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Uma nova inflexão dos industriais brasileiros

Industrial e indústria brasileira eram a mesma coisa. Para desenvolver a indústria brasileira e reduzir a dependência da importação de produtos industriais era preciso ter industriais brasileiros que instalassem fábricas no país.
Ainda antes dos anos cinquenta, precursores com Matarazzo, Crespi e outros começaram a produção nacional. Hoje estão apenas na história da industrialização brasileira. A família Ermirio de Moraes talvez seja um dos poucos industriais seculares.
A partir dos anos cinquenta, quando o Brasil fez um grande esforço de industrialização substituidora de importações, novos industriais emergiram, mas poucos ainda sobrevivem. Já nesse período, além dos industriais brasileiros, multinacionais vieram para produzir no país os produtos industriais por ele consumidos. A expansão do mercado interno e as barreiras de importação incentivavam esses grupos e empresas multinacionais a se instalarem no país, convivendo e concorrendo com industriais brasileiros.
Com a mundialização industrial, que antecede a globalização, o Brasil pouco se inseriu nesse processo, com algumas poucas empresas do setor têxtil e de calçados produzindo e exportando para marcas internacionais. 
A doutrina brasileira sempre foi de fabricar no país para abastecer o mercado interno e só exportar excedentes. Apesar de, de um lado defender a necessidade de exportar produtos de maior valor agregado e não apenas commodities, de outro não quis se organizar para ser um grande exportador industrial, inaceitando a instalação de fábricas voltadas exclusiva ou predominantemente para exportações. Não era e não devia ser a vocação nacional A única exceção, ao longo de muitos anos, era a EMBRAER que só produzia aviões para o mercado internacional. Marginalmente experimentava aviões menores no mercado nacional como ocorreu com os Bandeirantes.
Mesmo exportando apenas excedentes, o Brasil ainda nos anos noventa e início do século XXI conquistou diversos mercados com a exportação de produtos tradicionais até que a China entrou no mercado.
O ingresso da China no mercado internacional coincide com a "explosão" de dois novos modelos da indústria mundial: a emergência dos produtos eletrônicos e a terceirização em escala mundial, o chamado "outsourcing".
O setor de eletrônicos que vinha sendo gestado já na década de oitenta, "estoura" com a emergência do PC, promovida por Bill Gates e Steve Jobs. Este último avança mais na diversificação de produtos e promove a integração do computador com a telefonia. Como nos outros casos não foi pioneiro mas conquistou o mercado mundial, com o marketing e a produção barata em megaescala na China.
Com a terceirização passou a haver uma separação entre o industrial e a produção industrial. 
O industrial que vendia o seu produto com a sua marca, passou a ser o comercializador da sua marca, passando a produzir através de terceiros e não mais por produção própria. 
Com essa mudança a China passou a ser o grande exportador de produtos industrializados, embora ainda nos anos 00 do século XII poucas fossem as marcas chinesas conhecidas no mercado internacional. 
O que passou a dominar o mercado foi o "made in China" e não a marca chinesa. 
Só mais recentemente os chineses passaram a exportar os seus produtos com marca própria.

Nesse processo de mudança do modelo os produtos "made in Brasil" foram perdendo mercados, inicialmente no exterior e depois no próprio mercado interno.


Alguns industriais brasileiros que perceberam a mudança, passaram a produzir na China os seus produtos com a sua marca tradicional, consolidada no país.


Um caso típico é o de cama e banho. As marcas são as mesmas, mas não são mais produzidos em Santa Catarina e outros estado, mas são "made in China". As empresas e industriais mais nacionalistas que se recusaram e aceitar o novo esquema quebraram. 

Uma nova etapa emerge para os industriais brasileiros sobreviventes: a exportação da sua marca com a produção industrial "made in China".

A Estrela estaria iniciando - ainda que com muito atraso - esse processo, para continuar sobrevivendo.

Há um evidente processo de "desindustrialização" com o enfraquecimento da produção industrial no Brasil. A questão crucial desse processo está na terceirização.

O Brasil ainda resiste em aceitar a terceirização, com os sindicatos com a alegação do risco de precarização do trabalho. Diante das dificuldades e riscos é mais fácil terceirizar a produção com os chineses e outros asiáticos, do que dentro do país.

Cada vez mais as empresas industriais - nacionais ou multinacionais - vão vender os produtos com a sua marca, mas com produção externa. 

O crescimento do consumo nacional não puxa a produção nacional, mas eleva as importações. 

Dentro desse quadro há salvação para a produção industrial brasileira?

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