Pular para o conteúdo principal

Quem organizou a Copa das Copas (para os alemães)

A Copa do Mundo da FIFA de 2014 foi um grande sucesso. Só não foi para a seleção de futebol da CBF, que representou o Brasil na competição.
O Governo se gaba de ter organizado a Copa das Copas. Mas de quem foi efetivamente a organização da Copa?
Como já comentamos anteriormente, a Copa tem diversas dimensões, cada qual com a sua organização. Como administrador, por formação e consultor em organização, por profissão, tenho o viés de ver a organização como um processo programado, e não como resultado de processos aleatórios e circunstanciais, que acabam dando certo.

Dentro dessa ótica quem organizou com sucesso da Copa da FIFA de 2014 foi o povo brasileiro com o seu jeitinho brasileiro. 

O Governo não organizou a Copa e a sua parte não foi cumprida, mas não empanou o sucesso, em parte, porque não era necessária.

A organização da FIFA deixou muito a desejar, mas o sucesso nos gramados e nas arquibancadas encobriu todas as falhas. Ela mesmo reconheceu algumas, mas ao final uma nota em torno de 7, numa escala de zero a dez seria razoável.

O resultado da organização da CBF foi marcado pelas humilhantes derrotas perante a Alemanha e a Holanda.

Ao Governo Federal coube apoiar a construção ou reforma de 12 estádios para receber os jogos. 
O Governo Federal não empreendeu as obras de nenhum estádio. Foram todos feitos pelos Governos Estaduais ou pelos clubes. O Governo Federal apoiou com financiamentos e benefícios fiscais.
Ainda que incompletos os estádios construidos ou reformados  foram suficientes para abrigar os jogos, em maiores problemas. Ficaram, como principal legado, enormes dívidas que não serão pagas com as arrecadações dos jogos, a menos do Itaquerão, mesmo assim a longo prazo. E no caso dos Governos Estaduais comprometeram receitas futuras.

O Governo Federal não cumpriu a sua parte nos aeroportos, mas não houve maiores problemas, porque não era essencial.

As pessoas do ramo sabiam e aqui também comentamos oportunamente que haveria uma redução substancial do movimento aéreo e aeroportuário no periodo da Copa por conta da suspensão dos eventos geradores do turismo de negócios. 

A dúvida era se o movimento turístico para a Copa compensaria a dimiunição do movimento para negócios. 

Compensou, mas não acrescentou. Ou seja, o movimento aeroportuário dos meses de junho e julho ficaram pouco abaixo dos anos anteriores. Não houve o caos que alguns - por ignorância dos fatos - alardearam. 

O Governo e a Infraero usaram a Copa para estabelecer regimes diferenciados para acelerar as contratações, mas já se sabia, no momento das contratações, que a maior parte das obras não ficaria pronta para a Copa. Só duas concessionárias de aeroportos acreditaram que os prazos eram para valer. E o Terceiro Terminal de Guarulho ficou pronto e vazio durante a Copa. Não era e não foi necessário.

Das obras de mobilidade urbana poucas eram essenciais para a Copa. Nenhuma ficou pronta completamente. O Governo cuidou de promover inaugurações parciais. Mas não eram e não foram necessárias, com exceção de Natal. 

Se as obras não ficaram prontas, mas não comprometeram a organização da Copa, o que aconteceu?

Simples. Não eram necessárias. A Copa foi usada como pretexto para financiar a execução das obras que estavam nos planos e não conseguiam começar. Com a expectativa da Copa começaram, mas agora que a Copa passou, a dúvida é quando vão terminar.

Ao Governo Federal, em apoio aos Governos Estaduais e Municipais coube a segurança fora dos Estádios. Houve uma grande mobilização, mas a atuação do Governo Federal não foi necessárias. Mas ajudou a reequipar as Forças Armadas. 

A Polícia Federal foi mobilizada e preparada para diversos cenários catastróficos desenhados de ataques ou problemas com as delegações. Nenhum desses ocorreu ou foi abortado, sem que a sociedade tomasse conhecimento.

Os Governos Estaduais deram conta, com ações preventivas - incluindo as repressivas prévias - das manifestações populares contra. Fora da cobertura pela televisão a maioria da população brasileira não viu nem soube dessas manifestações.

Então, se a preparação foi falha, a organização da FIFA teve falhas e a organização da equipe da CBF um fracasso, porque o resultado e a imagem final foi de uma "tremenda organização" pelo Brasil da Copa de 2014?

Por que não ocorreram problemas maiores, os turistas estrangeiros foram muito bem recebidos pelos brasileiros ficando encantados com a hospitalidade e, tirando os fracassos da Espanha, no início, e do Brasil no final, a Copa, em termos futebolísticos foi a Copa das Copas. 

Na organização da Copa da FIFA de 2014 funcionou a famosa "lei de Murphy" ao contrário: "se alguma coisa podia dar errado, não deu. E se alguma coisa poderia dar certo deu." As zebras pastaram à vontade nas fases iniciais, mas acabaram devoradas pelos leões, nas fases finais. 

Tudo funcionou na base do jeitinho brasileiro. Só não funcionou com a CBF que resolveu montar um time europeu.




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Políticas econômicas horizontais e verticais

As políticas públicas verticais focam partes ou setores específicos da economia, tendo como objetivo desenvolvê-los, mediantes estímulos e benefícios fiscais. São caracterizados como políticas industriais. Na realidade são políticas setoriais. A denominação industrial vem da tradução de "industry" que equivale a setor e não à indústria. É a política preferida dos estruturalistas ou agora heterodoxos, porque se tornaram minoria, contra  o domínio dos monetaristas. 

Esses defendem as chamadas políticas horizontais, com mecanismo de aplicação genérica, deixando ao mercado utilizar melhor tais condições.

Um caso típico é a política tributária. Os ortodoxos pregam formas de tributação genérica, aplicável igualmente a todos os setores da economia, com as mesmas alíquotas e regras. Pode haver diferenciação por faixas de valor, mas não por setores.

Já os estruturalistas querem a aplicação de condições diferenciadas para os setores que o Estado deseja promover e desenvolver. Essa difere…

Cisma no clube da luluzinha

Em todas as grandes (e mesmo médias) empresas dominadas pelos executivos homens, as mulheres que alcançam os postos gerenciais tendem a se relacionar entre si, formar grupos entre elas seja para trocar conversas sobre as famílias, como sobre os demais gerentes e sobre o que ocorre ou acham que ocorre na empresa. Formam uma espécie de clube da luluzinha, em contraposição aos diversos clubes dos bolinhas, que se formam em muito maior número. 

Dentro da Petrobras, uma grande empresa com as características acima citadas, com o corpo gerencial e diretivo com predominância de homens, é natural que as poucas gerentes mulheres formassem o "clube da luluzinha". Duas se destacaram e subiram aos altos postos gerenciais: Maria das Graças Foster e Venina Velosa da Fonseca. Esta última preocupada com o rumos de operações "heterodoxas" buscou apoio na colega, contando-lhe das suas preocupações e suspeitas. Ela era a confidente a quem tratou das questões de forma cifradas. Colocou …

A decadência econômica e cultural da Av Paulista

A Avenida Paulista, na cidade de São Paulo, criada como a principal via de um loteamento de alto padrão, foi sempre tomada pelo capital e tornou-se um grande símbolo do capitalismo brasileiro.
Sofreu transformações, mas sempre sob o predomínio do capitalismo.
Está sob forte ataque dos movimentos sociais anticapitalistas que a "ocupam" com as suas passeatas, muitas vezes acompanhadas pelos blackblocs que aproveitam para depredar as agências bancárias. Como símbolo de destruição do capitalismo. 

A atual gestão municipal, de esquerda, mas representando mais a classe média ideológica do que o povo, propriamente dito, também quer tomar a Avenida, combatendo outro grande símbolo da civilização capitalista ocidental: o automóvel.

Fecha a avenida para os veículos motorizados, inclusive os õnibus e a abre para a classe média e para alguns pobres, nos domingos.

A elite cultural havia eleita a Avenida Paulista e seu entorno, como o polo do cinema-arte. Para frequentá-lo nos fins de semana.