade cambial, após as grandes oscilações do mercado com as incertezas do seu governo. Não foi obrigado a intervenções radicais.

Lula se reelegeu, com base no sucesso do seu programa sócio-econômico, contrapondo-se a uma ameaça de retorno ao modelo anterior, com perda dos benefícios sociais.

Para manter o superavit fiscal, assegurando o pagamento dos juros da dívida, a par da expansão dos programas sociais, da expansão, melhoria de remuneração dos servidores públicos e recusando a participação privada nas ações e investimentos públicos, pouco desenvolveu os investimentos em infraestrutura, já contidos também nos governos FHC por carência de recursos. 

Os impactos efetivos do aumento da carga fiscal só vieram a ocorrer já no Governo Lula que passou a contar com maiores superávits reais (receita - despesas correntes) incluindo a redução da dívida pública líquida em relação ao PIB.

Então, ainda em 2006, já reeleito buscou nos dois macro planos de investimentos elaborados pelo Governo FHC, para o Plano  Plurianual, previsto constitucionalmente, uma lista de investimentos e lançou o PAC - Plano de Aceleração do Crescimento. 

Os investimentos resolveriam os gargalos que supostamente estariam obstacularizando o crescimento e aumentaria a taxa global de investimentos, reclamada por todos os economistas, tanto os neoliberais como os heterodoxos.

Para gerenciar o programa chamou a que considerava a supergerente, a mais competente de todos e todas, caracterizando-a como a "Mãe do PAC": Dilma Rousseff. 

Fez uma concessão política restrita aos princípios, retomando e concretizando a concessão de rodovias do chamado lote 2, que havia sido iniciada pelo Governo FHC e obstada pelo TCU. Embora pronta ainda em 2003, com superação das restrições do TCU abortou o processo, com a sua suspensão e demissão do Ministro dos Transporte e do seu Secretário Executivo. (neste caso, não se trata de um comentário, mas um depoimento de quem participou intensamente desse processo e deixou tudo pronto para licitação sair às ruas. Quem foi para fora fui eu junto com as autoridades que queriam fazer).

Voltou mais tarde, com uma profunda alteração no modelo, para diferenciá-la do "modelo tucano". Deu certo parcialmente e estabeleceu novos paradigmas. Alguns erros foram corrigido em outras concessões feitas posteriormente pelo próprio Governo Federal.

O PAC não caminhou conforme o esperado, exceto nos investimentos da Petrobras, especialmente com a constatação das reservas do pré-sal.  Mas hoje se sabe porque esses investimentos foram acelerados. Não foi exatamente para acelerar a produção de petróleo, o que não ocorreu, mas a irrigação de recursos para as caixas dos partidos parece ter se efetivado.

O PAC deu origem à primeira das "pedaladas" nas contas públicas, embora não caracterizada como tal, na ocasião. Excluida legalmente do cálculo do superavit primário, na prática reduz as reservas para o pagamento dos serviços da dívida pública (juros e parcelas de amortização). A exclusão legal não excluiu a obrigação do pagamento dos referidos serviços e da correspondente reserva para isso. Trata-se de mera manobra contábil "para inglês ver". 

Os programa sociais, até então apenas de transferências correntes  foram acrescidas de investimentos com o programa "Minha Casa, Minha Vida", atendendo às reivindicações do setor da construção, ainda com o argumento - já não mais verdadeiro - de ser o principal setor gerador de empregos formais. 

A execução financeira do programa, embora não corrresponda integralmente a novos investimentos, tem inflada a execução do PAC. As obras efetivas continuam atrasadas.

As obras do PAC, incluindo os dos Minha Casa, Minha Vida, tem ainda ajudado a sustentar os níveis de geração de emprego, embora em volume menores e decrescentes  e sem compensar as perdas de emprego da indústria. Sem os empregos do setor, embora decrescentes, o Brasil já estaria sofrendo uma crise de desemprego, o que ainda poderá ocorrer no final do ano, sem afetar os resultados das eleições.

O fato é que os efetivos resultados sociais e econômicos do projeto petista, ainda que incompleto, amplificados pelo marketing político, ajudaram a eleger Dilma Rousseff que, até então, não havia disputado qualquer eleição direta, nem mesmo para centos estudantis. Deu certo na eleição, mas deu errado depois.

Guido Mantega, um economista da turma da Unicamp, o resistente reduto do "estruturalismo", embora deixado por Lula no Ministério da Fazenda, ficava restrito à Fazenda, ou seja, à gestão das contas do Tesouro Nacional, sem poderes efetivos sobre a Receita Federal e sobre a política monetária, a cargo do Presidente do Banco Central, então entregue ao ex-banqueiro e néo-liberal Henrique Meirelles. 

Na prática, dentro da melhor tradição política brasileira, de dualidade Lula mantinha a política econômica néo-liberal, mas desenvolvia dentro dela, uma nova política social, demonstrando aos brasileiros e os mundo a possibilidade de uma politica social de redução da desigualdade social, de eliminação da pobreza e ascensão de uma classe média, com controle da inflação e crescimento econômico global. 

O Brasil, mostrava ao mundo néo-liberal, ainda descrente, mas não ignorado, um novo modelo de condução da humanidade. Alguns mais entusiasmados, aclamaram o Brasil, juntamente, com a China, o alvorecer de um novo mundo.

A herança de Lula, no entanto, foi jogado "no lixo" pela sua sucessora, o "poste" Dilma Rousseff que como a nova imperadora do Brasil exigiu ser tratada como Presidenta. 

Com uma herança positiva na economia, minimizou a ação néo-liberal do Banco Central e, juntamente, com Mântega, ela também economia com tentativas de mestrado e doutorado na Unicamp, ou seja, na escola do cepalismo, tentou implantá-lo no Brasil. Ou melhor, ressuscitá-lo, depois de moribundo desde o golpe militar, pelas mudanças ocorridas no mundo e aparentemente morto com Collor e Ciro Gomes, mantido como tal durante os Governos Itamar e Fernando Henrique, mas, na realidade hibernado.  Foi tirado da tumba nos governos Lula, mas as tentativas de ressuscitá-lo, com a ida de Carlos Lessa para o BNDES, foram evitadas pelas forças néoliberais, representadas na ocasião por Henrique Meirelles e o Ministro da Indústria e Comércio, Fontana.

A ressurreição principal deveria ser da indústria brasileira, enfraquecida, com perdas sucessivas tanto no mercado interno como externo.

A  industrial se baseou na estratégia dos campeões, que fora bem sucedida na Coréia do Sul, na Nova Zelândia, e aparentemente no Japão, em Cingapura e agora na China. 

Para isso confirmou a presidência do BNDES a Luciano Coutinho, outro unicampista que mais político do que Lessa, não enfrentou diretamente o "grão-vizir" de Lula, para economia, Henrique Meirelles.

(continua: o significado da estratégia dos campeões).

Lula, meio livre

Lula está jurídica e politicamente livre, mas não como ele e o PT desejam. Ele não está condenado, mas tampouco inocentado. Ele não está jul...