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O maior espetáculo da terra

Daqui a duas semanas começa da Copa do Mundo da FIFA, isto é, a Copa do Mundo de Futebol, o "maior espetáculo da terra". Serão 64 shows, alguns realmente espetaculares e  bons outros nem tanto, em 12 cidades brasileiras, mostrando os melhores e muitos dos mais caros esportistas mundiais.

Para vê-los presencialmente, em campo, é preciso desembolsar muito dinheiro, sendo um privilégio de elite. O futebol espetáculo, para ser visto ao vivo é só para os ricos. Os pobres não tem condições de acompanhar, a menos quando recebem migalhas, para completar a lotação do estádio local dos jogos, com baixa demanda.

Os "pobres mortais" acompanharão os jogos pela televisão, mesmo estando nas cidades-sede dos jogos equiparando-se aos bilhões que acompanharão, em todo o mundo, os jogos pela "telinha" (atualmente não mais tão telinha).

Mas os contribuintes moradores das cidades-sede, assim como todos os demais brasileiros darão seu quinhão, mesmo que não saibam, para preparar a infraestrutura necessária aos espetáculos,

Para trazêr os astros do futebol  ao Brasil, a FIFA que organiza o torneio esportivo, reembolsará aos clubes os seus salários e deverá pagar-lhes o direito de imagem. 

Essas deverão ser um dos principais itens de despesa da FIFA com a organização do evento. Essa é sua responsabilidade principal: rechear os espetáculos com os melhores craques do mundo.

Para trazer o espetáculo ao Brasil a FIFA fez inúmeras exigências de preparação da infraestrutura, com gastos muito superiores ao da organização do evento esportivo. Só para a construção ou reforma dos estádios, para receber os grandiosos shows, o Brasil gastará cerca de 8 bilhões de reais, a quase totalidade com recursos públicos, ainda que presumivelmente uma parte seja reembolsada pelas pessoas privadas, através de ingressos e publicidade. Os gastos da FIFA com a organização do torneio não deverá ultrapassar a metade desse valor. Em contrapartida lucrará o dobro dos seus gastos. Poucos negócios no mundo dão um retorno econômico tão grande como esse. 

A Copa do Mundo envolve essas duas dimensões básicas e o Governo Brasileiro fez confusão entre essas, desde o início, o que resultou numa sucessão de equívocos e uma preparação inadequada da sua parte.

Desde 2007 mostramos aqui, devidamente registrada, essas duas dimensões e a responsabilidade do Brasil em preparar a infraestrutura e não o evento esportivo. Esse é de inteiro encargo do setor privado, através da associação dos clubes de futebol, numa hierarquia, com as federações regionais e a Confederação Nacional, chegando à federação internacional.

O Governo Brasileiro, inicialmente assumiu a gestão do processo, diretamente pela Presidência da República, para garantir a sua realização no Brasil, assumindo todos os leoninos compromissos exigidos pela FIFA.

Na ocasião a própria sociedade brasileira concordava, ainda que sem a exata noção dos compromissos, de que para trazer esse magnífico espetáculo, para o país do futebol, valia tudo.

Embalado na sua popularidade e nas promessas de um Brasil melhor e mais moderno, Lula promoveu um clima de euforia popular que encobria a irresponsável aceitação de encargos que a sociedade brasileira, posteriormente, ao perceber foi às ruas protestar.

Depois de conseguir a indicação, o Governo brasileiro foi dormir e ao acordar atribuiu a coordenação das suas ações, ao Ministério e ao Ministro errado. 
O papel do Estado Brasileiro não era e não é com a organização do evento esportivo. Isso é, sempre foi, de total responsabilidade da FIFA, com o seu braço local - a CBF e o Comitê Organizador Local, e que não queria qualquer ingerência externa. O Governo Brasileiro conseguiu que a FIFA aceitasse a realização da Copa em 12 cidades e não apenas em 8. Isso porque a FIFA já contando com eventuais problemas ou atrasos requereu a preparação de 10 cidades e 10 estádios, no padrão FIFA. 

Diz a FIFA agora que Lula queria a realização da Copa nas 17 cidades candidatas a sede, para levar o espetáculo para todo o Brasil. Aceitou 2 a mais e recusou 5 a mais o que teria gerado gastos adicionais de mais muitos bilhões, só com novos estádios.

Ao entregar a coordenação das ações brasileiras para a Copa ao Ministério dos Esportes, dentro da equivocada percepção de que se tratava de um evento esportivo  a ser organizado pelo país deu início a uma sucessão de erros, que resultaram nos confrontos com a FIFA e a má preparação da infraestrutura necessária para receber os espetáculos.

O Ministro dos Esportes, indicado como o responsável pelo gerenciamento das ações brasileiras, preocupou-se mais em interferir na organização do evento esportivo, sem ter poderes e responsabilidades para tal.  Além do questionamento sobre a conveniência dessa ação não cuidou de coordenar as ações de infraestrutura, até porque não tinha - também - nenhum poder sobre as principais entidades governamentais responsáveis. 

No caso, o Itamaraty para as negociações com a FIFA, em relação às suas absurdas exigências; os Ministérios econômicos, gestores dos fundos governamentais utilizados para financiar os investimentos, tanto nos estádios como na infraestrutura urbana; o Ministério das Cidades, ao qual coube a homologação dos investimentos em mobilidade urbana propostos pelos governos estaduais e municipais; a Ministério da Defesa, ao qual ainda estava alocada a gestão dos aeroportos, posteriormente transferida pela uma Secretaria Especial da Aviação Civil; a Secretaria Especial dos Portos, responsável pela aprovação dos investimentos em terminais marítimos de passageiros; o Ministério dos Transportes, responsável pela infraestrutura rodoviária e pela regulação dos serviços de transporte interestadual; o Ministério da Justiça, responsável pelas ações de segurança pública; o Ministério das Telecomunicações, responsável pela infraestrutura de comunicações e acessibilidade das televisões e do público ao sistema mundial de comunicações; o Ministério de Minas e Energia para a garantia do suprimento de energia durante a Copa, o Ministério do Turismo para gerenciar as ações de marketing para aproveitar a grande oportunidade da visibilidade do Brasil no mundo e ainda articular a expansão da rede hoteleira e outras unidades governamentais.

Ao entregar o gerenciamento geral a um Ministro sem poderes e, ademais a um  Ministro pouco competente, nas questões de gerenciamento, o resultado não poderia ser diferente do que hoje vemos 
Com o agravante de tentar cuidar do que não lhe cabia e não cuidar do que lhe cabia.

Quando Dilma, que deveria ter assumida aquela coordenação, como chefe da Casa Civil, dadas as ações interministeriais e federativas, já presidente, percebeu a falta de gerenciamento e os atrasos, assumiu pessoalmente a coordenação, mas já era tarde. As coisas já estavam em andamento e mal, com atrasos e "estouros" de verbas. 

O que deveria ter sido planejado por ela, como a "mãe do PAC", criando mais um rebento, como lhe foi proposto - o PAC da Copa - ficou relegado a um Ministério menor.

Para não reconhecer os erros, manteve formalmente a coordenação com o novo Ministro dos Esportes, que continuou sem poderes, mas com o papel de se explicar ou se desculpar perante a FIFA, a mídia e ao público em geral, apresentando-se sempre confiante e otimista. Como se isso fosse suficiente para que as obras caminhassem e os obstáculos fossem superados. E ainda inventou ou consagrou a grande desculpa de que os investimentos não eram para a Copa, mas sim um legado para a sociedade, aproveitando a oportunidade da realização da Copa. Se não ficassem prontos, não tem maior importância. A sociedade irá se beneficiar dos investimentos, mesmo que só terminem depois da Copa. 

A FIFA fará a sua parte organizando os espetáculos. Gastará algum dinheiro e ganhará como nunca. Para ela será a "Copa das Copas". 

A Presidente quer se apropriar dessa condição, dizendo que o Brasil irá organizar a melhor Copa de todos os tempos, mantendo o equívoco.

Quem organiza a Copa é a FIFA, não Brasil. O papel do país é preparar a infraestrutura para que a bilionária entidade internacional organize o evento no pais hospedeiro. Nesse campo será a Copa da Vergonha.

E depois da sua realização só deixará o legado de dívidas do país com a sua preparação e a insatisfação do povo. Mesmo que a sua seleção levante o troféu, como campeã, no Maracanã, em 13 de julho.

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