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Se houver um transporte público de qualidade as pessoas que usam o automóvel se transferirão para aquele, deixando o carro em casa.


É uma grande verdade enquanto não se torna real, porque a maioria acredita. E aqueles que não acreditam,  também repetem é porque acham que como nunca haverá transporte coletivo de qualidade e eles não serão obrigados a tornar o discurso em ação efetiva. 
Apoiam todas as medidas para desestimular o uso do automóvel e a transferência para o transporte coletivo. Mas não para eles, para os outros: "deixem o carro em casa, usem mais o metrô e os ônibus  desentupam as avenidas e as deixem mais livres para podermos circular  melhor". 
Por isso, todos - em tese - são favoráveis à transferência do carro individual para o o coletivo.
Só no exterior, onde metrô é condução para classe média. Em São Paulo, como em Recife e Fortaleza, onde circulei dos chamados metrôs, é condução de pobre. Em São Paulo, a linha amarela, que mais uso, é exceção, fora do horário de pico. Neste os trens são dominados por aqueles que trabalhando no centro expandido, seja no centro histórico, como no eixo da Paulista, fazem troca na estação Pinheiros, em direção às periferias a oeste e ao sul. 
Rico ou mesmo classe média, de média para cima, ou sejam os que estão nas classes A e B,  não estão dispostos a trocar o conforto do seu carro, mesmo parado no trânsito, ouvindo uma música, eventualmente até televisão, com ar condicionado, do que enfrentar apertos desde as escadas até a entrada nos trens e dentro do trens- esse mesmo que tenha ar condicionado. Alguns até tentam, mas logo voltam para o carro, porque a qualidade do transporte coletivo não os satisfaz.

Qualidade do serviço de ônibus para o usuário é lhe oferecer o seu acesso o mais próximo da sua origem, levando-o mais próximo do seu destino, sem baldeações, com o mínimo de espera e do tempo de viagem, com conforto. No caso do metrô, ferrovia urbana ou outro meio ferroviário, o usuário já sabe só vai encontrá-lo para linhas estruturais e para atender ao "porta-a-porta" terá que fazer trocas de meios. No Brasil, as linhas metro-ferroviárias foram planejadas e implantadas para atender ao fluxo centro-periferia. Mesmo quando previstas inicialmente para fazerem ligações inter bairros  sem passar pelo centro histórico, acabam atendendo a pressões para prolongar as linhas para chegar às periferias, como ocorreu com a Linha Verde do Metrô, de São Paulo.
O "povão" lota os veículos e afasta aqueles de renda mais alta que são os motoristas que se pretende que abandonem o seu automóvel, para se misturar com aquele. Esses querem que os outros usem o transporte coletivo e liberem as ruas e avenidas para eles. A prioridade do uso das vias públicas para o ônibus, em detrimento dos carros, melhora as condições de viagem dos usuários cativos, promove a transferência de alguns, mas não elimina os congestionamentos. 
A melhoria do transporte por ônibus é necessária e socialmente justificável. O Poder Público deve assegurar à população de renda mais baixa, que precisa se locomover diariamente, da moradia ao trabalho e para o cumprimento de outras funções urbanas e não tem opção, por restrições de renda, tempos menores de viagem. Mesmo que isso acarrete o aumento do tempo de viagem daqueles com melhor condição econômica. Mas que essa condição é suficiente para que esses deixem o carro em casa, e passem a usar o transporte coletivo, em grandes volumes, é uma ilusão. Os que farão isso são exceção, entre os quais me incluo. Mas por  conta dos meus privilégios de velho. Não é pelo passe livre, mas pela catraca livre. Nos ônibus entro pela porta da frente e saio por ela, sem precisar passar pela catraca e ter que empurrar as pessoas, quando os ônibus estão cheios. E as pessoas estão ficando cada vez mais educadas e oferecem os seus lugares, mesmo quando não estão nos locais reservados. Viajo sempre sentado. Tenho muitos amigos que fazem o mesmo. Mas são todos velhos. Os jovens que encontro são, na maioria, aqueles que ainda não tem carro. Mas o sonho da maior parte deles é ter um carro para "sair do sufoco". 
Os congestionamentos vão continuar, vão piorar. Mas não seriam inevitáveis. Decorrem de opções pessoais e das políticas públicas, de natureza social.

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