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A divisão do país

O país, sem dúvida, está dividido e os resultados das eleições indicam a ocorrência de uma divisão. Mas qual é essa divisão e o que cada uma das partes quer não é clara.

Os indícios são de que a sociedade se organiza numa pirâmide com uma base maior, formada por aqueles que só estão preocupados com a sua sobrevivência ou com a sua vida pessoal, pouco percebendo e se importando com os demais, com a comunidade, com a sua região e muito menos com o país. Pensar no mundo e na humanidade é total abstração, a não ser o medo persistente de que "o mundo vai acabar".

Obrigados a votar a sua preferência é pela manutenção do que já conquistaram, preservar a sua condição de sobrevivência. Alguns que já tem garantida essa condição, apoiam ou buscam apoiar aqueles que parecem lhe oferecer melhores condições para o seu crescimento e melhoria das condições de vida atual e futura.

Essa base da pirâmide teria votado majoritariamente na Presidente atual, dando-lhe a reeleição. Foi majoritaria, mas não unânime, a menos de algumas comunidades menores e mais pobres.

No meio da pirâmide está uma classe média formada por pessoas que tem uma visão um pouco mais ampla que das condições de vida cotidiana e, pela educação, pela informação, formam idéias do que gostariam de ter não apenas para si, mas para os seus, para a comunidade, para o mundo real em que vivem. E desenvolvem uma visão do que gostariam para o país. São influenciados pelas informações, difundidas pela mídia e, durante as campanhas eleitorais, pelos discursos, manifestações e propostas dos candidatos.

Esse estrato está dividido e, aparentemente, majoritariamente a favor da oposição, ou contra o Governo. Mas também não há unanimidade, com um grande número dos favoráveis às políticas de ações desenvolvidas pelos governos do PT, que nesses doze últimos anos que proporcionou a ascensão de uma classe média.

Dentro da classe média há diferenças e divisões, mas há alguns traços comuns, nem sempre percebidos: estão nesse estrato médio da sociedade por um esforço pessoal. Seja pela educação, como pelo trabalho. São frutos de uma ascensão social. E querem ser reconhecidos por isso, principalmente pelos que estão no topo.

Do ponto de vista político, estão os que creditam ao Governo as oportunidades para o seu crescimento individual, como os financiamentos educacionais, maiores oportunidades de ingresso na rede educacional, em todos os níveis, os programas de qualificação e capacitação e outros programas ou ações. Tem um sentimento de gratidão com o Governo e também a perspectiva de continuidade das condições para o seu crescimento individual ou do seu grupo. E não são apenas os integrantes da recente classe média emergente. Há os componentes de classes médias tradicionais.
Votaram com o governo, estimulados por uma campanha que pontuou esses aspectos: "você cresceu porque o Governo ajudou". A oposição não soube perceber o fenômeno, tampouco a mensagem governamental.

Uma outra parte credita à sua ascensão sócio-econômica, exclusivamente ao seu esforço pessoal, alguns achando até "apesar do Governo". Apoiam as mudanças. Supõe-se que seja a maioria, mas não há comprovação de tal.

No topo da pirâmide social, estariam os bem sucedidos. Que ascenderam ao topo pelo seu esforço pessoal, pela sua inteligência, pelo tino para perceber as oportunidades, pela capacidade de empreendimento e outros fatores de sucesso pessoal. Embora haja uma crescente participação de herdeiros que não "ralaram" para chegar lá, mas "nasceram em berço de ouro", alguns dos quais não trabalham, nem querem trabalhar a maioria trabalha, trabalha muito e creditam a sua condição de riqueza pelo seu esforço pessoal. Não creditam ao Governo o seu sucesso e o vê mais como um empecilho do que para uma ajuda para o seu crescimento pessoal ou a manutenção do seu status.

Embora focado na sua trajetória pessoal tem uma visão mais ampla, com uma visão do país que desejam e muito influenciada pela mídia e pelos seus formadores de opinião. 

Este estrato está de "saco cheio com o PT" cuja ascensão socio-econômica não segue os procedimentos e valores defendidos (embora nem sempre praticados) dos bem sucedidos economicamente.

Querem mudanças, mas não contam com votos numericamente suficientes para se contrapor aos dos estratos inferiores. Estão indignados e revoltados.

Da mesma forma que nos demais estratos não há unanimidade, com muitos, principalmente acadêmicos, a favor do projeto de maior igualdade social do PT. 

São duas visões de mundo distintas e essa determinam uma divisão política que é mais evidente. 

Os contrários tendem ao preconceito o que acirra o conflito. 

A sua eliminação começa com a superação dos preconceitos. 

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