sábado, 19 de outubro de 2013

Adiamento do período "ainda sem carro"

As famílias de classe média (da qual faço parte) ao longo dos últimos anos promoveram significativas mudanças culturais.
Os pais ou avós até os anos sessenta frequentaram a escola pública, para a sua educação fundamental, em geral nas proximidades da residências. Em São Paulo, os principais bairros de classe média tinham escolas renomadas e referências em educação. No antigo ginásio, atualmente do 5º ano em diante, os estudantes ganhavam mais independência e se deslocavam de bonde. Automóveis eram raros.
A partir dos anos setenta começa uma mudança que foi se acentuando nos anos seguintes: os pais formados nas escolas públicas, começam a levar os seus filhos para a escola privada. Os bons professores não vão mais para a educação pública, mas empreendem escolas privadas. A demanda é grande e crescente e já no início do século XXI a escola pública foi, praticamente, abandonada pela classe média que, com isso, deixou de se interessar com a qualidade daquela, acelerando o processo de degradação.
Essa mudança foi acompanhada pela motorização da classe média e as crianças eram levadas pelos pais, de carro para a escola e também buscadas, gerando congestionamentos nas vias próximas às escolas nos horários de entrada ou saída, agravadas pela indisciplina dos motoristas, estacionando em fila dupla.
As crianças ao longo de toda a sua infância nunca utilizaram o transporte coletivo, até alcançarem a adolescência. 
Ao chegarem ao segundo grau, eram considerados independentes e muitos liberados ou encaminhados pelos pais para o uso do transporte coletivo. 
Uma importante demanda do sistema metroviário  como de ônibus em corredores era e é dos "ainda sem carro".
Ao ingressar na Faculdade, passavam a reivindicar ou mesmo eram agraciados com um carro. O automóvel era um dos principais prêmios para o jovem que passasse no vestibular.
Outras mudanças culturais ocorreram no mesmo período, como levar namorado(a) para dormir na casa, ficar mais tempo nessa mesma casa com os pais, casar-se mais tarde.
Agora essas mudanças estão envolvendo duas mudanças importantes nos jovens de classe média:
o adiamento da fase do "ainda sem carro", acompanhando o adiamento da saída da casa dos pais e do casamento (ou relacionamento sério). Alguns adotam a alternativa da bicicleta. 
Agora fazem toda a vida estudantil, sem carro. E essa também pode ser prolongada com os pós-graduações.
A fase do "com carro" só começa quando formados, começam a trabalhar. Mesmo assim, muitos permanecem sem carro, buscando trabalhar perto da residência, usando a bicicleta ou utilizando-se do transporte coletivo.
Esse adiamento do período "ainda sem carro" é um fenômeno crescente e terá impactos efetivos sobre a mobilidade urbana. Mas não há uma avaliação sobre a sua importância relativa. O quanto isso irá impactar na redução de carros nas ruas ou na melhoria de velocidade média dos veículos?
Impactos pontuais serão mais sentidos como: "cursinhos para vestibular" distantes de estações metroviárias perderão alunos para os que se situarem mais próximos daquelas. Faculdades com aulas diurnas requererão maior proximidade com o transporte coletivo de massa e mais ciclovias e bicicletários.
Já as faculdades com aulas noturnas tem outro público: os que trabalham e estudam. Muitos ainda serão "ainda sem carro", não por opção, mas por falta de condições econômicas de adquirir e utilizar o automóvel. Esse contingente, provavelmente, é muito maior do que os "ainda sem carro" por opção.
Uma questão adicional é avaliar o que ocorrerá com os "ainda sem carro", quando começarem a trabalhar, ou forma família e tiverem filhos em idade escolar, ou melhorarem as suas condições econômicas: passarão a ser "com carro" ou um "sem carro" por convicção.
Uma questão comportamental (que no conjunto se caracteriza como cultural) é que muitos dos "ainda sem carro" esperam que os outros continuem "sem carro" para eles poderem ser "com carro", trafegando mais tranquilamente. 
E se isso ocorrer, muitos dos "sem carro" por conta das dificuldades no trânsito, migração, muitos retornando a engrossar os "com carro" e os congestionamentos voltarão a crescer.





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