quinta-feira, 15 de maio de 2014

As ilusões sobre o futuro das cidades

À mais de cinquenta anos no setor da consultoria de planejamento, participei de inúmeras ilusões sobre o futuro da(s) cidade(s) que nunca se concretizaram. O futuro dos planos de que participei ou acompanhei chegou várias vezes, sem ter alcançada a cidade que queriamos.
São reiteradas a cada ciclo de planejamento, com novas frustrações.

A razão principal está na perspectiva voluntarista em que cada qual sonha com a cidade que ele deseja e quer que os demais aceitem o que ele diz. Mas não necessariamente o que ele faz. 


O caso mais comum está relacionado com a mobilidade urbana. Quem tem carro quer que todos os outros deixem o carro em casa e utilizem o transporte coletivo. Mas não ele. 

Quando essa pessoa ganha o poder, o voluntarismo se torna autoritarismo. E acaba gerando mais distorções do que soluções.

A dinâmica da cidade não é linear, tampouco unitária e pacífica. Essa decorre de sucessivos confrontos entre visões e interesses.

Dois são os principais: o uso do espaço urbano para a movimentação e o desenvolvimento imobiliário.

O usuário e defensor do carro quer que o Poder Público disponibilize mais e melhores vias públicas de circulação, reduza ou elimine os gargalos, permitindo maior fluidez do fluxo de veículos.

Os oponentes ao carro querem reservar as vias públicas para o transporte coletivo, assim como destinar prioritariamente os recursos públicos para os sistemas de transporte coletivo.

Reclama-se da descontinuidade das ações governamentais nesta questão, o que é uma visão autoritária, ainda que baseada numa "ditadura esclarecida".

Como se trata de visões diferentes e até opostas, caracterizando-se como posições políticas a descontinuidade decorre da alternância do Poder, natural da democracia.

O problema está na hipocrisia política. Todos os políticos, quando candidatos discursam a favor do transporte coletivo, mas na prática continuam dando prioridade ao individual. Quando  resolvem por em prática a preferência pelo coletivo sofrem grandes resistências e oposições, como ocorre atualmente com o Prefeito de São Paulo. Perde prestígio, corre o risco de não ser reeleito  ou eleger o sucessor, dando lugar à oposição que não dará continuidade  aos seus projetos.

A dificuldade de solucionar o confronto é que no discurso político esse não existe. Como não existe no discurso do eleitor. Todos são a favor do transporte coletivo: para os outros, não para ele.

O outro confronto é o do desenvolvimento imobiliário. 

Os planejadores, as autoridades, a opinião publicada tem uma visão de melhoria imobiliária da sua cidade. Novos imóveis, novos edifícios, cada vez mais modernos e agora sustentáveis, propiciando melhores condições para morar, trabalhar, divertir-se, etc.

Uma cidade moderna, com maior oferta de serviços e comodidade. 

Esta cidade moderna tem custos maiores, mas gera maiores oportunidade de renda pessoal, para poder usufruir dessas novas ofertas.

Mas não para todos. 

O encarecimento é generalizado. Os benefícios não. Muitos ficam excluidos dos benefícios. Pior: são "expulsos" dos benefícios.

A expansão dos transportes coletivos é o caso mais típico. 

Os mais pobre ocupam áreas urbanas distantes do centro, sem o atendimento direto dos serviços de transporte coletivo. A inexistência desse é uma das razões que deprime o valor imobiliário das terras e viabiliza - do ponto de vista da renda - a sua ocupação pelas pessoas de menor renda.

Eles reivindicam o benefício desses serviços, com extensão de linhas, ou criação de novas, e quando essas chegam provocam uma valorização imobiliária que acaba por expulsar uma parte dos antigos moradores. Aqueles que viviam de moradia alugada, ficam se condições de pagar os novos valores e são obrigados a se deslocar para mais longe.

Mesmo os proprietários de imóveis, percebem a oportunidade de "fazer algum dinheirinho" e repassam o seu imóvel para irem buscar outro em áreas menos valorizadas.

O resultado é a expansão periférica, sempre vista como resultado da falta de planejamento. Mas, na realidade, resultado do planejamento. Resultado de uma ideologia dominante em relação ao desenvolvimento da cidade.

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