A sociedade brasileira começou a sair às ruas para manifestar a sua indignação com "tudo que tem de podre ai", principalmente a corrupção, a má qualidade dos serviços públicos de educação e saúde, os gastos com a Copa, na esteira da oposição ao aumento das tarifas de ônibus.
Com um início restrito. espalhou-se rapidamente por todo o Brasil, principalmente nas capitais, levando milhões às ruas. Ainda que percentualmente uma porção pequena de toda população brasileira, hoje predominantemente urbana e metropolizada, ecoada pela mídia, fez "200 milhões" ouvirem a "voz rouca das ruas". As autoridade, principais alvos das manifestações não tem mais como ficar alheio às reivindicações ou proposições. E ai todos aproveitam para colocar a sua colher de pau. Minorias se juntam ao conjunto para tentarem ser vistas.
As manifestações de ontem serviram para avisar às autoridade que a sociedade continua atenta e que se não cumprirem uma agenda mínima voltarão sucessivamente às ruas e manterão a pressão: particularmente em cima dos congressistas que terão que enfrentar uma reeleição daqui a pouco mais de um ano.Fora as datas "extraordinárias" 15 de novembro será outra data marcante, apesar de ser uma sexta-feira de um fim de semana prolongado.
O volume de manifestantes diminuiu sensivelmente e a expectativa dos telespectadores e dos leitores é mais com o vandalismo e a repressão policial do que com as manifestações em si.
A violência policial e dos blackblocs e de outros extremistas passa a tomar conta da cena.
O chavão da imprensa, nem precisa esperar os acontecimentos: diz ou escreve logo: uma manifestação que começou pacífica, termina em tumulto.
As autoridades foram lenientes com os vândalos, em nome do direito e liberdade de manifestação. Não souberam agir diante do excesso e extravasamento desse direito. Agora com o apoio da Justiça, passaram a agir contra eles. Com a polícia, que só está treinada a reprimir com violência.
De um lado essa repressão traz mais apoio, com o aumento quantitativo dos manifestantes, como se viu em junho. Mas, num segundo momento traz o medo e a retração da maior parte da sociedade. Deixam de ir às ruas protestar, com medo da violência. Correm o risco de ficar no meio dos confrontos. Isso leva ao esvaziamento das grandes manifestações que vão ficando restrito a pequenos grupos e a reivindicações específicas, com mobilizações a alto custo.
Por outro lado, os grupos radicais ou fundamentalistas vão desviando o foco das manifestações. Armam-se para o confronto, enfrentam a polícia e acabam tendo alguns membros presos. Ai os demais mudam o foco para defender e libertar os seus presos.
As razões iniciais das manifestações ficam perdidas.
As autoridade alvo das manifestações medem o impacto dessas pelo que a mídia mostra.
Não acompanham cotidianamente as redes sociais, a menos que alertados. O que vale é a versão dos seus jornais preferidos e a televisão. Esta enviesada pela noção de que os assuntos policiais tem mais interesse da população, mostram mais as cenas de vandalismo e os confrontos do que a parte pacífica das manifestações. Essa já não é "mais notícia".
Se não houver perspectiva de confronto, a mídia nem pauta mais.
Ver o que não é mostrado - Enxergar o que está mostrado Ler o que não está escrito Ouvir o que não é dito - Entender o que está escrito ou dito
domingo, 8 de setembro de 2013
sábado, 7 de setembro de 2013
Beyoncée salvará o Castelão?
Para justificar a construção ou reforma de modernos estádios para a Copa alegou-se que esses não serviriam apenas para jogos de futebol, mas também para grandes shows e outros eventos de grande público, tornando-se uma arena multiuso.
Em todos os estádios já abertos, em função da Copa das Confederações, tem sido realizados grandes shows, tanto nacionais como internacionais.
Há algumas semanas atrás, passando por Recife, era a véspera de um grande e múltiplo show nacional, com a apresentação e gravação do novo disco de Cláudia Lette. Ela justificava todo o aparato montado para "O mais espetáculo do mundo", o nome do evento. Era um evento para grande público, mas esse só correspondeu parcialmente. Não chegou a lotar a arena. E a maior demanda do público não foi a loira cantora, promovida pela TV, mas a funkeira Anitta. A última a se apresentar já de madrugada, com o público permanecendo.
Por coincidência, estive em Fortaleza esta semana e me deparei, pelo menos na imprensa, com a ansiedade pelo primeiro show da turnê brasileira de Beyoncée.
Com as novas arenas Fortaleza e Brasília entraram para o circuito dos mega-shows internacionais. Antes não tinham sequer localidade para receber grandes públicos. Minas já tinha alguns antecedentes e agora tem o Mineirão inteiramente reformado, que já recebeu Elton John, com casa cheia. O Rio de Janeiro já era referência. Recife e Salvador parecem perder para Fortaleza.
Nessa estada por Fortaleza, percebi o que seria o diferencial de Fortaleza, em relação às duas outras capitais nordestinas, com novas arenas multiuso. O "povo" de Fortaleza estava mais preocupado com os problemas no trânsito no dia do show. Tiveram enormes congestionamentos quando Paul McCartney se apresentou no Castelão, com lotação total.
A ansiedade maior estava entre os ricos, pelo menos, nas colunas sociais.
Beyoncée, como uma pop-star, parece agitar e mobilizar toda a riqueza que quer estar presente para ver, mas principalmente, ser vista.
O empresário produtor do evento local faz parte da elite. O seu diálogo com os empresários da cantora é de alto nível, onde os investimentos para a apresentação do show, assim como para o atendimento dos caprichos da diva não são economizados e prontamente atendidos. O investimento é elevado, mas a perspectiva de se pagar é com os ingressos mais caros. O grande público é mais um elemento de convencimento para a apresentação da cantora. E nesse sentido, Fortaleza desenvolveu uma boa estratégia. Trouxe, inicialmente, Paul McCartney, para um único show no Brasil, em Fortaleza, sucesso certo e passou a ser o cartão postal para mostar aos demais que a capital cearense tem um grande público para shows. E conta para isso o apoio do jovem governador Cid Gomes, presente em todos esses. E estaria, ainda pagando parte da conta, para que o "povo" tenha um valor de ingresso menor. Um "povo" que não é o povo que não tem condições de desmbolsar o equivalente a pouco mais do que dois salários mínimos mensais, para uma cadeira superior, bem longe do palco.
O show internacional é para os abastados, complementado por uma classe média. Quantos eventos por ano, essa demanda tem interesse em acompanhar?
Os resultados econômicos não são divulgados, mas supõe-se que nos casos concretos de Fortaleza, sejam rentáveis. Contratualmente o concessionário da arena tem uma participação na bilheteria, superior aos dos jogos de futebol. Mas terá eventos em número suficiente para cobrir os seus custos? E o Governo do Estado que já pagou o investimento na reforma e tem que amortizar o financiamento do BNDES o que irá ganhar com o mega-show?
Com enormes investimentos e gastos comerciais e operacionais, tanto em arenas como na atração de eventos internacionais, Fortaleza e outras capitais com arenas multiuso estão se transformando num "lugar no mundo", percebida pela classe média alta, mundial e até mesmo pela classe alta. O coração do turismo emissor, de âmbito mundial.
Está o Brasil se preparando para auferir os benefícios?
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
Miopia num mundo globalizado
Há um grande consenso dentro da opinião publicada de que estamos num mundo globalizado. Mas ao tratar do planejamento ou apenas da reflexão sobre o futuro da cidade poucos avaliam o seu papel nesse mundo.
Ter um papel no mundo significa estar conectado fisica ou virtualmente com outras partes do mundo, sendo a cidade tanto mais globalizada quanto for a quantidade (e também a qualidade) dessas conexões.
Pode ser a base de uma produção industrial de âmbito mundial, como de serviços ou de idéias. Pode ser um ponto logístico relevante, dentro de um grande fluxo mundial.
Mas ao discutir o futuro da cidade predominam as visões provincianas, focadas no desenho físico da cidade e a da (i)mobilidade, com a perspectiva do dia-a-dia ou do curto prazo.
Quais são as oportunidades de Fortaleza, no Ceará, ser um lugar no mundo? Quais seriam as suas vocações ou vantagens competitivas?
Neste momento (06/09/2013) estou em Fortaleza, no Hotel Gran Marquise, instado a sair dentro do programado, sem qualquer possibilidade de extensão, porque chega a Beyoncée e sua trupe, assim como turistas que vem para vê-la, no Castelão, no próximo domingo.
Com a nova arena, Fortaleza já se tornou um ponto importante para os shows internacionais. Já recebeu Paul McCartney e agora Beyoncée. Pela cidade também passou a Jennifer Lopes.
Ser uma das poucas cidades escolhidas para os eventos internacionais, torna Fortaleza, um ponto conhecido no mundo, de forma sustentável?
O que a cidade ganha com isso? Ou, de outro lado, o que pode perder?
Esses shows são forma de captação da renda local. Os que pagam os ingressos, destinam uma parte da sua renda pessoal, para formar um "bolo de dinheiro" do qual a maior parte vai para o exterior. É uma forma de importação.eiro
A hotelaria e a gastronomia local, capta uma parte dessa renda e ainda ganha com a vinda de turistas de outras localidade que virão para assistí-la. Nesse caso, economicamente significa uma exportação. Para a cidade o balanço será positivo. Se os turistas forem todos brasileiros, haverá uma compensação regional, com resultado nacional negativo. Os promotores levarão mais dinheiro do país do que trarão.
Mas a repercussão internacional da presença de uma pop star pode gerar o interesse de fans e de outros pela cidade. Da mesma forma que jogos da Copa das Confederações, já ocorridos, e da Copa do Mundo, em 2014, podem gerar.
Os eventos internacionais são uma forma de tornar a cidade mais conhecida internacionalmente. Mas o que ela ganha com isso?
Ganhará se souber se transformar num significativo polo de atração para o turismo internacional. Não apenas dos turistas para os eventos, que são esporádicos, mas de fluxos mais permanentes.
O que então, Fortaleza tem a oferecer de condições competitivas aos turistas internacionais. Que turistas, de que origem, com que recursos?
Para o show de Beyoncée, Fortaleza poderia receber turistas da Venezuela, Colômbia e de outros paises vizinhos ao Norte, mas essa demanda deverá estar prejudicada por questões logísticas. Esses turistas terão que se deslocar até Brasilia, São Paulo ou Rio de Janeiro, para chegar a Fortaleza.
Fortaleza tem uma excepcional posição geográfica em relação ao grandes centros emissores do turismo internacional, mas não transforma essa vantagem teórica em vantagem real: o que importa é ser um ponto logístico relevante.
Não adiante reformar e embelezar o aeroporto, sem ter voos, sejam nacionais como internacionais.
Não adianta estar próxima da Europa, sem porto adequado.
Não adianta estar próxima ao Caribe se as operadoras não estendem as suas rotas até Fortaleza.
Fortaleza e entorno tem belezas naturais. Mas quais são os seus diferenciais em relação a outros litorais?
O Ceará é o principal ponto de conexão dos cabos submarinos que permitem a conexão internacional de dados, mas não conseguiu montar um polo tecnológico, perdendo a oportunidade para o Recife.
São apenas algumas questões para reflexão e avaliação.
O futuro de Fortaleza não está na resolução de problemas domésticos, mas de uma opção fundamental: continuar sendo apenas, embora importante, ponto turístico nacional ou buscar ser um ponto importante do turismo internacional.
E apenas para registro, para reflexões posteriores: que vantagens o Ceará poderá auferir do sol e do vento, como fontes de energia?
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
Tirando a máscara
O resultado intermediário da desastrada ação dos deputados no caso da não cassação de Natal Donadon foi o esperado. Tiraram da gaveta a PEC do fim da votação secreta e a aprovaram por unanimidade, mas com algumas ausências significativas.
Nenhum dos deputados presentes quis se arriscar a ter que explicar aos seus eleitores que teriam votado contra. Com a unanimidade todos os presentes estão salvos. Já os ausentes dificilmente voltarão ao Congresso em 2015, mesmo um Maluf, campeão de votos, com um eleitorado fiel suficiente para elegê-lo apesar de toda contestação. O risco é que ele seja escolhido como o grande judas a ser malhado e se esqueçam dos outros.
A PEC já havia sido aprovada em primeira votação em 2006, sendo a de ontem a segunda, sendo pois encaminhada ao Senado, onde haverá novas tentativas de postergação. Os senadores vão avaliar a repercussão dos movimentos programados para o dia 7 de setembro.
2/3 dos senadores não terão que enfrentar as urnas em 2014. Tentarão postergar a votação da PEC, contando com as manobras do seu atual Presidente Renan Calheiros.
Só a pressão popular fará com que eles acelerem a votação.
A avaliação dos Senadores é sobre os riscos do "pacote" de restruturação do Senado que envolve ainda duas medidas: a redução do número de senadores, para 2 por Estado, como antes da manobra da ditadura militar e a eliminação da figura do suplente.
Poderão tentar "vender caro" o fim do voto secreto, para preservar os dois itens adicionais. O risco é que a reação popular leve à aprovação do pacote.
A mobilização da sociedade para e no dia 7 será fundamental para a avaliação dos senadores. Se o fim do voto secreto, redução do número de senadores e fim dos suplentes sem voto estiverem explicitamente na pauta dos movimentos os Senadores se sentirão acuados. Se as reivindicações forem genérica, como reforma política ou a mobilização for pequena, Renan se sentirá em condições de postergar a votação.
Só que depois de 7 de setembro haverá o 15 de novembro ou datas intermediárias.
Para o Povo quem "salvou" Donadon foi o Congresso, pois assim a mídia noticiou. Uma parte fez a sua lição de casa. O Povo agora irá cobrar da outra parte. O Senado será um dos principais alvos.
O mais provável é que vote logo em primeiro turno e aguarde o som das ruas, para votar ou não em segundo turno.
Nenhum dos deputados presentes quis se arriscar a ter que explicar aos seus eleitores que teriam votado contra. Com a unanimidade todos os presentes estão salvos. Já os ausentes dificilmente voltarão ao Congresso em 2015, mesmo um Maluf, campeão de votos, com um eleitorado fiel suficiente para elegê-lo apesar de toda contestação. O risco é que ele seja escolhido como o grande judas a ser malhado e se esqueçam dos outros.
A PEC já havia sido aprovada em primeira votação em 2006, sendo a de ontem a segunda, sendo pois encaminhada ao Senado, onde haverá novas tentativas de postergação. Os senadores vão avaliar a repercussão dos movimentos programados para o dia 7 de setembro.
2/3 dos senadores não terão que enfrentar as urnas em 2014. Tentarão postergar a votação da PEC, contando com as manobras do seu atual Presidente Renan Calheiros.
Só a pressão popular fará com que eles acelerem a votação.
A avaliação dos Senadores é sobre os riscos do "pacote" de restruturação do Senado que envolve ainda duas medidas: a redução do número de senadores, para 2 por Estado, como antes da manobra da ditadura militar e a eliminação da figura do suplente.
Poderão tentar "vender caro" o fim do voto secreto, para preservar os dois itens adicionais. O risco é que a reação popular leve à aprovação do pacote.
A mobilização da sociedade para e no dia 7 será fundamental para a avaliação dos senadores. Se o fim do voto secreto, redução do número de senadores e fim dos suplentes sem voto estiverem explicitamente na pauta dos movimentos os Senadores se sentirão acuados. Se as reivindicações forem genérica, como reforma política ou a mobilização for pequena, Renan se sentirá em condições de postergar a votação.
Só que depois de 7 de setembro haverá o 15 de novembro ou datas intermediárias.
Para o Povo quem "salvou" Donadon foi o Congresso, pois assim a mídia noticiou. Uma parte fez a sua lição de casa. O Povo agora irá cobrar da outra parte. O Senado será um dos principais alvos.
O mais provável é que vote logo em primeiro turno e aguarde o som das ruas, para votar ou não em segundo turno.
terça-feira, 3 de setembro de 2013
Tiro no pé (de canhão)
O voto do Ministro Barroso pôs a nu a manobra perpetrada pela Câmara que resultou em efeito contrário ao desejado pelos deputados.
A estratégia era voltada para salvar o mandato dos colegas ou companheiros condenados no processo do mensalão.
Ao insistir na prerrogativa de dar a última palavra sobre a cassação ou não de deputados condenados e não de homologar ou não a decisão do Judiciário, adotou um procedimento errado e se expôs a uma vergonha e gerou uma reação contrária ao pretendido.
O que disse Barroso foi que a mesa da Câmara tinha que ter feito o que - efetivamente - o Presidente fez, após a votação. Considerando que o tempo da prisão era superior ao do mandato, declarou vago o cargo e convocou o suplente.
Donadon não teve o mandato cassado pelos seus pares, mas foi declarado sem os direitos e prerrogativas de Deputado Federal. Ou seja, cassado na prática, e transformado num morto-vivo político.
A votação só faria sentido se a pena em regime fechado fosse menor que o do mandato ou fosse em regime semi-aberto permitindo ao deputado frequentar o Congresso durante o dia.
A consequência da desastrada manobra foi provocar - supostamente - a aceleração do processo de eliminação do voto secreto no Congresso, medida prevista em PEC que os congressistas tenham manter na gaveta. A menos de uma total desmobilização popular, com uma nova fase de leniência da sociedade, o voto secreto irá acabar, não mais sendo adotada para o processo dos mensaleiros cuja condenação ainda permite o exercicio, ainda que parcial, do mandato.
O Ministro Barroso ainda deu uma oportunidade à Câmara para corrigir o erro, pelo menos formalmente. Anulou a sessão: assim pode haver outra votação, embora desnecessária, para aprovar a cassação formal.
Mas o estrago já está feito.
A estratégia era voltada para salvar o mandato dos colegas ou companheiros condenados no processo do mensalão.
Ao insistir na prerrogativa de dar a última palavra sobre a cassação ou não de deputados condenados e não de homologar ou não a decisão do Judiciário, adotou um procedimento errado e se expôs a uma vergonha e gerou uma reação contrária ao pretendido.
O que disse Barroso foi que a mesa da Câmara tinha que ter feito o que - efetivamente - o Presidente fez, após a votação. Considerando que o tempo da prisão era superior ao do mandato, declarou vago o cargo e convocou o suplente.
Donadon não teve o mandato cassado pelos seus pares, mas foi declarado sem os direitos e prerrogativas de Deputado Federal. Ou seja, cassado na prática, e transformado num morto-vivo político.
A votação só faria sentido se a pena em regime fechado fosse menor que o do mandato ou fosse em regime semi-aberto permitindo ao deputado frequentar o Congresso durante o dia.
A consequência da desastrada manobra foi provocar - supostamente - a aceleração do processo de eliminação do voto secreto no Congresso, medida prevista em PEC que os congressistas tenham manter na gaveta. A menos de uma total desmobilização popular, com uma nova fase de leniência da sociedade, o voto secreto irá acabar, não mais sendo adotada para o processo dos mensaleiros cuja condenação ainda permite o exercicio, ainda que parcial, do mandato.
O Ministro Barroso ainda deu uma oportunidade à Câmara para corrigir o erro, pelo menos formalmente. Anulou a sessão: assim pode haver outra votação, embora desnecessária, para aprovar a cassação formal.
Mas o estrago já está feito.
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
Inteligência Estratégica - o que vem a ser?
Inteligência, estratégia são expressões cada vez mais comuns. E usados indevidamente. Volta e meia temos que refletir sobre o que significa o que estamos fazendo, supondo que estamos usando os termos no sentido correto.
Em primeiro lugar, o estrategista nunca pode ter um pensamento linear. Definir ou perceber um objetivo, traçar um rumo de como alcançá-lo e sair desembestado pelo mesmo, avaliando que no caminho terá obstáculos (ou ameaças) e facilidades (oportunidades) e que tem forças suficientes para superá-los ou usá-los para alcançar o objetivo.
No entanto, essa é a visão ou entendimento predominante do que seja um pensamento ou ação estratégica. É a perspectiva estratégica do "super-homem", ou do "He-man": "eu tenho a força".
O que está implícito nessa visão e em tudo que trata de estratégia é que envolve a participação do outro, ou dos outros. O obstáculo ou ameaça pode ser de um adversário e a oportunidade de um aliado. Que pode trair.
Significa que o estratégico tem implicito o confronto, uma guerra, em que os protagonistas nem sempre agirão como esperado, ou segundo a ética que o estrategista prega ou acredita.
A inteligência estratégica pode estar a serviço de um estrategista ou ser uma análise de um observador externo, sem um envolvimento direto com os confrontos e os contendores. Mesmo sendo apenas um "espectador", a sua avaliação jamais será inteiramente isenta. É uma pessoa humana sujeita a emoções, a preferências, aos seus valores. Portanto não esperem aqui intepretações inteiramente isentas, sem partidos, porém a tentativa é sempre de interpretações das perspectivas e ações das partes e não apenas de uma. A contrapartida é que a visão aqui é que não acredita que ninguém tem uma posição inteiramente isenta e está defendendo ou usando as suas visões ou interesses particulares. E que jamais haverá unanimidade. O mundo humano será sempre de confrontos. Com convivência pacífica, ou não.
Um dos confrontos que está na ordem do dia é o programa "Mais médicos", empreendida pela Presidente da República, sob muitas críticas de um lado e de apoio de aliados. O objetivo aqui, é de interpretação da contenda, sem participação direta em qualquer das partes.
A inteligência estratégica começa com uma avaliação dos objetivos declarados pelo contendor Governo. Esses seriam, a resolução de problemas da saúde da população, prejudicada pela falta de médicos. A questão principal não é a carência global, porém a má distribuição, com a concentração dos profissionais nos centros dos centros urbanos e a carência nas suas periferias, assim como em milhares de comunidades semi-urbanas, por todo o Brasil afora.
O problema de atendimento à saúde dessas populações periféricas ou mal assistidas existe de fato, apesar da maioria dos brasileiros desconhecerem essa realidade. Só são colocadas diante dela quando a mídia a traz, em geral, de forma trágica.
Mas o objetivo principal do Governo não é resolver o problema, mas transformar a solução em ativos eleitorais. Isso nos leva à questão seguinte: por que a Presidente insiste tanto nesse programa? A interpretação mais plausível é a mesma que domina as ações governamentais nos últimos anos: é uma prioridade de grandes segmentos da população, vale dizer dos eleitores, detectada pelas pesquisas do marketing político.
Os olhos do político brilham quando o marketeiro político chega com o resultado de pesquisas e lhe diz: "esse é o maior problema reclamado pela população do segmento x. Se você resolver, está reeleito". Ou diz o contrário: "se você não atacar essa questão, está "ferrado"".
A doença foi constatada e as suas causas e repercussões avaliadas: os médicos não querem ir trabalhar nas periferias das cidades, assim como nos grotões.
A solução levantada é a importação de médicos cubanos, que foram formados para a atenção básica à saude, sem recursos tecnológicos. Baseiam-se na avaliação pessoal e no uso de medicamentos naturais. No interior do país, a base seriam os indígenas, que não tratavam os seus doentes com remédios químicos. A morbidade é alta, mas o objetivo mercadológico é de reduzí-lo e gerar a imagem de que o Governo está cuidadando dessa população.
Os médicos cubanos tem a competência que o Governo precisa, para enfrentar o problema. Porém dados os preconceitos de natureza ideológica, ao que - na realidade - se somaram os preconceitos raciais e sociais, era preciso gerar alternativas. Dai a idéia de importar médicos de outros paises. Trazer para o Brasil, um suposto excedente de profissionais de paises em crise econômica. Só que esses não vão trabalhar nas comunidades perdidas do país. Vão trabalhar nas cidades, onde existem carências de pessoas.
Essa foi, tipicamente, uma ação estratégica. Quando se enfrenta um obstáculo, a alternativa é criar um objetivo altrernativo, às vezes falso, para desviar a atenção.
A estratégica principal do programa é importar os médicos cubanos. A importação dos demais médicos é "cortina de fumaça". ou melhor uma ação menor para atender às contestações dos oponentes. Promove-se então a revalidação dos diplomas dos formados no exterior. Isso para manter a ação de trazer médicos cubanos sem a revalidação.
Aparentemente, a estratégia não deu certo. A opinião publicada, insuflada pela comunidade médica "não engoliu" e mantém o fogo cerrado sobre os médicos cubanos. Com isso os oponentes terão os Ministérios Públicos como aliados, que poderão inviabilizar juridicamente o programa. A avaliação do Governo em relação aos oponentes foi subestimada.
domingo, 1 de setembro de 2013
Os desafios das metrópoles
Os maiores desafios
As capitais brasileiras vem enfrentando, nesses últimos 25 anos, sem sucesso quatro grandes desafios, decorrentes do processo de urbanização:- A acomodação do seu crescimento demográfico, ocorrida com grande segregação social e de atendimento das condições de vida;
- A localização das atividades econômicas geradoras de empregos;
- O deslocamento das pessoas da sua moradia ao trabalho e demais atividades urbanas e vice-versa;
- A maior utilização do automóvel para esses deslocamentos, suportados pelo crescimento da frota, gerando grandes congestionamentos.
(hoje vamos comentar apenas os dois primeiro dos desafios, deixando para tratar dos demais em outros artigos)
A segregação da população
Nos últimos 25 anos agravou-se a segregação urbana, com uma ampla descentralização da cidade formal, formando novas centralidades, ocupando intensamente a orla marítima, no caso das cidades litorâneas e a expansão desordenada da “cidade informal” mediante loteamentos clandestinos ou irregulares e invasões por uma população de menor renda, oriunda de imigrantes trazidos para as obras e posteriormente demitidos, com o seu término.Enquanto a população de maior renda ocupa as melhores áreas naturais ou supridas de infraestrutura e serviços públicos, multiplicando a valorização imobiliária, os de menor renda, sem capacidade econômica de se fixar nessas áreas, foram levados a se instalar em áreas "fora do mercado", por condições físicas, como as áreas de risco, ou por restrições ambientais.
Os planejamentos urbanos fracassaram nos objetivos de ordenar a ocupação dessa população, pois enquanto os seus instrumentos regulatórios dirigiam a dinâmica urbana da riqueza, apesar de distorções, não tiveram instrumentos para conduzir a dinâmica da pobreza, indisciplinada em relação ao planejamento, quando não contrária ao planejamento, como tem ocorrido com a localização da pobreza dentro do programa Minha Casa, Minha Vida.
As novas centralidades das atividades econômicas
As atividades urbanas evoluíram no sentido da predominância das atividades terciária, tanto do comércio varejista, como dos serviços, em detrimento das atividades industriais, com a concentração espacial em modernos edifícios de escritórios e shopping centers, abandonando o centro histórico em direção a novos polos, novas centralidades determinando, em muitos casos, a deterioração daquele polo tradicional, com insucesso das tentativas de revitalização. (Vamos tratar dessa questão, como das demais, em outros artigos neste blog)
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