Pular para o conteúdo principal

Políticas econômicas horizontais e verticais

Carlos Lessa - ex presidente BNDES
As políticas públicas verticais focam partes ou setores específicos da economia, tendo como objetivo desenvolvê-los, mediantes estímulos e benefícios fiscais. São caracterizados como políticas industriais. Na realidade são políticas setoriais. A denominação industrial vem da tradução de "industry" que equivale a setor e não à indústria. É a política preferida dos estruturalistas ou agora heterodoxos, porque se tornaram minoria, contra  o domínio dos monetaristas. 

Esses defendem as chamadas políticas horizontais, com mecanismo de aplicação genérica, deixando ao mercado utilizar melhor tais condições.

Um caso típico é a política tributária. Os ortodoxos pregam formas de tributação genérica, aplicável igualmente a todos os setores da economia, com as mesmas alíquotas e regras. Pode haver diferenciação por faixas de valor, mas não por setores.

Já os estruturalistas querem a aplicação de condições diferenciadas para os setores que o Estado deseja promover e desenvolver. Essa diferenciação decorreria de concepções estratégicas, ou de realidades históricas. Nesse último caso estariam os programas dos "campeões nacionais". É o apoio aos setores e empresas integrantes dos mesmos que historicamente deram certo. 

O pais que, recentemente, desenvolveu, com sucesso, essa política de "campões nacionais" foi a Coreia do Sul, promovendo as suas campeãs à condição de campeãs mundiais. Hoje a maioria das pessoas tem um televisão de tela plana Samsung ou LG.

No primeiro mandato, Dilma Rousseff - uma economista de formação cepaliana - implantou, com relativo sucesso, a política dos campeões nacionais. O sucesso é a JBF que se tornou campeã mundial no setor de carnes. Outras não foram tão bem sucedidas e algumas quebraram, no meio do camínho, com enormes perdas.

O resultado geral foi desastroso: a economia, como um todo, estagnou, a inflação ficou no limite superior da meta, ameaçando ficar descontrolada. E as contas públicas, assim como as contas externas acabaram altamente deficitárias.

O novo Ministro da Fazenda, de formação monetarista, tendo se formado no templo do monetarismo, defensor das políticas horizontais e contrário das políticas verticais mostrou-se muito hábil. Não tocou diretamente no tema, mas atacou uma das principais distorções das políticas verticais: a escolha dos setores a serem favorecidos por serem "amigos do rei". 

O grande risco das políticas industriais é favorecer o patrimonialismo. 

Embora isso não vá ocorrer em todos os casos o combate ao patrimonialismo é uma forma indireta de se opor às políticas verticais. Esse foi o recado que poucos entenderam. Mas o BNDES certamente entendeu.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cisma no clube da luluzinha

Em todas as grandes (e mesmo médias) empresas dominadas pelos executivos homens, as mulheres que alcançam os postos gerenciais tendem a se relacionar entre si, formar grupos entre elas seja para trocar conversas sobre as famílias, como sobre os demais gerentes e sobre o que ocorre ou acham que ocorre na empresa. Formam uma espécie de clube da luluzinha, em contraposição aos diversos clubes dos bolinhas, que se formam em muito maior número. 

Dentro da Petrobras, uma grande empresa com as características acima citadas, com o corpo gerencial e diretivo com predominância de homens, é natural que as poucas gerentes mulheres formassem o "clube da luluzinha". Duas se destacaram e subiram aos altos postos gerenciais: Maria das Graças Foster e Venina Velosa da Fonseca. Esta última preocupada com o rumos de operações "heterodoxas" buscou apoio na colega, contando-lhe das suas preocupações e suspeitas. Ela era a confidente a quem tratou das questões de forma cifradas. Colocou …

A decadência econômica e cultural da Av Paulista

A Avenida Paulista, na cidade de São Paulo, criada como a principal via de um loteamento de alto padrão, foi sempre tomada pelo capital e tornou-se um grande símbolo do capitalismo brasileiro.
Sofreu transformações, mas sempre sob o predomínio do capitalismo.
Está sob forte ataque dos movimentos sociais anticapitalistas que a "ocupam" com as suas passeatas, muitas vezes acompanhadas pelos blackblocs que aproveitam para depredar as agências bancárias. Como símbolo de destruição do capitalismo. 

A atual gestão municipal, de esquerda, mas representando mais a classe média ideológica do que o povo, propriamente dito, também quer tomar a Avenida, combatendo outro grande símbolo da civilização capitalista ocidental: o automóvel.

Fecha a avenida para os veículos motorizados, inclusive os õnibus e a abre para a classe média e para alguns pobres, nos domingos.

A elite cultural havia eleita a Avenida Paulista e seu entorno, como o polo do cinema-arte. Para frequentá-lo nos fins de semana.