Pular para o conteúdo principal

Os novos valores

Os 20 milhões de votos que Marina Silva obteve em 2010 foram predominantemente dos jovens de classe média, das grandes cidades, insatisfeitos com os rumos do país. São - em grande parte - os mesmos que foram às ruas em junho de 2013 protestar em geral. 
Inaceitam os valores tradicionais, mas não tem claros os novos valores, tampouco a compatibilidade entre eles.

A sua visão de mundo é predominantemente urbana e são contra:

  • a predação ambiental; seja do verde, como do ar;
  • o excesso de carros e os congestionamentos;
  • a excessiva verticalização da cidade e o que consideram como "especulação imobiliária";
  • a desiguladade social;
  • a corrupção e a falta de ética na condução das coisas públicas;
  • os desperdícios de recursos públicos;
  • a excessiva regulação e criminalização da vida pública;
  • o cerceamento das manifestações populares e a violência da repressão policial.

Por outro lado são favoráveis:

  • a discriminalização da maconha;
  • ao aborto, como direito individual;
  • à união civil dos homosexuais;
  • ao uso da bicicleta, como principal meio de deslocamento nas grandes cidades;
  • à tarifa zero;
  • à reciclagem do lixo e 
  • outros pontos ainda difusos, como educação de qualidade.
Essas posições são, principalmente, no discurso, mas afetam as suas decisões eleitorais. 

Na prática querem uma vida confortável, morando em prédios de apartamentos, verticalizados, com o seu carro na garagem, no presente ou no futuro. Acham normal o uso de roupas e sapatos de griffe, frequentar os "templos de consumo" se alimentar bem e manter um bom padrão de vida.

São acompanhados por jovens de classes mais baixas que não tem, mas aspiram ter os mesmos padrões de vida e os acompanham nos valores.

Embora sejam discursos, nem sempre compatível com as ações reais, e algumas vezes contraditórias esperam que os candidatos compartilhem com esses valores, no todo ou em parte, ainda que não predominantes ou mesmo hegemônicos dentro da sociedade brasileira. 

No momento, quem melhor compartilha esses valores (ainda que não todos) é Marina Silva, dai a sua grande aceitação junto a esse eleitorado.

Eduardo Campos os vinha assumindo, com a colaboração de Marina Silva, mas ainda não era um convicto dos novos valores. Vinha fazendo com muito cuidado para não confrontar com os valores tradicionais, que ainda são da maioria dos eleitores e da sua formação pessoal, como um jovem urbano.

Tinha condições de conquistar os votos desses eleitores desanimados ou desesperançados, mas a sua morte interrompeu esse processo.

Se Marina Silva o substituir na candidatura à Presidência terá o apoio desse eleitorado jovem. 

A questão é se terá apenas o apoio ou conseguirá animá-los a se mobilizar para sair às ruas e fazer campanha de forma voluntária. Atualmente as poucas bandeiras que vão para as ruas são levadas por pessoas pagas pelos partidos ou candidatos.

Outra questão é o que será do Brasil se prevalecerem os novos valores? A sua prevalência decorrerá de uma composição entre forças e valores contrários ou por imposição dos novos valores?

Além disso, como ficará o agronegócio diante do movimento ambiental?

Neste caso não há alternativas: o Brasil precisa e irá desenvolver o agronegócio e para isso precisará estabelecer um pacto com os ambientalistas.

Mas disso vamos tratar em outra oportunidade.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cisma no clube da luluzinha

Em todas as grandes (e mesmo médias) empresas dominadas pelos executivos homens, as mulheres que alcançam os postos gerenciais tendem a se relacionar entre si, formar grupos entre elas seja para trocar conversas sobre as famílias, como sobre os demais gerentes e sobre o que ocorre ou acham que ocorre na empresa. Formam uma espécie de clube da luluzinha, em contraposição aos diversos clubes dos bolinhas, que se formam em muito maior número. 

Dentro da Petrobras, uma grande empresa com as características acima citadas, com o corpo gerencial e diretivo com predominância de homens, é natural que as poucas gerentes mulheres formassem o "clube da luluzinha". Duas se destacaram e subiram aos altos postos gerenciais: Maria das Graças Foster e Venina Velosa da Fonseca. Esta última preocupada com o rumos de operações "heterodoxas" buscou apoio na colega, contando-lhe das suas preocupações e suspeitas. Ela era a confidente a quem tratou das questões de forma cifradas. Colocou …

Políticas econômicas horizontais e verticais

As políticas públicas verticais focam partes ou setores específicos da economia, tendo como objetivo desenvolvê-los, mediantes estímulos e benefícios fiscais. São caracterizados como políticas industriais. Na realidade são políticas setoriais. A denominação industrial vem da tradução de "industry" que equivale a setor e não à indústria. É a política preferida dos estruturalistas ou agora heterodoxos, porque se tornaram minoria, contra  o domínio dos monetaristas. 

Esses defendem as chamadas políticas horizontais, com mecanismo de aplicação genérica, deixando ao mercado utilizar melhor tais condições.

Um caso típico é a política tributária. Os ortodoxos pregam formas de tributação genérica, aplicável igualmente a todos os setores da economia, com as mesmas alíquotas e regras. Pode haver diferenciação por faixas de valor, mas não por setores.

Já os estruturalistas querem a aplicação de condições diferenciadas para os setores que o Estado deseja promover e desenvolver. Essa difere…

Transformar a produção agrícola em alimentos para o mundo

A agropecuária brasileira é - sem dúvida - uma pujança, ainda pouco reconhecida pela "cultura urbana". Com um grande potencial de desenvolvimento, diante do crescimento da demanda por alimentos pelo mundo, tem feito um grande esforço de marketing para ser reconhecido. Conta com o apoio da Rede Globo que tem feito uma persistente campanha na televisão sobre "Agro é tech, agro é pop, agro é tudo". Contestada nas redes sociais onde os "ambientalistas" dominam.

A idéia ou lema do "Brasil celeiro do mundo", sintetiza a posição da agropecuária, que acaba tendo uma resistência inconsciente por parte da sociedade urbana que não quer ser dominada pelo campo. 

Do ponto de vista macro econômico a contribuição da agropecuária para o PIB é pequena, por que está no início da cadeia produtiva. Somando o restante dessa cadeia a participação é estimada em cerca de 20%. Mas ai, a agropecuária representa apenas 25% do PIB do agronegócio, com a indústria representand…