Pular para o conteúdo principal

Legados da Copa - Manifestações de rua

Completada a Copa do Mundo da FIFA, no dia 13 de julho de 2014, o povo voltará às ruas? Caso o Brasil ganhe, sim: para comemorar. Serão mais 15 dias de comemorações nacionais e  locais como caravana da seleção ou dos seus jogadores voltando às suas cidades natais. Se não ganhar, não haverá festas. 

A realização da Copa poderá ser apenas uma suspensão no ambiente de insatisfação da população com "tudo o que está ai". 

A Copa serviu de catalizador das manifestações, não pelo evento em si, mas pelos gastos governamentais com a sua preparação e com as promessas não cumpridas. Foi um alvo generalizado e focado, embora não preciso. A oposição foi ao evento esportivo, mas as razões foram e vão muito além disso.

Alguns ativistas mais radicais chegaram a acreditar que com as suas mobilizações poderiam evitar a realização da Copa. Os movimentos causarão perturbações, mas não impedirão a plena realização do evento. 

Realizada a Copa, cessará o motivo de chantagem que muitas categorias de trabalhadores e movimentos sociais utilizaram para tentar (alguns com sucesso) o atendimento às suas reivindicações específicas.

A insatisfação generalizada e difusa voltará pelo conjunto das reações individuais. 

O povo voltará às ruas? Ou com a proximidade das eleições guardará a sua revolta para descarregar na urna?

Muitos dos descontentes acham que a manifestação do descontentamento está em votar nulo ou branco. Não votar a favor de nenhum dos candidatos.

O resultado prático, no entanto, será favorecer o candidato que está na liderança das pesquisas, em geral, o candidato à reeleição. Nas eleições os resultados só consideram os votos válidos. Branco ou nulo são inválidos.

Em São Paulo, o Governador Alckmin, com 44% das preferências do total, venceria no primeiro turno. No nível federal, Dilma tinha uma posição tranquila, agora ameaçada. Não tem mais garantida a eleição no primeiro turno.

Invalidar o voto é uma reação predominante da opinião publicada. Que se supõe mais educada, mais instruída e mais informada. Mas para muitos prevalecerá a reação subjetiva e pessoal. Ele precisa manifestar o seu protesto individualmente. Não lhe interessa se o resultado prático seja o oposto do que ele deseja: manter o "status quo", com a reeleição dos governantes atuais.

Essa válvula de escape fará com que não saia às ruas para manifestar a sua contrariedade.

Os ativistas com reivindicações específicas irão às ruas, mas não terão grande adesão. Reunir 20 mil pessoas será um grande feito. Mais de 100 mil só as marchas evangélicas, a parada gay ou festas de trabalhadores com sorteio e casas e carros. 

Poderá ocorrer, no entanto, algum incidente ou fato reprimido que dê origem a grandes mobilizações. Um eventual atentado contra Joaquim Barbosa gerará uma comoção social. O aumento das tarifas dos transportes coletivos dará origem a manifestações de jovens. Poderá ter grande adesão ou não. Provavelmente não. Uma grande parte dos usuários prefere pagar um pouco mais e ter os serviços, do que ficara com a tarifa congelada e não ter os serviços. 

O que causa comoção e reação popular generalizada é um assassinato bárbaro ou morte de vítimas de mau atendimento dos serviços de saúde.

Tanto num caso, como em outro, há uma repetição e acumulação de casos mal resolvidos, divulgados pela mídia: principalmente por aquela parcela que vive do sangue dos outros. Os fatos são reais e estão enchendo o copo. Em algum momento pode ocorrer um fato, ainda que isolado, que seja a gota d'água.

É crescente a sensação de toda opinião pública (não apenas da publicada) de que o povo não está sendo atendido adequadamente nas suas suas necessidades de recuperação da saúde. A saúde está sempre no topo das razões de preocupação da população, nas pesquisas de opinião.

As soluções governamentais tem sido paliativas, quando não demagógicas, como o programa "Mais médicos". É um programa correto, mas de atendimento limitado e a forma de execução, com a utilização de profissionais cubanos em regimes de trabalho similares à escravidão, o comprometem. Os favorecidos não irão às ruas para defendê-lo ou pedir a sua extensão.

A sensação é de que estamos sentados em cima de um barril de pólvora e a qual descuido esse poderá explodir. Quando isso e como poderá ocorrer é a grande incógnita.

A corrupção é outro grande fator de insatisfação popular, porém o seu combate é difuso. O elemento objetivo é o de apear do poder o suposto corrupto. Nas esferas federal e estadual, com a proximidade das eleições, o instrumento é o voto. Não há necessidade de ir às ruas para pedir o "impeachment" do governante ou da autoridade.

O que ainda poderá levar o povo às ruas, depois que aprendeu o caminho?

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Políticas econômicas horizontais e verticais

As políticas públicas verticais focam partes ou setores específicos da economia, tendo como objetivo desenvolvê-los, mediantes estímulos e benefícios fiscais. São caracterizados como políticas industriais. Na realidade são políticas setoriais. A denominação industrial vem da tradução de "industry" que equivale a setor e não à indústria. É a política preferida dos estruturalistas ou agora heterodoxos, porque se tornaram minoria, contra  o domínio dos monetaristas. 

Esses defendem as chamadas políticas horizontais, com mecanismo de aplicação genérica, deixando ao mercado utilizar melhor tais condições.

Um caso típico é a política tributária. Os ortodoxos pregam formas de tributação genérica, aplicável igualmente a todos os setores da economia, com as mesmas alíquotas e regras. Pode haver diferenciação por faixas de valor, mas não por setores.

Já os estruturalistas querem a aplicação de condições diferenciadas para os setores que o Estado deseja promover e desenvolver. Essa difere…

Cisma no clube da luluzinha

Em todas as grandes (e mesmo médias) empresas dominadas pelos executivos homens, as mulheres que alcançam os postos gerenciais tendem a se relacionar entre si, formar grupos entre elas seja para trocar conversas sobre as famílias, como sobre os demais gerentes e sobre o que ocorre ou acham que ocorre na empresa. Formam uma espécie de clube da luluzinha, em contraposição aos diversos clubes dos bolinhas, que se formam em muito maior número. 

Dentro da Petrobras, uma grande empresa com as características acima citadas, com o corpo gerencial e diretivo com predominância de homens, é natural que as poucas gerentes mulheres formassem o "clube da luluzinha". Duas se destacaram e subiram aos altos postos gerenciais: Maria das Graças Foster e Venina Velosa da Fonseca. Esta última preocupada com o rumos de operações "heterodoxas" buscou apoio na colega, contando-lhe das suas preocupações e suspeitas. Ela era a confidente a quem tratou das questões de forma cifradas. Colocou …

A decadência econômica e cultural da Av Paulista

A Avenida Paulista, na cidade de São Paulo, criada como a principal via de um loteamento de alto padrão, foi sempre tomada pelo capital e tornou-se um grande símbolo do capitalismo brasileiro.
Sofreu transformações, mas sempre sob o predomínio do capitalismo.
Está sob forte ataque dos movimentos sociais anticapitalistas que a "ocupam" com as suas passeatas, muitas vezes acompanhadas pelos blackblocs que aproveitam para depredar as agências bancárias. Como símbolo de destruição do capitalismo. 

A atual gestão municipal, de esquerda, mas representando mais a classe média ideológica do que o povo, propriamente dito, também quer tomar a Avenida, combatendo outro grande símbolo da civilização capitalista ocidental: o automóvel.

Fecha a avenida para os veículos motorizados, inclusive os õnibus e a abre para a classe média e para alguns pobres, nos domingos.

A elite cultural havia eleita a Avenida Paulista e seu entorno, como o polo do cinema-arte. Para frequentá-lo nos fins de semana.