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Vocação natural ou construída? Um falso dilema

O dilema do título  emergiu de uma falsa argumentação, ainda vigente sobre a diferença de valor por quilo de um produto agrícola e de um produto industrial: o valor obtido por um quilo de soja é muito inferior ao de qualquer produto industrial. Dai se inferir que o país deveria se dedicar mais à industrialização do que à agricultura.

Existem dois equívocos em relação à essa visão: o primeiro que o fator mais importante não é o faturamento. Mas o lucro.

Essa visão vale também para a macroeconomia. O indicador não é a soma de todos os faturamentos, mas a soma dos valores adicionados. O PIB é a soma de todos os valores adicionados.

A vocação natural é dada pela natureza. Como o homem aproveita essa vocação já seria uma vocação construída. Mas nos atendo às condições naturais a sua exploração transforma o ativo natural em capital monetário. A questão do desenvolvimento econômico está em como esse capital monetário é acumulado e aplicado.

Uma primeira aplicação da renda gerada pela exploração do ativo natural e na própria atividade. O volume de renda gerada depende da aplicação de tecnologias e da escala de mercado, que se reflete na escala de produção.

Enquanto a agricultura se baseava em tecnologias elementares e voltada para a subsistência ou consumo local, era e continua pobre. Ela se enriquece pela escala de mercado. Se enriquece quando amplia o seu mercado para o mundo e aumenta a produção. E quando evolui com a tecnologia, aumentando a produtividade na produção e essa própria, reduzindo as perdas, com os defensivos.

O desenvolvimento macro depende de como o excedente econômico é aplicado além do reinvestimento na própria atividade.

São Paulo se desenvolveu (e "puxou" o desenvolvimento nacional) pela aplicação desse excedente na sua industrialização. Não era a vocação natural do Estado, mas ela foi construída e desenvolvida.

A disputa que começou nos anos quarenta, na realidade,  não foi sobre as vocações, influenciada pelas teorias econômicas de então. Foi uma disputa pela destinação dos excedentes gerados pela atividade agrícola, no caso do café.

O ciclo atual não tem as mesmas características do anterior.
Os volume e valores são imensamente maiores. E as possibilidades de aplicação também.

Como essa aplicação não se dará em vocações naturais, as vocações construídas serão objeto de escolha.

Não deverá ser uma escolha estatal. Ficam dois caminhos para o setor privado: escolher por decisões individuais, cada qual com a sua visão particular de oportunidades e buscando o seu interesse, ou buscar caminhos mais coletivos, mais compartilhados.

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